Investimento no Idoso Vulnerável: uma questão de política pública

Qual é a importância de se investir no idoso vulnerável? Este foi o tema de reflexão do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento (PUC-SP), de 30 de agosto de 2017, evento aberto à comunidade que acontece toda última quarta-feira do mês.

Por José de Carvalho Araújo Júnior*

 

O grande investimento ainda é por parte da família, mas estes investimentos poderiam, inclusive, acontecer muito antes que a situação chegasse a tal ponto de vulnerabilidade, pois esta, a família, poderia influenciar positivamente no trato da condição em que se encontram hoje e, em consequência, os idosos teriam uma melhor qualidade em seu prolongamento da vida. Ao apontar possibilidades de investimentos foram apresentadas várias alternativas, entre elas o investimento da família para com o idoso mereceu destaque.

Nesse mesmo encontro foi passado documentários que apresentam relatos de família por meio de depoimentos em que os idosos se encontravam com Demência em estágio avançado e terminal, reforçando a discussão a respeito da importância da família no investimento do idoso em situação de demência. Os depoimentos focam na importância de a família investir em profissionais de diversas áreas, pois na visão deles, ao visitar os lares aonde se encontram idosos com tamanhas fragilidades, esses profissionais realizam atividades que contribuem para o prolongamento da vida.

O cenário em que viviam as famílias nos documentários apresentados eram de famílias de classe média alta, economicamente bem, com moradias dignas e que dispunham de recursos para investir na contratação de equipes multidisciplinares (Terapeutas Ocupacionais, Fisioterapeutas, Arterapias, Psicólogos), entre outros.

Entendo ser necessário pensar também em investimentos para grupos, pertencentes a diversos outros cenários (contextos) nos quais possamos encontrá-los e nas diversas formas de vulnerabilidade que possam se apresentar, em condições socioeconômicas e contextos sociais muito vulneráveis socialmente falando.

Me fundamento no texto de Fonseca (2016), “Envelhecimento Ativo e Seus Fundamentos”, no qual a autora assinala que envelhecer é sinônimo de vida, da forma como define Canguilhem, “a vida é polaridade dinâmica [porque ela] é, de fato, uma atividade normativa” esta resulta da capacidade de instruir normas, reagindo à destruição (morte). Ao considerar na capacidade normativa, aqui denominada de “normatividade”, o germe da viva; viver passa a ser então, numa perspectiva de qualidade de vida, uma normatividade biológica.

Vidas que nascem a cada “Alvorecer” e no dia-a-dia se renova a cada entardecer, percorrem um envelhecer em um contexto que, a meu ver, meio que amargo, mas com sabor de que podem sempre mais.

Mas não é bem assim amargo, doce, com ou sem sabor o percurso a ser seguido nesse modo de envelhecer vivenciado por idosos no semi-árido brasileiro.

A vida de senhores e senhoras, que vivem em meio à atividade braçal, em terras firmes e produtivas, no trabalho laboral na busca constante da garantia de subsistência, por meio da atividade agrícola, passa e perpassa por constantes transformações diante do processo natural do envelhecer. Esse cenário requer um olhar atento e diferenciado. Muitos dos idosos que vivem nesse contexto relatam a beleza existente no seu poder ser e poder fazer. Mesmo diante das dificuldades, limitações e fragilidades, confirmam em cada dizer, em cada verso ou palavra, ser nesse movimento de afazeres domésticos, roceiros e grosseiros, marcado por uma gama de atividades, as mais diversas possíveis apresentadas na realidade em que vivem, fazendo com que suas vidas se prolongam cada vez mais. Isso caracteriza-se pela luta constante por viver a vida na velhice.

Recentemente em viagem ao nordeste, conversando com alguns senhores, comentei com eles que estava aprimorando os meus estudos por meio de uma área denominada Gerontologia, e logo me perguntaram o que seria isso. E eu respondi, prontamente, que iria estudar o envelhecimento humano.

Então vai estudar os velhos? Perguntaram. A priori respondi que sim, mesmo mais tarde passando a entender que o estudo sobre o processo de envelhecimento percorre toda a existência independente da idade da vida em que nos encontramos. Na oportunidade indaguei sobre como se sentiam diante da idade em que estão vivendo. E logo responderam: firmes e fortes meu filho! Estamos muito bem; apenas umas dores aqui e outras acolá, mas isso é coisa de velho mesmo. Mas o certo é que todos os dias, ao amanhecer, estamos dispostos a pegar a nossa enxadinha, ir ao cercado e mexer a terra logo bem cedo, ao alvorecer do dia. O suor que a gente derrama todos os dias é para nós sinal de força e coragem.

E assim continuam: estamos ficando cada dia mais velhos, mas de uma coisa temos certeza: que enquanto vida a gente tiver, vamos acordar cedo e enfrentar o laboro.

Limpar o cercado, dar de comer os bicho, capinar, roçar, aguar meus canteiros, minhas plantinhas, é a única certeza que tenho, de que essa minha labuta do dia-a-dia vai me dar ainda muitos anos de vida. Assim se expressou uma das senhoras com quem conversava. Nisso, outro senhor relata: Quando tenho tempo, apesar da leitura ser pouca, também faço minhas leiturinhas, gosto de televisão, jornal, vou a missa, as reza na comunidade, e assim, com essas e outras coisas vou arrastando a vida adiante; às vezes tenho que usar minha bengala pra me sentir mais seguro; mas apesar de tudo, das dores de velho, se precisar correr, eu corro; se precisar nadar, eu nado e até de pegar pareia. Ao falar pareia quis dizer que enfrenta até disputa na corrida.

A minha interpretação frente a esses depoimentos é que ao citar todas essas atividades, nada mais estavam dizendo que os seus afazeres, sejam eles rudimentares ou sistemáticos, culturais ou laborais, e respeitando suas limitações e fragilidades, ao se posicionarem sobre as atividades cotidianas, ficou claro que essas, de uma forma ou de outra, contribuem de modo significativo para o prolongamento de suas vidas. Percebi que cada uma das afirmações feitas em se tratando do envelhecimento foram colocadas enfatizando sempre o ser ativo sem destacar aspecto algum, todos os afazeres foram colocados como sendo importantes para viver a vida na velhice de uma forma mais digna, prazerosa e confortável.

De modo geral, pude entender o envelhecimento como acontecimento natural e que prolongar a vida é uma questão de querer e poder, quando visto como algo a ser cultivado pelo exercício do laboro, respeitando as fragilidades, as limitações.

Acredito que a análise dos diversos contextos e as condições socioeconômicas que permeiam a nossa sociedade, poderão nortear as estratégias de investimento em idosos.

Reitero a questão do investimento em idoso vulnerável, levando em consideração o contexto de vulnerabilidade em que vivem muitos dos idosos na nossa realidade brasileira. Convido a analisarmos as condições sociais em que eles se encontram, e a partir dessa visão possamos pensar em outras alternativas de investimento.

Nessa perspectiva, acredito que seria por meio da construção de uma Política Pública com olhar para essa categoria, nos diferentes cenários em que vivem, ser possível pensar em investimentos efetivos que os atenderiam de acordo com as suas peculiaridades e necessidades reais, fazendo chegar a todos os lares brasileiros o cuidado e atenção de profissionais das mais diversas áreas.

Ao final dessa reflexão me reporto novamente a Fonseca (2016), ela nos chama atenção para a capacidade que o ser o humano tem de criar formas de prolongamento da vida, alinhando-se aos fundamentos da política do envelhecimento ativo, com olhar voltado para um mecanismo transversal, denominado de “ser normativo” que imbrica aspectos biopsicossociais do ser humano.

E dessa forma percebo que há estreita relação das falas contidas nos relatos aqui descritos com as discussões apresentadas na coletânea Envelhecimento Ativo e seus Fundamentos que de modo particular, chamam a atenção para a necessidade de se discutir de que forma a longevidade pode se configurar numa experiência positiva para os sujeitos e para as sociedades na qual vivem, sendo isso possível a partir da percepção dos obstáculos a serem enfrentados, mas também das oportunidades oferecidas para que a qualidade e dignidade sejam contempladas ao viver a vida na velhice.

Referências

FONSECA, Suzana Carielo da. Envelhecimento Ativo e seus Fundamentos. 1. ed. São Paulo: Portal Edições: Envelhecimento, 2016. Disponível em: http://www.portaldoenvelhecimento.com.br/portal-edicoes/. Acesso em: 23-07-2017.

*José de Carvalho Araújo Júnior é mestrando do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da Faculdade de Ciências Humanas da Saúde -FACHS – da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. E-mail: josejunior.de@gmail.com

 

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