Já pensou em como sua vida mudará quando não puder mais dirigir?

Nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental, as pessoas dependem do seu carro para se locomover todos os dias. No Brasil o cenário não é diferente para quem é da classe média para cima. Existem alternativas disponíveis de transporte para quando isso acontecer ou as pessoas terão que ficar “presas” em suas casas por falta de opções de mobilidade urbana?

Antoine Belaieff (*). Tradução livre: Dhara Lucena

 

Após a Segunda Guerra Mundial, nós construímos nossas cidades e nossas vidas em torno de carros, que permitiu que milhões de baby boomers (pessoas nascidas entre 1946 e 1964) e seus filhos desfrutassem de grandes casas, jardins e uma liberdade sem precedentes. Os 74 milhões de baby boomers agora estão se aposentando e alguns entrando em idade mais avançada, mas alguns deles – ou seus filhos – vêm chamando a atenção à forma como eles se locomoverão em comunidades dependentes do automóvel.

Em Atlanta (EUA), por exemplo, 90% dos idosos viverão em bairros com falta de acesso a alternativas de transporte. Ao mesmo tempo, o número de jovens sem carta de motorista está aumentando. Assim, não dá para os idosos contarem com filhos ou netos para pegar carona, como era no passado.

Precisamos entender urgentemente que a mobilidade é essencial para uma ótima qualidade de vida: a capacidade de visitar amigos e família, sair para fazer compras, frequentar eventos culturais e religiosos, ou até mesmo consultas médicas. Será que as pessoas idosas permitirão que sejam “presas” em suas próprias casas?

Baby boomers não aturarão isso

Os baby boomers são um grupo especial. Desde o tempo em que nasceram, eles reformularam mercados e a sociedade através de suas necessidades específicas, adquirindo poder aquisitivo e o de votar. Como jovens adultos, eles resistiram a Guerra do Vietnã e a mudança social acelerada. Como adultos, eles mudaram o mercado de trabalho com duas rendas familiares (marido e mulher) e transformaram a economia de local para global e industrial para focar no setor de serviços. Todo movimento ou tendência social do consumidor nos últimos 50 anos ostentam sua marca, e eles sabem disso. Envelheceram e seu peso demográfico os tornou consumidores. Dessa maneira, comerciantes e políticos estão finalmente em sintonia com esses cidadãos. Ao menos nos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental.

Em termos gerais, o que sabemos sobre eles?

Primeiro, que eles geralmente têm mais tempo; que geralmente têm renda fixa; que à medida que envelhecem, muitos deles desenvolvem limitações físicas que podem restringir sua capacidade de andar, sentar por longos períodos ou ver bem, especialmente de noite; que a preocupação pela sua proteção e segurança cresce frequentemente. Especialmente nos Estados Unidos e Canadá, muitos idosos têm buscado locais mais quentes como a Flórida e o sudoeste para viverem na sua aposentadoria.

O que os baby boomers têm de específico?

Eles são uma geração saudável, mas as desigualdades de renda aumentaram na maioria dos países desenvolvidos no atual contexto econômico. Portanto, muitos idosos estão fazendo particularmente um grande esforço. Muitos escolhem continuar trabalhando, mesmo meio período, mas muitos deles não têm outra escolha.

Curiosamente, essa geração de idosos é a primeira a abraçar a internet. Em 1995, o baby boomer mais velho tinha 49 anos de idade. Eles se defrontaram com a internet no local de trabalho e testemunharam a rápida adoção dessas tecnologias por seus filhos. Isso reformulará completamente a face da aposentadoria, permitindo que se aposentem onde achem mais agradável e continuem trabalhando em uma ampla gama de ocupações – não só como consultores ou escritores, mas até mesmo fazendo artesanatos que podem vender em diversos sites, como o Etsy.com. Seu conhecimento tecnológico também facilitará o surgimento de uma espécie inteiramente nova de serviços de mobilidade.

Oportunidades

A mobilidade de idosos pode parecer um desafio intransponível, mas a força e influência dessa geração pode tornar isso uma tremenda oportunidade para políticos e comerciantes – mas somente se eles forem capazes de reinventar o transporte como um mercado de serviços integrados. Exemplos dessa mudança já estão emergindo na mídia e no mercado:

a) Sem desafiar o status quo da mobilidade, fabricantes de automóveis estão ocupados implementando recursos de segurança para auxiliar as pessoas a estacionarem, permanecer nas pistas, etc. Não é uma coincidência que esses recursos estão chegando no mercado agora.

ja-pensou-em-como-sua-vida-mudara-quando-nao-puder-mais-dirigirb) Veículos sem motorista poderiam ser benéficos para os idosos, como táxis, sem a necessidade de os idosos terem um carro. Desde 1960 eles estão sendo desenvolvidos. Um carro sem motorista pode fazer a maioria das coisas que um motorista pode fazer, geralmente melhor, podendo interagir com outros veículos e com a infraestrutura. Veja no link a seguir um vídeo do google a respeito: Acesse Aqui 

O leitor pode ler também uma matéria sobre o assunto, que assinala que o futuro do trânsito urbano pode ser um táxi: Acesse Aqui

Nem todos os idosos continuarão tendo ou dirigindo seus próprios carros. Alguns mudarão seus hábitos, evitando dirigir à noite ou em estradas movimentadas; outros não vão querer ou não serão capazes de conduzir por uma série de razões financeiras, médicas e pessoais. Em algumas regiões, o transporte público adequado pode atender muito bem as necessidades dos idosos.

Por exemplo, GO Transit é a empresa de transporte público regional da região de Toronto (Canadá), e uma divisão operacional da Metrolinx, onde trabalho. Desde a sua criação em 1967, GO tem focado nos usuários e atualmente não leva muitos idosos como parte da sua clientela: pouco mais de 3% dos clientes da GO Transit têm mais de 65 anos. No entanto, dos nossos sete segmentos de clientes, 4 deles (representando 72% do total de nossos clientes) têm mais de 45 anos.

Isso significa que grande parte da nossas clientela em breve já não precisará ou irá querer se deslocar nos horários de pico. Porém, a GO Transit é conhecida pelas avaliações altamente satisfatórias. Como bons contribuintes, os clientes irão provavelmente exigir soluções que atendam suas necessidades. Temos, portanto, oportunidade de continuar servindo um grande grupo de clientes que têm sido leais à empresa.

ja-pensou-em-como-sua-vida-mudara-quando-nao-puder-mais-dirigirA promessa da mobilidade integrada

Nos ambientes de transporte, o slogan do dia é a mobilidade integrada ou gestão da mobilidade, que consiste nas seguintes questões:

– Em poucas palavras, essa viagem é realmente necessária?

– Informações ou objetos não podem ser entregues às pessoas, em vez de as pessoas viajarem para recebê-las?

– Focamos na movimentação de informação, coisas ou pessoas – ou estamos apenas olhando para os veículos em movimento?

– Qual é o custo e o impacto da viagem nos usuários e na sociedade?

– Quais são as opções disponíveis, a fim de eficiência, custo ou impacto? Esta informação é de fácil acesso?

– Olhamos a viagem inteira de porta em porta, ou estamos muito focados na parte da viagem que controlamos?

– A experiência dessa viagem é agradável?

Fora a área urbana, não fornecemos mobilidade integrada em algumas cidades europeias e asiáticas progressistas. Uma miscelânea de agências em todos os níveis do governo regulam o transporte que, junto com empresas privadas fornecem infraestrutura, serviços relacionados com o transporte. Serviços de transporte convencionais e de transportes especializados são especialmente confusos, funcionando como uma colcha de retalhos de prestadores de serviços, financiadores e critérios de elegibilidade. Portanto, fica difícil dizer quem é o responsável.

Liberdade de não ter carro

Um dos conceitos que está emergindo da mobilidade integrada é a “Liberdade de não ter carro” – uma ideia concebida pelo Grupo de Gerenciamento de Mobilidade MMM (MMM Mobility Management Group), como parte de sua mobilidade urbana.

Como primeiro passo, a plataforma da “Liberdade de não ter carro”fornece suporte aos usuários, ajudando-os com mapas a compreender suas necessidades de mobilidade. Para onde eles vão regularmente? Há destinos que podem estar na rotina do idoso, como uma agência bancária perto da casa onde morava antigamente ou do trabalho antes de se aposentar, e que poderiam ser substituídos por destinos mais próximos de sua casa atual? O site oferece ainda recursos para calcular o custo de se ter e dirigir um automóvel, comparando com outros modos de ir e vir , como uma corrida de táxi. O site também ajuda a reduzir barreiras ao vender um carro, que pode ser assustador.

“Liberdade de não ter carro” visa diminuir os obstáculos para modos alternativos de se movimentar, fornecendo informação sobre – e acesso a – transporte, táxis, partilha de automóveis, e faturamento consolidado que ainda pode ser complementado por parentes ou agências de serviços sociais. Também visa conectar usuários para compartilhar suas experiências como “pioneiros da mobilidade integrada”.

Táxis e serviços de compartilhamento de carro são dois serviços enfatizados no conceito atual, no entanto a beleza de tal plataforma é que ela cria uma base maleável para uma infinidade de novos serviços e parcerias:

– Um site associado poderia servir como um calendário, lembrando os idosos de eventos e compromissos, ligados às opções de mobilidade para cada evento. Por exemplo, o centro comunitário local poderia ter presença na plataforma. Se inscrever para um curso resultaria em uma busca automática para opções de mobilidade, incluindo passeios compartilhados com outros participantes.

– Opções poderiam ser definidas, comparando-as em tempo e custo. O trânsito e transporte de informações em tempo real pode ser fornecido também.

– O site poderia ajudar a estabelecer e recompensar uma caminhada, proporcionando uma melhor qualidade de vida.

– Usuários poderiam se organizar e dar carona para outros, usando o compartilhamento de automóveis.

– Usuários poderiam reservar novo transporte sob demanda ou serviços de táxi – privado ou compartilhado.

– Os mesmos créditos poderiam ser usados para entregas locais – como mantimentos ou cestas de produtos frescos – para que as mercadorias se movimentem em vez da pessoa idosa.

– Instalações médicas poderiam enviar lembretes aos pacientes, e automaticamente remarcar serviços de transporte se um compromisso for alterado.

– Empresas podem atrair idosos e se interessar em patrocinar viagens, por exemplo, a um shopping center.

O lançamento da plataforma inicial é a parte mais difícil, pois requer corte do funcionalismo:

– Níveis nacionais, subnacionais e locais – os reguladores e financiadores

– Diferentes agências de serviços sociais (saúde, veteranos, etc)

– Diferentes agências de transportes – convencionais e especializadas

– Atores do setor privado, por exemplo, táxis, ônibus, compartilhamento de carros

É necessário um visionário para iniciar o desenvolvimento do programa, trazer todos os participantes ao redor da mesa, além de todas as organizações sem fins lucrativos interessadas em conduzir a missão, e desenvolver uma plataforma inicial que pode crescer para abranger uma crescente oferta de serviços. Vai valer a pena. Apenas nos Estados Unidos, 74 milhões de idosos vão, um dia, exigir soluções de mobilidade concebidas apenas para eles.

Pense no seu negócio em 10, 20 anos

Como empresário de serviços de transporte, pense no seu negócio em 10, 20 anos. Se você tem como objetivo atrair o mesmo tipo de consumidores, quão grande esse grupo será? Se você seguir seus clientes atuais enquanto eles envelhecem, quais tipos de produtos e serviços eles iriam querer e necessitar? Quais oportunidades e ameaças as pessoas idosas representam para o seu negócio? Você está pronto?

Como uma empresa ou empresário estabelecido com experiência em cidades e/ou transporte conectados, que tipo de produtos ou serviços novos você poderia projetar que contribuiriam para a mobilidade integrada, e, mais especificamente, a mobilidade dos idosos?

Como uma das partes interessadas no sistema de transporte público convencional e especializado, o que você pode fazer para começar e levar a discussão sobre mobilidade integrada ou gestão da mobilidade a um nível regional, mantendo os idosos em mente como um segredo público?

– O Centro Nacional de Recursos para o Serviço de Coordenação do Transporte Humano possui alguns recursos. Veja o site deles Aqui 

Como um secretário de transportes ou prefeito eleito pode garantir que a sua cidade apoie a mobilidade das pessoas na velhice?

ja-pensou-em-como-sua-vida-mudara-quando-nao-puder-mais-dirigir– Um exemplo pode ser encontrado no site Aqui, que mostra cidades que são projetadas para uma variedade de habilidades, com densidades mais elevadas e uma mistura de usos.

Entenda e haja de forma a reduzir o fosso digital, permitindo às pessoas idosas ter acesso a compras online e novos serviços de transporte.

Aprenda com os economistas que argumentam que em vez de nos comportarmos como pessoas econômicas, nos comportamos irracionalmente. Isso explica porque não fazemos dieta e exercícios físicos, e não poupamos o suficiente para a aposentadoria. Isso também explica porque passamos a ser uma comunidade dependente de carro cinco anos antes de sermos incapazes de dirigir!

– Visite o site acessível sobre a economia comportamental na Nudges.org

E, pessoalmente, pense sobre o que aconteceria se você ou os seus pais não conseguissem mais dirigir. Que tipo de comunidade preservaria a sua independência? Navegue por Walkscore.com e imagine que você não pode mais andar muito. Que tipo de utensílios o auxiliariam a se locomover mais fácil?

(*) Antoine Belaieff é diretor responsável pela inovação da Metrolinx. Ele também supervisiona o Programa Smart Commute, que oferece serviços da TDM para os empregados e a Iniciativa de Parceria de Trânsito, que trabalha com sistemas de trânsito para comprar ônibus e bens e serviços relacionados. Antoine Belaieff é um profissional do planejamento, com bacharel em Administração pela Universidade de McGill, mestrado em Planejamento pela Universidade de Toronto e outro mestrado em Liderança Estratégica para Sustentabilidade do Instituto de Tecnologia de Blekinge, na Suécia.

Artigo postado em 5 de fevereiro de 2013: Acesse Aqui

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