Inventário da longevidade

Praticar exercícios físicos, comer corretamente, relaxar. Qual o segredo para se viver mais (e melhor)? Em meio a uma avalanche de pesquisas científicas sobre hábitos e comportamentos considerados ideais para levar a vida tranquilamente, fica difícil saber exatamente o que fazer. Para facilitar, a Revista pediu ajuda a alguns especialistas e procurou pesquisas recentes para montar duas listas de coisas que podem tirar ou acrescentar alguns bons anos à sua vida.

Gláucia Chaves, Correio Braziliense

 

A boa notícia é que, seja lá o que o brasileiro está fazendo, está funcionando: segundo resultados preliminares do censo 2010, divulgado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população aumentou em quase 20 milhões de pessoas desde 2000 — somos 190.755.799. A expectativa de vida no Brasil cresceu três anos entre 1999 e 2009. Hoje, é esperado que o brasileiro viva pelo menos 73 anos. Mas pode ser mais ou menos, melhor ou pior. Faça sua escolha.

10 Coisas que tiram anos da sua vida

1) Cigarro. Que o cigarro e a bebida são os grandes vilões da sociedade moderna, todos já estão cansados de saber. Mas não custa nada reforçar: segundo uma pesquisa feita pelo médico Peter Weissberg, diretor da British Heart Foundation (ou Fundação Britânica do Coração, em português), homens que fumam e não controlam a pressão arterial e o colesterol perdem de 10 a 15 anos de vida. O pesquisador descobriu que os homens que chegaram aos 50 anos com esses três fatores de risco viveram, em média, até os 73 anos — 10 anos a menos que os homens saudáveis.

Quando diabetes e obesidade foram adicionados à lista de doenças, a diferença aumentou ainda mais: enquanto os menos saudáveis viveram até os 70 anos, os que não apresentaram nenhuma complicação chegaram aos 85. O relatório feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2008 revelou que o cigarro é responsável por seis das oito principais causas de morte no mundo, mata uma pessoa a cada seis segundos e encurta a vida de um terço à metade de seus usuários em 15 anos. “De cada dois fumantes crônicos, um vai morrer precocemente”, reforça Carlos Alberto Viegas, pneumologista e professor da Universidade de Brasília.

Além do evidente perigo para a saúde dos pulmões, Carlos Alberto alerta que o cigarro também é responsável por outras complicações, como câncer de boca e de faringe e problemas cardíacos. Mas ainda há esperança: em uma recente pesquisa feita pelo Ministério da Saúde, descobriu-se que o brasileiro está fumando menos. Nos últimos cinco anos, o time dos fumantes caiu de 16,2% para 15,1% da população geral.

O time dos fumantes está diminuindo. Segundo a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), feita pelo Ministério da Saúde e divulgada em abril desse ano, a porcentagem de fumantes caiu de 16,2% para 15,1% nos últimos quatro anos. Os homens foram os que mais melhoraram. Em 2006, a porcentagem era de 20,2%, contra 17,9% em 2010 — enquanto elas continuaram com o índice de 12,7%. Em 2010, foi divulgado também um suplemento de saúde feito pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). O estudo indicou que existem cerca de 24,6 milhões de fumantes no Brasil, o equivalente a 17,2% da população com 15 anos ou mais.

2) Bebida. A pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), feita pelo Ministério da Saúde do Ministério da Saúde, também mostrou que estamos bebendo mais — especialmente as mulheres. Entre 2006 e 2010, o uso abusivo de bebidas alcoólicas pulou de 8,2% para 10,6% para elas e de 25,5% para 26,8% para os homens. Pessoas que bebem além da conta estão mais vulneráveis ao aparecimento de doenças crônicas como hipertensão, diabetes e problemas cardíacos.

Em 2009, o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) publicou uma revisão científica que indicou que o abuso e a dependência de álcool é responsável por diminuir em até 10 anos a expectativa de vida. Dentre as várias complicações, deficits cognitivos temporários, arritmias e cardiomiopatia, incidência de gastrite hemorrágica, pancreatite e alterações hepáticas. O álcool também é o culpado por 2% a 4% das mortes entre adultos. É também um mal difícil de se livrar: de 50% a 60% enfrentam crises de abstinência.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o abuso de álcool é responsável por 2,5 milhões de mortes por ano, sendo que mais da metade da população adulta mundial (55%) consome bebidas alcoólicas. A OMS estima que hajam 60 tipos diferentes de doenças causadas diretamente pelo álcool. Em 2005, o consumo mundial total chegou a 6,13 litros de álcool puro por pessoa de 15 anos ou mais.

3) Uma infância traumática. Segundo um estudo feito em 2009 pelo Centro de Controle de Doenças e Prevenção (CDC, da sigla em inglês), crianças expostas a intensas cargas de estresse podem ter prejuízos no desenvolvimento do cérebro e do sistema nervoso. O americano David W. Brown, epidemiologista responsável pela pesquisa, diz que passar por seis ou mais experiências adversas na infância pode dobrar as suas chances de morrer antes da hora. “Não há dúvidas que garantir o desenvolvimento de atividades saudáveis e ter uma vida afetiva bem estruturada na infância é relevante no processo de desenvolvimento do adulto e do idoso”, comenta Anderson Luiz Costa Júnior, professor de psicologia escolar e do desenvolvimento do Instituito de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB).

Dados da pesquisa de David Brown apontam que crianças expostas a situações de risco tiveram uma expectativa de vida de 60 anos, enquanto as que tiveram uma infância tranquila viveram, em média, até os 79 anos. Dentre as experiências adversas, agressões verbais e/ou físicas, ter presenciado agressões às mães ou outro tipo de violência doméstica, convivência com pessoas viciadas em drogas ou com alguma doença mental e que tiveram algum membro da família preso ou com pais separados.

Mas, de acordo com Anderson, ter passado por experiências adversas na infância não significa que a pessoa vai se tornar um adulto problemático. “Tudo vai depender de quanto apoio o indivíduo recebeu e a quanto tempo ficou exposto àquela situação estressante”, explica o psicólogo.

No Brasil, existem hoje 28.765.534 crianças na faixa etária de zero a nove anos, segundo dados do censo 2010, divulgado esse ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao todo, elas representam 15,2% da população. Há 10 anos, esse número era um pouco maior: em 2010, o Brasil tinha 32.962.536 crianças, que representavam 19,4% da população.

4) Ficar muito tempo sentado. Quantas horas por dia você passa sentado? Se a resposta for mais de seis horas, cuidado. Pesquisa da Sociedade Americana do Câncer, concluída em 2010, acompanhou cerca de 123 mil pessoas sem histórico de câncer, problemas cardíacos ou derrame, ao longo de 10 anos, e descobriu que mulheres que passam mais de seis horas por dia sentadas correm 40% mais risco de morrer antes da hora, enquanto os homens estão 20% mais propensos a terem complicações quando comparados aos que ficam sentados por menos de três horas diárias. Sem exercícios físicos regulares, naturalmente, esse índice aumenta. Sedentários que ficam sentados durante muitas horas têm 94% (no caso das mulheres) e 48% (para os homens) mais chances de morrer.

Contudo, se você pratica atividades físicas mas ainda assim gasta mais de seis horas por dia em uma cadeira, saiba que nem isso irá te livrar das estatísticas. Feito pela Escola Sueca de Esportes e Saúde e conduzido pela médica Elin Ekblom-Bak, outro estudo traçou um paralelo entre as horas que gastamos trabalhando, assistindo televisão ou dirigindo com a expectativa de vida. Nessa pesquisa, descobriu-se que, ainda que você esteja se exercitando, permanecer sentado por muito tempo suprime o sistema imunológico. Com isso, as chances de desenvolver doenças cardíacas e ganho de peso aumentam. A má circulação do sangue também pode causar coágulos, e se transforma em problemas metabólicos, como o aumento de pressão arterial em repouso e nos níveis de colesterol.

5) Diabetes sem controle. Seis anos. Esse é o tempo, em média, que uma pessoa de 50 anos e com diabetes poderá perder de vida em decorrência da doença. De acordo com uma pesquisa concluída esse ano pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, diabéticos têm duas vezes mais chances de morrer por doenças cardiovasculares e são 25% mais propensos a desenvolver algum tipo de câncer. O estudo também apontou que pessoas com diabetes Tipo 2 teriam ainda mais tendência a falecer devido a doenças nos rins e no fígado, pneumonia, doenças infecciosas e até mesmo lesões autoprovocadas.

Porém, mesmo com tantas adversidades, Jane Dullius diz que é errado associar tão diretamente diabetes a anos perdidos. “Não é a doença que diminui a expectativa de vida das pessoas, mas as dificuldades que o portador pode ter para conseguir acompanhar um bom tratamento”, diferencia a professora e coordenadora do programa de educação em diabetes Doce Desafio, da Universidade de Brasília (UnB). Ela explica que o excesso de glicose circulando no corpo provoca danos nos tecidos — uma vez que, de maneira isolada, é tóxica para o organismo. “Os estragos nos tecidos, quando atingem os órgãos vitais, reduzem a capacidade de funcionamento deles”, acrescenta.

E é esse mau funcionamento que, no fim das contas, resultará em complicações extras. Jane defende que todas (ou, ao menos, a maioria) das consequências da diabetes poderiam ser amenizadas ou evitadas. “O primeiro passo é querer ter uma educação em diabetes, procurar informações e desenvolver habilidades para administrar seu próprio tratamento”, ensina. Ela frisa que é importante manter um estilo de vida saudável, que inclui o pacote básico recomendado para todos nós, diabéticos ou não: alimentação balanceada e exercícios físicos regulares.

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, a quantidade de brasileiros com diabetes só pode ser medida por meio de estimativas, uma vez que não há “disponibilidade de dados atualizados e confiáveis de estudos epidemiológicos com metodologia adequada”. Assim, estima-se que existam hoje 10.940.000 diabéticos no Brasil, que representam 5% da população total. Em 2030, segundo os estudiosos, é possível que esse número aumente para 11,3 milhões de pessoas — o que vai fazer com que o Brasil salte da oitava para a sexta posição no ranking dos países com maior prevalência de diabetes no mundo.

6. Poluição. Em Brasília, ela ainda consegue passar desapercebida. Porém, em grandes cidades, como São Paulo ou Rio de Janeiro, a má qualidade do ar subtrai cerca de um ano e oito meses da vida dos que convivem com a fumaça de carros e fábricas. O dado é de uma pesquisa feita em 2009 pelo Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Universidade de São Paulo (USP), que mediu os impactos financeiros e para a saúde da poluição que vive nas regiões metropolitanas de Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife.

Só em São Paulo, uma média de 20 pessoas terão suas vidas encurtadas em quase um ano, devido à poluição. Segundo Paulo Saldiva, diretor do laboratório, há quase 4 mil mortes relacionadas à poluição todos os anos. Quem mais sofre com isso são crianças, idosos, pessoas que já apresentam problemas pulmonares e aqueles com níveis socioeconômicos mais baixos.

No dia a dia, os efeitos da poluição se manifestam em forma de asma, conjuntivite química, bebês que nascem com o peso abaixo do esperado e chances maiores de desenvolver pneumonia após uma gripe. Além disso, há mais risco de ter um infarto do miocárdio. “Estatísticas mostram que quase três pessoas morrem por dia por causa da poluição”, reforça Carlos Alberto Viegas, pneumologista. O médico explica que o monóxido de carbono presente no ar poluído compete com o oxigênio, o que resulta em problemas cardiovasculares graves. “É como se as pessoas vivessem sem oxígênio, por isso a dificuldade de respirar.”

7) Estar acima do peso. Doenças cardíacas, hipertensão, diabetes e problemas nas articulações. Pesquisas que listam os problemas causados pela obesidade e sobrepeso não faltam, e todas chegam à mesma conclusão: engordar demais pode levar à morte prematura. Em abril desse ano, o Ministério da Saúde divulgou um estudo que apontou que o brasileiro está engordando cada vez mais. A pesquisa registrou que 48,1% da população está acima do peso, contra 42,7% apontados há cinco anos atrás. Cerca de 15% dos brasileiros estão obesos, número relativamente maior que o da última medição, que marcou 11,4%.

O número pode parecer pequeno, mas quando comparado ao da pesquisa Estudo Nacional de Despesa Familiar (Endef), realizada no Brasil em 1975, é possível ter o verdadeiro parâmetro do problema. Na época, apenas 2,8% dos homens e 7,8% das mulheres eram considerados obesos.

Após vários estudos para entender como o sobrepeso e a obesidade interferem na expectativa de vida das pessoas, pesquisadores do National Cancer Institute (ou Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos) conseguiram traçar a relação entre as duas coisas. A dificuldade, segundo os pesquisadores, era juntar dados de pacientes que sofriam apenas com a obesidade — uma vez que, na maior parte das pesquisas, as pessoas estudadas também eram tabagistas, tinham problemas cardíacos ou câncer.

A pesquisa usou dados de outros 19 estudos sobre o assunto. Amy Berrington, epidemiologista especialista em câncer e que comandou a pesquisa, baseou-se no Índice de Massa Corporal (IMC) dos voluntários para classificá-los como obesos ou com sobrepeso. Quando comparados às pessoas com peso normal (IMC entre 22,5 e 25), os mais gordinhos apresentaram 13% mais chances de morrer prematuramente. Entre os moderadamente obesos, com IMC entre 30 e 34, e os obesos, com IMC entre 35 e 39, os números saltaram para 44 e 88%, respectivamente. Entre os obesos mórbidos, com o IMC acima de 40, a chance de morrer antes da hora mais que dobrou: eles estão 2,5 vezes mais propensos a desenvolverem complicações que podem levar à morte prematura que pessoas em forma.

Outro estudo, feito pelo instituto Framingham Heart Study, em Massachusetts (Estados Unidos) e liderado pela pesquisadora do Netherlands Morbidity Research Group (ou Grupo Holandês de Pesquisa sobre Morbidez, em tradução livre), Anna Peeters, descobriu que obesos com mais de 40 anos podem deixar de viver sete anos em decorrência da doença. Se somarmos o fator tabagismo, a previsão aumenta para 13 anos jogados fora.

8) Assistir muita televisão. Segundo um estudo publicado em 2010 no Journal of the American College of Cardiology, gastar mais de duas horas diárias assistindo televisão (ou na frente da tela do computador) pode dobrar as chances de desenvolver algum tipo de doença cardíaca. Na pesquisa, feita pela Universidade College London, Universidade de Queensland, Universidade Edith Cowan e pelo Baker IDI Heart and Diabetes Institute, os estudiosos perguntaram sobre os hábitos de 4.512 voluntários. O estudo começou em 2003, e, quatro anos depois, os pesquisadores retomaram o contato para descobrir o que havia mudado. Os que assistem a quatro ou mais horas de televisão estão 48% mais perto de morrer prematuramente. Dos 325 voluntários que morreram, 215 tiveram ataques cardíacos ou outros problemas cardiovasculares.

Para fazer as associações, o estudo levou em consideração o Índice de Massa Corporal (IMC), o colesterol da lipoproteína de alta densidade e a proteína C-reativa (PCR). Produzida pelo fígado, a PCR indica que há algum processo inflamatório ou infeccioso acontecendo. Nas pessoas que passam mais de quatro horas em frente às telas de TV, o PCR foi duas vezes maior. E o detalhe mais chato é que estamos todos vulneráveis, já que, na pesquisa, fatores como tabagismo, hipertensão, obesidade ou sobrepeso, classe social ou a prática de exercícios não influenciaram os resultados finais.

O brasileiro adora televisão. Em 2008, o suplemento de saúde da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), feito em convênio com o Ministério da Saúde, mostrou que cerca de 75,2 milhões de pessoas, ou 42,9% da população, tinham o hábito de ficar mais de três horas por dia na frente da telinha. Os fãs de computador e videogame são mais contidos: juntos, os dois grupos somam 56,2 milhões (29,6% da população), sendo que, desses, 28,8% o fazem por mais de três horas diárias.

9) Exagerar na carne vermelha, enlatados e embutidos. Fãs de carne vermelha, hambúrguer e salsicha já sabem disso, mesmo sem nenhuma pesquisa: exagerar faz mal à saúde. Uma pesquisa feita pelo National Cancer Institute com mais de 500 mil participantes descobriu que pessoas que consomem cerca de 113g de carne diariamente estão 30% mais propensas a morrer nos 10 anos seguintes — especialmente por doenças cardíacas e câncer. Os homens e mulheres avaliados no estudo tinham de 50 a 71 anos de idade. Entre as mulheres acostumadas a comer grandes quantidades de carne vermelha, o risco de desenvolver alguma doença cardíaca aumentou 50% em relação às mais contidas. Para os homens, esse número foi menor: 27%.

Com relação ao câncer, as mulheres avaliadas apresentaram 22% a mais de chances de desenvolver a doença, contra 20% para os homens. As explicações para os perigos da carne vermelha em excesso são várias. Segundo o estudo, cozinhar a carne vermelha pode gerar compostos cancerígenos. Além disso, o alimento é rico em gordura saturada — associada, entre outras coisas, ao câncer de mama e colorretal. Também causa hipertensão e interfere nas taxas de colesterol, o que aumenta o risco de doenças cardíacas. No caso das carnes processadas, estão presentes substâncias como a nitrosamina, um composto químico cancerígeno.

10) Não dormir tempo suficiente. Segundo uma pesquisa feita em 2010 por cientistas italianos e britânicos da Universidde de Warwick com a Universidade de Medicina Federico 2º, em Nápoles, Itália, dormir menos de seis horas por noite aumenta em 12% o risco de morrer em um período de 25 anos em comparação com as pessoas que conseguem ter uma boa noite de sono, com seis a oito horas de duração.

O estudo, que durou 25 anos, analisou a qualidade do sono e a mortalidade de 1,3 milhão de pessoas na Grã-Bretanha, Estados Unidos, países da Europa e da Ásia. Mais de 100 mil mortes aconteceram durante esse período. Os motivos que relacionam poucas horas de sono à morte prematura ainda não estão completamente esclarecidos, mas os cientistas chegaram à conclusão que dormir pouco ou mais que o período considerado ideal causa problemas de saúde que, a longo prazo, influenciam na expectativa de vida das pessoas. “O sono serve para restaurar as funções biológicas, como hormônios, receptores e neuroreceptores, produção de hormônios, mudanças no ritmo cardíaco e na quantidade de sangue que chega ao cérebro e órgãos enervados, como intestino”, enumera Nonato Delgado Rodrigues, neurologista especializado em transtornos do sono.

Sem esse período para “recarregar as baterias”, o organismo não tem como estar totalmente preparado para encarar a rotina do dia seguinte. Embora na maioria dos estudos o período de seis a oito horas seja o adotado como parâmetro para um sono ideal, Nonato Rodrigues afirma que esse número é relativo. “Se a pessoa tiver apneia, ela não acordou, mas o cérebro foi suficientemente ativado para fazer o coração bater no ritmo normal”, explica. “O cérebro acaba se fatigando, o que pode causar problemas como o acidente vascular cerebral, o famoso AVC”.

10 Coisas que somam anos na sua vida

1) Exercícios físicos diários. Os benefícios da prática de exercícios físicos estão por toda parte. Além de emagrecer e enrijecer os músculos, exercitar-se regularmente é bom para a saúde mental, já que os resultados obtidos também ajudam na autoestima. Para a saúde física, então, nem se fala: quem abandona de vez o sedentarismo reduz as probabilidades de ter doenças cardíacas, mantém a pressão arterial em ordem e, claro, pode viver mais. De acordo com um estudo feito pela Universidade de Cambridge e conduzido pela professora Kay-Tee Khaw, ligada à instituição pela Clínica de Gerontologia do Hospital Addenbrooke, ter uma rotina de exercícios regulares e uma alimentação balanceada pode render até 12 anos a mais.

A pesquisa, concluída em 2006, foi usada pelo governo britânico como base para a campanha “Pequena Mudança, Grande Diferença”. Segundo o estudo, exercícios moderados com 30 minutos de duração feitos diariamente, aliados a um consumo de cinco porções de vegetais e frutas são suficientes para aumentar a expectativa de vida em três ou quarto anos.

Para os idosos, a atividade física é ainda mais necessária. Além de exercícios aeróbios, um estudo feito em 2009 pelo American College of Sports Medicine (Universidade Americana de Medicina Esportiva) indicou que praticar atividades que desenvolvam a força dos músculos também é extremamente vantajoso, uma vez que é uma das habilidades que vão se perdendo com o tempo. Gastar 400 calorias por semana reduz em 40% o risco de demência. Se você ainda não está convencido, saiba que praticar atividades físicas estimula a neurogênese, aumenta a resistência do cérebro a danos futuros, ajuda a manter a memória funcionando e estimula o desempenho mental.

2) Ter animal de estimação. De acordo com o National Center for Infectious Diseases (Centro Nacional para Doenças Infecciosas), em Atlanta, Estados Unidos, cuidar de um animal ajuda a manter a pressão arterial e os níveis de colesterol e triglicerídios dentro dos níveis normais. Isso sem contar os fatores extras, como amenizar o sentimento de solidão, ter a chance de se exercitar mais vezes ao ar livre enquanto caminha com o bichinho e de socializar com mais frequência. Em 2010, um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Médica Baker revelou que pessoas que convivem com animais têm menos chances de sofrer com estresse. Outra pesquisa, feita pela Society for Companion Animal (Sociedade dos Animais de Companhia, na Inglaterra), apontou que crianças que convivem de perto com cães ou gatos são mais imunes a doenças que aquelas que não têm animais de estimação.

Conversar e cuidar dos animais de companhia diminui o estresse e libera endorfina no organismo. Graças aos hormônios, os donos dos bichinhos dormem melhor, controlam a pressão sanguínea, melhoram o sistema imunológico, a concentração e, claro, o bom humor. Os benefícios para a saúde são tantos que a chamada Atividade e Terapia Assistida por Animais (ATAA) já é amplamente usada para melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças degenerativas (como o mal de Alzheimer), síndrome de Down, paralisia cerebral e outras necessidades especiais.

Psicóloga do projeto Cão Cidadão (que se baseia nas técnicas da ATAA), Tatiane Ichitani diz que os cães que participam das atividades ajudam os pacientes a se sentirem menos deprimidos, além de estimular funções sensoriais e cognitivas. “As crianças com paralisia cerebral interagem mais umas com as outras após o convívio com os cachorros”, explica.

3) Comer corretamente. Frutas, verduras, fibras… Quantas vezes você já escutou sobre os benefícios de uma alimentação balanceada? Quase todos os problemas de saúde estão relacionados ao que você come. Consequentemente, sua expectativa de vida também. Em um estudo feito pelo Instituto do Câncer americano e publicado em fevereiro no Archives of Internal Medicine, os pesquisadores afirmaram que uma dieta rica em fibras aumenta consideravelmente a expectativa de vida. Em nove anos, os voluntários que comeram mais fibras apresentaram 22% menos chances de morrer quando comparados aos que não costumam consumi-las regularmente.

Mais fibras significam menos mortes por doenças cardíacas, problemas infecciosos e respiratórios. Em uma revisão de estudos publicados em 2010 na revista Science, descobriu-se que manter uma dieta com restrições calóricas não só adia o aparecimento de problemas relacionados à má alimentação e à idade avançada, como pode até retardar o próprio envelhecimento celular.

Renato França, nutricionista esportivo e funcional, explica que o envelhecimento celular é uma consequência dos radicais livres produzidos a cada respiração. “A produção desses radicais livres é inevitável, mas terá um efeito menos danoso se a alimentação tiver alimentos com antioxidantes”, completa. Então, não esqueça de incluir na lista de compras do mercado frutas, verduras, sementes oleaginosas e castanhas. Segundo o nutricionista, esses alimentos têm grandes quantidades de zinco, selênio, bioflavonoides e vitaminas A, C e E, poderosos antioxidantes.

4) Ter bons amigos. Sabe aquele colega que está sempre isolado de todo mundo? Segundo um estudo feito por especialistas americanos da Universidade Brigham Young e do Departamento de Epidemiologia da Universidade da Carolina do Norte, pessoas assim podem morrer antes das que cultivam muitas amizades. O estudo, feito em 2010, concluiu que não ter um amigo pode ser tão danoso para a saúde quanto fumar ou consumir álcool em excesso. Ter e manter redes sociais pode garantir até 50% mais chances de sobrevivência. Os dados das mais de 300 mil pessoas estudadas revelaram ainda que ter amigos supera até fatores de risco já conhecidos como principais causas de problemas de saúde, como a obesidade e o sedentarismo.

A psicóloga Ana Lúcia Palma chama atenção para outra vantagem: além dos benefícios para a saúde do corpo, ter com quem conversar e trocar experiências garante recompensas mentais significativas, como bom humor e qualidade de vida. “A pessoa passa a se sentir melhor, tem ações mais positivas para com o outro e se torna mais tolerante às falhas alheias”, especifica a também coordenadora do Centro de Psicologia Humanista de Brasília. “Aliado a bons hábitos de saúde, até as funções vitais melhoram”, completa.

5) Ser otimista. O seu copo está meio cheio ou meio vazio? O clássico questionamento filosófico tem lá seu embasamento científico. De acordo com um estudo feito pelas pesquisadoras americanas Suzanne Segerstrom, da Universidade de Kentucky, e Sandra Sephton, da Universidade de Louisville, ter uma visão mais otimista da vida pode fortalecer o sistema imunológico. Ao todo, Suzanne e Sandra analisaram as reações imunológicas de 124 estudantes de direito em relação às suas expectativas para o futuro no decorrer do curso.

Ao longo de seis meses, as especialistas em psicologia clínica perguntaram aos estudantes quais eram as suas esperanças profissionais. Após cada questionário, os alunos recebiam injeções para provocar reações imunológicas. Elas perceberam que, de acordo com as mudanças emocionais dos voluntários (ou seja, se estavam mais ou menos esperançosos sobre o futuro), as respostas variavam. Quanto mais otimistas, mais respostas imunológicas apareciam nos exames.

Outro estudo, publicado na revista especializada Current Directions in Psychological Science, indica que pensamentos positivos ajudam a combater estresse, dor e até mesmo algumas doenças relacionadas ao envelhecimento. Ter uma postura mais pró-ativa (característica dos otimistas) também pode evitar comportamentos não saudáveis, como sedentarismo e tabagismo. Nas universidades de Kentucky e de Yale, também nos Estados Unidos, descobriu-se ver o lado bom da vida aumenta a expectativa de vida entre seis e 10 anos.

6) Sorrir. Eis mais um bom motivo para ficar feliz: sorrir faz bem à saúde e pode fazer você viver mais. Segundo estudos sobre a Ciência dos Sorrisos, apresentados em uma conferência realizada no American College of Cardiology em Orlando, na Flórida, sorrisos diários têm o poder de “baixar a pressão arterial, reduzir estresses hormonais, aumentar o relaxamento muscular e acelerar o sistema imunológico”, tudo graças às endorfinas produzidas pelo ato, que atuam como antidepressivos naturais.

Outro estudo, feito pela Duke University, também nos Estados Unidos, mostrou que, dos mil pacientes cardíacos analisados, 44% não tinham o costume de sorrir e, por isso, apresentavam maior risco de morte. A explicação pode estar nos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, que diminui com as risadas. De quebra, os sorridentes produzem mais serotonina, neurotransmissor que provoca a sensação de bem-estar. Ainda não está rindo à toa? Em 2010, pesquisadores da Universidade de Wayne (EUA) revelaram que sorrir também pode fazer com que você viva sete anos a mais.

Porém, a psicóloga Ana Lúcia Palma diz que não basta o sorriso pelo sorriso: ele tem que ser sincero. “Não é apenas a contração dos músculos do ato de sorrir. Os benefícios vêm com as emoções que esse ato provoca na pessoa”, justifica. Segundo Ana Lúcia, o que vai ajudar a prolongar a expectativa de vida é o respeito com os próprios sentimentos. “Estando feliz ou triste, a pessoa precisa procurar o equilíbrio emocional, que é diferente do controle emocional”, ensina. “Há momentos em que você não pode demonstrar que está triste, mas não é por isso que vai sorrir o dia inteiro. Isso só gera mais tensão”.

7) Meditar. Quando se pensa em meditação, muitas pessoas logo associam a prática à clássica posição de joelhos dobrados, polegares e indicadores unidos e entoação de mantras. Porém, meditar tem muito mais a ver com prestar mais atenção aos estímulos que vem de dentro de nós mesmos, abrir a cabeça para novas experiências e colocar um freio (ainda que momentâneo) nas preocupações diárias. “Meditação é uma técnica que permite a uma pessoa voluntariamente mudar a sua frequência cerebral”, explica Fernando Bignardi, médico coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Em 2010, Fernando Bignardi concluiu uma pesquisa com 140 idosos no bairro paulista São Matheus, e descobriu que, após dois meses, 71,19% dos que meditaram ao menos uma vez por dia tiveram melhoras na postura, 57,63% mudaram a alimentação e a respiração de 64,41% também ficou mais adequada. O humor melhorou para 71,19% dos participantes, assim como o tratamento de doenças crônicas (para 45,76% dos estudados), dentre outras melhorias. “A doença crônica tem níveis de alienação em relação à sua situação essencial”, explica o médico. “A pessoa não vive no presente, porque está sempre preocupada com o futuro. Com isso, o sono não é reparador, há uma perda respiratória e a perda de ritmo de vida altera o sistema metabólico”.

O motivo para tantas melhoras, segundo o pesquisador, é que a meditação não se restringe aos problemas físicos dos pacientes. “O modelo que usamos é o multidimensional, em que levamos em conta também a função metabólica, vital, mental e supramental”, detalha. Resumindo: meditar é aprender a lidar com as mudanças da vida de maneira serena. “É como uma gripe: quando você está doente e ao invés de se cuidar, passa a trabalhar demais, o corpo não tem tempo para se recuperar”, compara. “É preciso ceder a isso de uma certa forma, ter um sono reparador e fortalecer o corpo e a mente.”

8) Relaxar. Rotina, trabalho, trânsito e mais uma infinidade de preocupações ocupam uma boa parcela do tempo. Mas você já pensou em dar uma paradinha em tudo isso para apenas relaxar? Há dois anos, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Harvard pesquisaram os efeitos do descanso para a saúde, e descobriram que relaxar profundamente aciona genes que protegem o organismo contra infertilidade, pressão alta, dores e algumas doenças degenerativas, como artrite reumatoide.

Segundo os pesquisadores, as alterações genéticas acontecem devido ao chamado “efeito de relaxamento”, um “fenômeno que pode ser tão poderoso quanto qualquer remédio, porém sem os efeitos colaterais”. Assim como a meditação, quando mais as pessoas treinavam o efeito relaxador, mais seus efeitos eram potencializados. Paralelamente, as chances de ter dores nas juntas, artrite, baixa imunidade e níveis altos de pressão sanguínea diminuíam.

A má notícia é que relaxar a ponto de sentir todos esses benefícios não é tão simples. Para alcançar o relaxamento profundo, é preciso se valer de técnicas de meditação, auto-hipnose, visualização ou meditação. Mas uma vez alcançado o famigerado estado, os benefícios são muitos: com os músculos descansados, até os alimentos são digeridos mais facilmente. O coração desacelera, fazendo com que o sangue circule livremente pelas veias e até mesmo a fertilidade aumenta, já que o corpo está livre para “conservar os recursos necessários para gerar novas vidas”.

9) Ter uma boa higiene bucal. Se você não escovar os dentes ao menos duas vezes ao dia, corre 70% mais risco de ter problemas cardíacos. A relação pode parecer estranha, mas pesquisadores da Universidade College London descobriram que inflamações bucais podem resultar no entupimento das artérias.

O estudo, concluído em 2010, analisou 11 mil voluntários. Ao todo, foram 555 infartos, 170 deles, fatais. Segundo Érica Negrini Lia, odontóloga e professora do Departamento de Odontologia da Universidade de Brasília (UnB), pacientes com periodontite (inflamação crônica relacionada a presença de bactérias e que leva a destruição dos tecidos de suporte do dente) apresentam “níveis elevados de importantes fatores de risco para doenças cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral), como a proteína C reativa”.

Segundo a especialista, quadros infecciosos na boca causam um processo inflamatório crônico. As substâncias ativas da inflamação alteram o equilíbrio do organismo, favorecendo o aparecimento de doenças como a aterosclerose, além de piorar o controle glicêmico e diversos quadros sistêmicos. “Cabe ressaltar também que a boca é um reservatório de bactérias e outros microorganismos, com potencialidade para causar doenças em outras regiões do organismo, por meio de disseminação sanguínea”, completa Érica Negrini.

10) Beber água. Beber água diariamente ajuda — e muito — na manutenção do corpo. Além dos benefícios estéticos, hidratar-se corretamente auxilia na formação de enzimas responsáveis pelas reações químicas do corpo, além de controlar a temperatura do corpo. Com mais água no organismo, o volume de sangue aumenta, fazendo com que as vitaminas e os minerais cheguem mais rapidamente aos orgãos, além de impedir que o organismo não retenha sódio (principal causa do inchaço).

Tomar água regularmente também reduz o perigo de infecções. Segundo uma pesquisa feita pelo governo britânico em 2010, beber água reduz em 100% as chances de se contrair uma infecção hospitalar. Isso acontece porque, com mais água no sangue, o transporte de minerais como ferro (importante aliado no fortalecimento das defesas do organismo) é extremamente facilitado.

Outra pesquisa, feita por cientistas americanos e apresentada em 2010 no congresso nacional da Sociedade Americana de Química, em Boston (Estados Unidos) apontou outra grande vantagem de ter sempre sua garrafinha d’água à mão. Segundo os pesquisadores, quem está de dieta pode perder até 2kg se ingerir, pelo menos, dois ou três copos de água antes de cada refeição. Os 48 adultos participantes da pesquisa seguiram a mesma dieta de baixas calorias. Após 12 semanas, os estudiosos descobriram que os que beberam água eliminaram cerca de 7kg, enquanto os outros perderam, em média, 5kg.

Fonte: Correio Braziliense, 13/05/2011 12:20. Disponível Aqui

 

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