Jean-Claude Bernardet reflete sobre produção da longevidade, vida e morte

jean-claude-bernardet-reflete-sobre-producao-da-longevidade-vida-e-morteNuma entrevista em vídeo ao Canal Curta sobre o filme “Fome”, as reflexões de um crítico que marcou o cinema brasileiro. O ex-crítico e ensaísta, roteirista, professor aposentado da USP e hoje ator Jean-Claude Bernardet, uma vida inteira dedicada ao cinema brasileiro, enfrenta às vésperas de completar 80 anos, com lucidez e leveza incomuns questões fundamentais da condição humana, ao mesmo tempo que faz críticas à imensa máquina da medicina que produz a longevidade.

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Em entrevista concedida ao Canal Curta, Jean-Claude Bernardet reflete sobre temas muito caros à Gerontologia, como a ampliação da vida e com elas as limitações inerentes ao processo do envelhecimento, assim como a finitude que se aproxima, retomando, em certo sentido, o que havia escrito em 2015 sobre a máquina da medicina. A entrevista se deu durante o último Festival de Brasília – quando recebeu Prêmio Especial do Juri pela atuação no filme Fome, de Cristiano Burlan.

Jean-Claude Bernardet tem origem francesa. Nasceu em 1936 em Charleroi, na Bélgica, e passou a infância em Paris. Aos 13 anos veio com a família para São Paulo, mas no reduto francês até os 21 anos. Seu contato de fato com o Brasil real se deu ao fazer cursos no Senai e, posteriormente, ao frequentar um cineclube paulistano e Cinemateca Brasileira. Naturalizou-se brasileiro em 1964. É diplomado pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (Paris) e doutor em Artes pela ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP. Foi um dos criadores do curso de cinema da UnB, em Brasília, e deu aulas de História do Cinema Brasileiro na ECA (USP), até se aposentar em 2004.

É um autor múltiplo, com produção em teoria do cinema, ensaios, ficção, autobiografia e roteiros, atualmente escreve muito pouco, devido a uma séria degeneração da retina, uma das múltiplas formas da chamada maculopatia. Em entrevistas dadas à imprensa nacional, Jean-Claude tem dito que o que mais o preocupa não é diretamente a doença, mas um efeito colateral do colírio, que diminui a pressão ocular e também provoca outros problemas. Continua sendo convidado para colaborar com roteiros e atuar como ator – atividade mais constante nos últimos anos.

É em plena atividade como ator e consultor de vários filmes que, neste ano, em 02 de agosto, Jean-Claude Bernardet completa 80 anos. A comemoração, segundo ele, será em torno do filme “Fome”, porque representou para ele “a essência” de sua solidão e viu de perto a própria morte – mas “no controle da representação”.

jean-claude-bernardet-reflete-sobre-producao-da-longevidade-vida-e-morteFoi a partir do filme, ao representar, que Jean-Claude Bernardet tomou consciência da sua fragilidade, ao discorrer sobre temas da condição humana, como doenças, solidão, envelhecimento, morte e vida. Ele não entende o envelhecimento como uma prorrogação do já vivido, mas dentro das limitações óbvias acarretadas pelo envelhecimento, encontrar formas de se viver. Aliás, temas que ele vem trabalhando há algum tempo, mas que começaram a ser expressas no ano passado, quando fez severas críticas à máquina da medicina em seu blog, Acesse Aqui, no dia 10/04/2015, ao postar o post intitulado “Longevidade e capitalismo”:

“A imensa máquina da medicina (hospitais, laboratórios, farmácias, médicos, inseguro saúde, máquinas de diagnósticos por imagem etc, e mais cosméticos, alimentação…) produz a nossa longevidade. Somos um produto dessa indústria. Produto e fonte de riqueza. A máquina precisa manter nossa longevidade para se expandir e lucrar. A preocupação da máquina capitalista não é nos manter em vida com qualidade de vida, mas manter em nós a bio. À máquina não interessa o ser vivo, mas a bio de que ele é portador. Um primeiro passo para resistir à máquina que nos alienou de nossos corpos é se recusar a técnicas de prorrogação da bio em nós. Passo mais radical para eliminar a fonte de riqueza da máquina: o suicídio consciente e lúcido como forma de resistência extrema e de reapropriação de nossos corpos.”

A reflexão de Jean-Claude Bernardet nos obriga a pensar que civilização queremos, como também nos leva a pensar como podemos nos preparar para vivenciarmos as adversidades da vida nessa longa caminhada cada vez mais larga da existência.

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