A invisibilidade despercebida: Idoso é frágil, mas não é bibelô para ser esquecido na estante da vida

Existe uma invisibilidade praticada pelas famílias que passa despercebida. É acometida inconscientemente, retirando aos poucos o idoso do palco de suas próprias vidas, deixando-os nos bastidores, intensificando a sua dependência. Deve-se observar e evidenciar as atividades de vidas diárias – AVD que os idosos conseguem desenvolver sozinhos e as que precisam de auxílio, providenciar ambientes favoráveis e adaptados que contemplem todas as suas necessidades para que tenham cada vez mais autonomia e liberdade.

Salete Ramos (*)

 

O mundo está envelhecendo

De acordo com Lima-CostaI e Veras (2003), “Sem dúvida, um dos maiores feitos da humanidade foi a ampliação do tempo de vida, que se fez acompanhar de uma melhora substancial dos parâmetros de saúde das populações, ainda que estas conquistas estejam longe de se distribuir de forma equitativa nos diferentes países e contextos sócio-econômicos. O que era antes o privilégio de poucos, chegar à velhice, hoje passa a ser a norma mesmo nos países mais pobres. Esta conquista maior do século XX se transforma, no entanto, em um grande desafio para o século que se inicia. O envelhecimento da população é uma aspiração natural de qualquer sociedade, mas não basta por si só. Viver mais é importante desde que se consiga agregar qualidade aos anos adicionais de vida. Dessa forma, surgem os seguintes desafios para a Saúde Pública, como reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde: (a) como manter a independência e a vida ativa com o envelhecimento? (b) como fortalecer políticas de prevenção e promoção da saúde, especialmente aquelas voltadas para os idosos? (c) como manter e/ou melhorar a qualidade de vida com o envelhecimento?”.

Política que tem como objetivo assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade. Ou seja, considerando a crise em que o mundo e principalmente o Brasil está vivendo, cujos direitos sociais – que são os principais para uma qualidade de vida entre aspas “melhor” -, como Seguridade social, Previdência Social, Saúde, e Educação estão sendo retirados da população, estamos vivendo um período de retrocesso  muito grande. Esses tais direitos nem começaram a ser aplicados e já estão sendo retirados a partir da Proposta de Emenda Constitucional-PEC 241 de 2016, Reforma da Previdência… propostas que alteram a constituição para limitar o crescimento das despesas, e isso acarreta a retirada de direitos em todas as áreas, a população de todas as faixas etárias estará sendo afetada, principalmente a idosa.

Invisibilidade: resultado de um ato de amor, sem reflexão de futuro

Existe uma invisibilidade praticada pelas famílias que passa despercebida, é acometida inconscientemente, retirando aos poucos o idoso do palco de suas próprias vidas, deixando-os nos bastidores e com isso intensifica a sua dependência. Deve-se observar e evidenciar as atividades de vidas diárias – AVD que os idosos conseguem desenvolver sozinhos e as que precisam de auxílio, providenciar ambientes favoráveis e adaptados que contemplem todas as suas necessidades para que tenham cada vez mais autonomia e liberdade.

No exercício diário de minha atuação como assistente social, em um Hospital de alta complexidade, uma Instituição de Especialidades Cardíaca, situada na Zona Sul de São Paulo, observo no dia a dia que essas atitudes levam os idosos para essa invisibilidade despercebida, praticada automaticamente por profissionais de várias áreas. Dou como por exemplo o seguinte: como é de orientação da instituição, o idoso deve vir às consultas sempre acompanhado, e quando ele entra no consultório, o médico erroneamente dirige todas as perguntas ao acompanhante e não a ele, como se o idoso não fosse capaz de responder sobre si. Esse ato concretiza o que tento falar, a retirada de autonomia, de direitos e a tão despercebida invisibilidade. E o familiar reproduz isso, responde pelo paciente, não dando a chance do próprio responder ou perguntar algo, afinal a consulta é para ele, ele que tem que colocar as questões que o aflige, salvo nos casos em que o idoso não consegue fazer por conta de alguma patologia. Outro local onde essa prática se repete frequentemente é nas enfermarias, cuja equipe multiprofissional, em visita beira leito, começa a falar do estado do paciente com ele ali no leito e não dirige a palavra para ele, falam dele e não com ele, como se ele fosse invisível.

Muitos familiares reproduzem isso, no dia a dia do lar, tratam seus idosos como se eles fossem um bibelô, não fazem isso por mal, e sim por excesso de zelo e saem reproduzindo práticas que, sem perceberem, estão violentamente retirando a autonomia da pessoa idosa, com isso esquecendo o processo histórico, o longo e árduo caminho, a vida social, pessoal e profissional que esse idoso percorreu até agora, esquecendo que essa pessoa que hoje encontra-se envelhecida foi o ator principal de toda sua base, emocional, material, foi seu referencial de exemplo para sua existência. Retirando cada vez mais as responsabilidades, com proibições, e imposições, não deixando o idoso participar das atividades rotineiras da casa, exemplos: ninguém pergunta ao idoso o que ele quer comer, o proíbe de realizar tarefas que passou anos desenvolvendo com destreza, proíbe de sair sozinho, não respeita o programa que ele gosta de assistir, a estação de rádio que gosta de ouvir, muda suas coisas sem ao menos pedir permissão, não dão atenção às suas histórias, essas são práticas que são reproduzidas inconscientemente e levam o idoso à invisibilidade despercebida.

Quando não chegam ao extremo de retirá-lo de seu habitat natural, de sua casa, de seu sítio e o levam para apartamentos, pensando na sua segurança, só que esquecendo-se de perguntar se era isso que ele queria. O familiar faz o que é mais cômodo para ele, e não para o idoso, com esses pequenos gestos o idoso torna-se invisível dentro do próprio lar, isolando-se, ficando cada dia mais distante de todos e tudo, caindo em depressão e na fragilidade. É importantíssimo prestar atenção nesses atos que praticamos sem refletir, e nas consequências que têm na vida do idoso e devemos sim cada dia mais incentivar a participação do idoso na rotina da casa, na direção de sua vida, evidenciar que ele é o protagonista de sua vida, ele tem algumas limitações, menos agilidade, mas com paciência, amor e incentivo, consegue desenvolver muitas tarefas. Viabilizar sempre um bom suporte familiar, revezando entre todos, para que não sobrecarregue a pessoa que está designada a cuidar desse idoso, se for preciso contar com apoio dos parentes, amigos, comunidade e igreja.  Deve-se demonstrar para o idoso a importância dele no seio da família nesse momento de sua vida, e por todo seu legado, ter sempre uma escuta qualificada para descortinar os desejos, necessidades e pedidos dos idosos, mesmo aqueles que estão nas entrelinhas.

Considerações

Observar a população idosa que está cada dia mais ampliada é pensar que temos que ter um olhar mais complexo, uma escuta qualificada e apurada com muita atenção para as demandas emergentes, para detectar o que não está aparente, prestar atenção nas falas, nos olhares, nos gestos, buscar cada vez mais recursos, embasamento e entendimento para lidar com essa população. Ter o cuidado para que atitudes e pensamentos baseados nos cuidados não acabem tirando a autonomia que muitos idosos ainda têm. Normal ouvir os filhos com excesso de zelo proibirem os seus idosos a desenvolverem as tarefas que sempre fizeram com destreza e muitas habilidades – e que agora fazem mais lentamente -, e por falta de paciência, acabem cerceando os idosos nas suas atitudes, tirando-lhes o pouco de autonomia que lhes restam. Os idosos acabam sendo deixados de lado e não decidem mais nada, apenas aceitam calados, muitos não têm nem o direto de expressão, passam a não decidirem mais nada sobre sua vida e sobre a rotina da casa, acabam ficando cada vez mais entristecidos e isso acarreta muitas consequências, como a fragilidade e dependência. Quanto mais dependente e ágil o idoso for, melhor serão as relações familiares. Devemos valorizar a autonomia que muitos idosos ainda têm, incentivar e valorizar cada vez mais, para que o cerceamento dessas ações não os coloquem na estatística da dependência.

Referências

BRASIL, Ministério da Previdência e Assistência Social – Lei n. 8842. Política Nacional do Idoso. Brasília: DF, 4 de janeiro de 1994. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8842.htm. Acesso em: 06/11/2016.

https://pt.wikipedia.org/wiki/PEC_241

LIMA-COSTA, M.F; VERAS, R. Saúde pública e envelhecimento. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(3): 700-701 mai-jun, 2003.

LOPES, RUTH CELEHRTER COSTA; CALDERONI, SILA ZUMGMA. O idoso na família: expansão de possibilidades ou retração? In: Neto, Matheus Papaleo Tratado de Gerontologia. São Paulo, Atheneu, 2007. P 225-231.

(*) Salete Y. S. Ramos Assistente Social, graduada em Serviço Social pela Universidade Paulista-UNIP (2015). Estágio no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo IPT; Atualmente faz parte do Programa de Aprimoramento Profissional-PAP, no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. E-mail: saleteyolanda@gmail.com

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