ILPIs: gaiolas disfarçadas de proteção?

Assim como a maioria das pessoas – que se encontram estrutural e culturalmente despreparadas para lidarem com a velhice – a história, a mídia e a literatura demonstram, também, que as referidas Instituições não estão adequadas para oferecer um atendimento digno e respeitoso aos seus residentes.

Karina Marques de Freitas

 

As palavras escritas por uma idosa de 86 anos, institucionalizada, destinadas ao poeta e escritor brasileiro Rubem Alves, ecoam em meus ouvidos como as vozes de centenas de pessoas idosas que residem (ou residiram) nas “gaiolas disfarçadas de proteção” que acompanho ao longo de 08 anos de ação fiscalizatória, em um delimitado território da Zona Sul de São Paulo.

Historicamente, as Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs) trazem a marca do confinamento social e afetivo que prepara para a morte; recebem o estigma da prática do abandono e do acolhimento de um problema que incomoda; carregam preconceitos e o caráter de depósito.

Nossa prática profissional indica que estas Instituições não estão isentas das marcas históricas e fazem jus às imagens negativas que carregam. A pessoa idosa institucionalizada ainda é tratada com descaso, sendo negligenciada desde sua necessidade mais básica (a alimentação) até seu bem mais precioso (a vida), passando por desrespeitos no âmbito pessoal e social.

Embriagados pelo consumo, por padrões de beleza e juventude, os seres humanos tratam a velhice como um problema, um peso a ser carregado. Envelhecer é quase um sinônimo de doença e morte, como se adoecer e morrer não seja comum a quaisquer fases da vida humana. Existe um rol cristalizado de depreciações que recaem sobre a velhice e sobre o processo de envelhecimento. Para muitos, as pessoas idosas só sentem dores, perdem a capacidade de aprender e esquecem tudo. Divulga-se a imagem de uma velhice decadente, improdutiva, medicamentosa, triste, solitária, rabugenta, assexuada, dependente… Causadora de ônus econômico, previdenciário e social.

É notável que o acelerado envelhecimento da população tenha criado novos desafios para a sociedade. Vivemos num cenário de profundas mudanças sociais, urbanas, tecnológicas e familiares. Neste sentido, se por um lado surgiram novas formas de organização familiar, e as famílias passaram a ter grandes dificuldades para desempenhar suas tradicionais obrigações de educar as crianças e cuidar dos idosos, por outro lado, as Instituições de Longa Permanência também ganharam novas competências.

Com o envelhecimento populacional, as aceleradas obrigações sociais da população jovem, a insuficiente rede de assistência à saúde da pessoa idosa, a ausência de programas que priorizem a permanência das pessoas idosas junto a seus familiares e a escassez de profissionais qualificados e equipamentos de suporte a este segmento, as Instituições que abrigam pessoas idosas têm sido cada vez mais procuradas.

No entanto, assim como a maioria das pessoas – que se encontram estrutural e culturalmente despreparadas para lidarem com a velhice – a história, a mídia e a literatura demonstram, também, que as referidas Instituições não estão adequadas para oferecer um atendimento digno e respeitoso aos seus residentes.

Grande parte das pessoas idosas, de maneira especial as mais fragilizadas, são manejadas, imobilizadas com “cuidados para o seu próprio bem” e, muitas vezes, obrigadas a sair de “seu canto”, quando dispõem de um, para viver numa Instituição de Longa Permanência que se intitulará com os nomes mais “protetores” possíveis: “aconchego”, “bela idade”, “casa da vovó”, “filhos prediletos”, “laços de afeto”, “lar dos amigos”, “lar dos anciãos”, “lar feliz”, “luz divina”, “novo lar”, “renascer”, “vida plena”, etc.

Esse “viver”, no entanto, ocorre em ambientes sem suporte adequado para lidar com questões de saúde; espaços com estruturas físicas precárias; envolvidos em questões diversas (econômicas, judiciais, políticas, sociais, etc.), além de serem alvos constantes de denúncias.

Leia o artigo na íntegra na Revista Portal de Divulgação: http://www.portaldoenvelhecimento.com/revista-nova/index.php/revistaportal/article/view/674/74

 

(*) Karina Marques de Freitas – Graduada em Serviço Social pela FMU. Analista de Assistência e Desenvolvimento Social e Autoridade Sanitária – Prefeitura do Município de São Paulo. Reflexão final para o Curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da PUC-SP (COGEAE), primeiro semestre de 2017. E-mail: kmarques1975@gmail.com

 

 

 

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