Imortais. Até onde?

Muitos transhumanistas sonham com uma grande ‘noite tecnológica’ na qual os computadores serão mais inteligentes que os homens e, neste momento, esperam ver nossa ‘reencarnação’ nas máquinas, para alcançar, enfim, a imortalidade. Um conceito de uploading que consistirá não menos que ‘baixar’ nelas o conteúdo do nosso cérebro. O postulado é simplista: o espírito se resumiria, tecnicamente, a interação entre os neurônios.

 

Do dossiê Será Possível Viver 300 anos, publicado pela Revista L´Express (maio 2016) (1), já apresentamos a tradução da entrevista com o filósofo Luc Ferry (2) e, posteriormente, o artigo  As Revoluções Que Mudam a Humanidade (3). Apresentamos aqui a terceira e última parte (4) deste interessante trabalho sobre as possibilidades de uma vida longa, muito além do que hoje se considera a longevidade avançada, com o crescente aumento da população de nonagenários e centenários.

Muitos preferem assegurar sua imortalidade pelo sua descendência, outros por suas obras. Eu prefiro assegurar a minha não morrendo.

Esta afirmação do cineasta Woody Allen, pode torná-lo herdeiro do que se denomina transhumanismo – um movimento que pretende aumentar infinitamente as possibilidades físicas do ser humano, e que se afirma graças aos progressos da genética e da inteligência artificial.

No entanto atualmente não existe tecnologia que permita viver mil anos!

Ray Kurzweil, um dos gurus deste movimento, engana seus seguidores quando fala sobre uma vida de duração indeterminada (5). Qual a solução que ele propõe para chegar à vida eterna? Comer salmão defumado com frutas vermelhas e uma boa dose de mingau, bebendo chá verde ou de soja sem açúcar… Não se esquecendo das 250 pílulas de complementos alimentares – um tratamento com custo de alguns milhares de dólares por dia – para a saúde do coração, olhos, para o sexo e o cérebro!

Neste ponto Kurzweil em nada difere dos seus iguais, pessoas ricas que cuidam da alimentação, fazem exercícios físicos, meditação e relaxamento a fim de conservar corpo e alma o melhor possível. Outros entendidos na questão, como Max More, o filósofo fisiculturista, sua esposa Natasha Vita-More e seus numerosos adeptos, e o ‘biogerontólogo’ britânico Aubrey de Grey, que considera o envelhecimento como doença, e busca desenvolver ‘curas de juventude’ para anular seus efeitos surgem, para muitos, apenas como excêntricos.

Diante dos que argumentam que a vida é biologicamente limitada, os transhumanistas levantam a bandeira da criogenia – tecnologia conhecida a partir dos anos 1960 – não hesitando passar da caricatura ao ridículo. A ideia de conservar o corpo em uma solução resfriada de nitrogênio líquido a 196ºC, logo após a morte, permitiria conservá-lo sem degradação, além da possibilidade de ‘vitrificação’ que congela os tecidos sem formar gelo.

Cerca de 200 a 300 pessoas excêntricas, e seus animais de estimação, já se dispuseram a seguir esta técnica.

A grande ‘noite’ tecnológica na qual os computadores se tornarão mais inteligentes que os homens

Max More, não por acaso, dirige a primeira sociedade especializada na área – Alcor – com sede no Arizona (EUA). Afirma Marc Roux, presidente da Technoprog – associação francesa transhumanista – que “a criogenia passou da moda […] e a saída deste processo não foi dominada”, e hoje os transhumanistas ‘puros’ não têm ainda outras propostas.

As tecnologias derivadas das NBIC – nanotecnologias, biotecnologias, informática e ciências cognitivas – permitirão o aumento de esperança de vida, não somente viver com boa saúde até os 122 anos (idade de Jeane Calment, a francesa mais idosa à época), mas podem nos trazer a possibilidade de duas décadas suplementares. De fato, podemos chegar à idade de 300 anos, mas isto não é imortalidade.

O hoje – comer saudavelmente e fazer exercícios físicos para viver mais – e o amanhã – desenvolver certas tecnologias que melhorem a qualidade de vida – colocam poucos problemas éticos. Mas, o ‘depois de amanhã’ sim.

Muitos transhumanistas sonham com uma grande ‘noite tecnológica’ na qual os computadores serão mais inteligentes que os homens e, neste momento, esperam ver nossa ‘reencarnação’ nas máquinas, para alcançar, enfim, a imortalidade. Um conceito de uploading que consistirá não menos que ‘baixar’ nelas o conteúdo do nosso cérebro.

O postulado é simplista: o espírito se resumiria, tecnicamente, a interação entre os neurônios, assim bastaria empreender sua ‘cartografia’, antes de reproduzi-la – realizar uma ‘cópia’ – para salvaguardar nossa personalidade. Depois seria só conectar nosso encéfalo em qualquer suporte informático.

Pierre Cassou-Noguès, da Universidade Paris VIII, indaga – “Criar um objeto que tivesse a mesma estrutura do cérebro humano seria suficiente para manter a mesma consciência?”

No entanto, esta ambição encontra ressonância em diferentes programas neurocientíficos internacionais – Human Brain Project (Europa) e Brain Initiative (Estados Unidos) que são, injustamente, apresentados como se buscando simular o funcionamento do cérebro humano graças ao computador.

Os transhumanistas mais extremados aproveitam essas ideias nebulosas para desenvolver sonhos loucos, como do milionário russo Dmitry Itskov, batizado de “Avatar”, que promete criar um holograma, cópia perfeita dele mesmo, tendo como horizonte o ano de 2045. Ele não cansa de utilizar as mídias para proclamar teses que causam arrepios, como nesta afirmação:

A imortalidade é um efeito secundário. É um meio de transformar e aprimorar a consciência humana. Liberados de nossos corpos não precisaremos de abrigo e moradia. Não teremos mais necessidade de consumir os recursos que esgotamos hoje. Os cuidados de saúde serão apoiados no conserto de órgãos artificiais, e não sobre um sistema biológico clássico.

Pouco a pouco o discurso transhumanista se radicaliza.

O filósofo Jean-Michel Besnier, da Universidade Paris-Sorbonne, alerta que “acabar com a finitude humana, é a ideia final que banaliza os transhumanistas”.  Não se trata de reinventar o homem, mas preparar sua sucessão, para dar à luz ao pós-humanismo. Alguns tentam mesmo nos intimidar para definir uma posição, a exemplo de Kevin Warwich, professor de cibernética da Universidade de Reading (Inglaterra) afirmando que “os que decidirem permanecer humanos, recusando o progresso, terão uma deficiência grave. Eles constituirão uma subespécie e se tornarão os chimpanzés do futuro”.

Com seus sonhos de imortalidade os ‘aitolás’ não estão nunca longe. Seria melhor meditar sobre este outro aforismo de Woody Allen: “A eternidade é longa. Sobretudo ao final”.

 

Notas
L’Express – revista semanal de 6 a 12 de abril 2016 (edição impressa). http://www.lexpress.fr/actualite/sciences/transhumanisme-qui-sont-les-neoprophetes_1779584.html
Admirável Mundo Novo – o transhumanismo em questão. Revista Portal de Divulgação, n º 49, Ano VI Jun/Jul/Ago, 2016.
http://www.portaldoenvelhecimento.com/revista-nova/index.php/revistaportal/issue/current/showToc
Publicado no Portal do Envelhecimento em Junho 2016: http://www.portaldoenvelhecimento.com/tecnologias/item/4089-as-revolucoes-que-mudam-a-humanidade
Escrito por Bruno D. Cot – redator chefe da revista L´Express / Ciências
Ray Kurzweil, inventor e escritor norte-americano, nascido em 1948, considerado um dos maiores visionários do mundo da tecnologia, publicou em 2014 o livro How to Create a Mind, no qual avança em sua exploração sobre inteligências artificiais, elevando-a a novo patamar. Em Transcendent Man (2009) http://www.imdb.com/title/tt1117394/?ref_=rvi_tt trecho de documentário no qual expõe suas principais ideias (original em inglês).

Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Pesquisadora CNPq (PUCSP); responsável pela editoria da Revista Portal de Divulgação desde 2004. Associada fundadora do Olhe (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento). Coordenadora da Coluna Memórias do Portal e escreve sobre educação continuada; memória social; saúde e espiritualidade; intergeracionalidade. Email: veratordinobrandao@hotmail.com

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