Jardim da vida

Envelhecer não é escolha, é processo de vida, condição para estar vivo.  Envelhecer bem é escolha. É honrar a vida, uma reverência a si mesmo, às flores que cultiva.

 

O que mata o jardim não é o descuido do jardineiro. O que mata o jardim é o olhar desatento de quem passa por ele. Assim é a vida. Você mata os sonhos que finge não ver” (Mário Quintana)

Somos dotados pela vida de pelos menos dois atributos essenciais – o livre-arbítrio e a autonomia. O livre-arbítrio, nos dicionários, significa possibilidade de decidir, escolher em função da própria vontade, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Ou seja, todas as nossas ações se baseiam por uma escolha feita por nós. Até não escolher, já é uma escolha

As escolhas são consequência do nosso próprio sistema de crenças e valores, vindo de nosso processo de socialização, de aculturamento. Ou seja, a forma que aprendemos a ser e estar no mundo, quando tomamos nossas decisões. Podemos alterá-la sim, afinal, pau que nasce torto não precisa morrer torto. Graças a Deus, temos a força da evolução e inovação em nós, podendo recomeçar, recuperar e desenvolver, desde o nosso nascimento.

Entretanto, quanto mais conscientes somos de nossas escolhas, mais domínio temos sobre nossa autonomia em escolher e não em ser escolha de outros. Para tal, o processo de autoconhecimento é muito importante, pois, nos permite escolhas livres, dentro do nosso sistema de crenças e valores, optar por aquilo que nos é útil ou, o que carregamos para outro, mas é desnecessário ao nosso bem viver.

autonomia, segundo Kant, é capacidade da vontade humana de se autodeterminar. Auto – nomia (que vem de nome). Você dá o próprio nome, a própria voz, o próprio tom. Talvez esteja aí a dor do processo de envelhecimento. A gente pode olhar para trás e ver se fez as escolhas que quis fazer com liberdade, se viu os sonhos que precisava ver, se olhou com todo cuidado para o jardim, se teve a sabedoria para plantar certo, colher certo, poupar-se das ervas daninhas. Claro que nem sempre. Porque existem outros dois termos que podem preponderar sobre nossas vidas. A heteronomia, colocar o nome, as escolhas da própria vida nas mãos de outro – pais, cônjuges, filhos, chefes, vizinhos, sociedade… ou, deixar que a vida escolha ao léu, ou anomia – sem nome, sem objetivo, sem regras, sem escolher o próprio destino. Olhar de forma descuidada para o jardim da própria vida.

Envelhecer não é escolha, é processo de vida, condição para estar vivo.  Envelhecer bem é escolha. É honrar a vida, uma reverência a si mesmo, às flores que cultiva. Claro que haverá a seca e enchentes, ervas e animais que podem comprometer as flores do coração. Faz parte de a natureza às vezes parar e esperar as coisas aquietarem. Mas somos dotados de livre-arbítrio para desenvolver a própria autonomia, dirigir a própria vida, tomar as rédeas do cavalo que monta ser dono de suas escolhas.

Isso é responsabilizar-se pela vida que chega, cuidar do jardim. Busque o autoconhecimento, crie seus próprios objetivos, descubra os recursos pessoais que tem e amplie-se. Não deixe que o padrão que condicionou sua vida escolha por você.

Faça valer seu nome, sua assinatura, sua marca, suas flores em seu próprio jardim. Renove-se em você. Permita-se transformar em quem você verdadeiramente é.

Encerro com Cora Coralina, pois ela não desistiu de si:

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

 

 

 

 

Ana Cristina Curi

Ana Cristina Curi

Psicóloga formada pela PUC-MG. Especialista em terapia sistêmica e psicologia transpessoal. Membro do Colégio Internacional de Terapeutas. E-mail: anacristinacuri@yahoo.com.br

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