Hora da alta. E agora?

Hoje, muitas idosas relatam em consultório que o que mais sentem falta é de cozinhar e cuidar da casa (no futuro não ouvirei esta queixa com tanta frequência, mas muitas idosas de hoje passaram a vida cuidando da casa e dos filhos) e por motivos como dores nas articulações, por exemplo, já não conseguem mais realizá-las. Certo, como podemos proporcionar atividades relacionadas ao cuidado da casa e cozinha, nos preocupando em não piorar o quadro de dores, e sem o corriqueiro radicalismo do “não posso mais”? 

 

Quando o paciente, idoso frágil, é inserido no serviço especializado, muitas avaliações são feitas, a fim de oferecer o tratamento mais efetivo para suas necessidades. Após a conclusão do Plano de Cuidado, um Plano de Alta é traçado e, a partir daí, o sucesso contínuo de sua recuperação ou de sua qualidade de vida depende, e muito, do cuidador e familiares.

Na reabilitação física é assim. O paciente é submetido a várias sessões de Fisioterapia, com o passar do tratamento, podemos observar os ganhos como a melhora das dores, da força muscular, da mobilidade, do equilíbrio… e a alta vem. Ótimo! Mas e depois?

O ideal seria a continuidade da Fisioterapia. Aquela Fisioterapia contínua, domiciliar, preventiva. Mas este ideal infelizmente não se torna real para a grande maioria das famílias e também há os que não veem a hora de não precisar ir mais às sessões de exercícios (não é todo mundo que gosta de se exercitar, sabemos).

Mas é identificável a qualquer um, incluindo aos leigos e aqueles que não gostam de exercícios, que mais tarde, eles farão falta. Então, qual seria a solução?

Nessas horas, nós profissionais da saúde, contamos muito com o comprometimento do cuidador/ familiar. É fundamental que haja continuidade do cuidado no domicílio. Já tive muitas gratas surpresas em consultório, quando, após 6 meses, 10 meses, 12 meses, o paciente retorna em avaliação e é possível constatar que seu quadro funcional foi mantido mesmo após a alta. Nestes casos, geralmente, recebemos com este paciente, um cuidador comprometido, disponível (em tempo e boa vontade) e geralmente são cuidadores de longa data, o que chamo de “cuidador fixo”.

Nestes casos exitosos, conseguimos traçar juntos o plano de alta: Profissional da saúde-idoso-cuidador, planejam o que é possível inserir no cotidiano do paciente e que irá contribuir para seu contínuo processo de reabilitação, com o objetivo principal de preservar a sua funcionalidade. Este momento “pré alta” é tão importante quanto a avaliação inicial para começar o tratamento, e claro, além do cuidador, o idoso deve protagonizar seu processo de reabilitação. Então, no Plano de alta, o que discutimos?

Primeiramente o cuidador deve estar esclarecido sobre quais são as dificuldades e fragilidades do idoso. Se participou ativamente de todo o processo de reabilitação, ele conseguirá reconhecer quais são as funções preservadas, as potencialidades, desejos e vontades do idoso, e este passo é fundamental para o sucesso da parceria “Paciente-cuidador”. Por exemplo, imaginemos um idoso com 90 anos e alguns comprometimentos físicos mas que ainda é capaz de alimentar-se sozinho, vestir a camisa, calçar os sapatos, pentear os cabelos, escolher as próprias roupas, sem se colocar em risco. O seu cuidador deve estimular que estas atividades aconteçam preservando essa função. É fundamental que os riscos sejam identificados e solucionados se possível. Se o cuidador ou paciente se sentir inseguro, faça com ele e não faça por ele algo que ele está apto a fazer sozinho.

Hoje, muitas idosas relatam em consultório que o que mais sentem falta é de cozinhar e cuidar da casa (no futuro não ouvirei esta queixa com tanta frequência, mas muitas idosas de hoje passaram a vida cuidando da casa e dos filhos) e por motivos como dores nas articulações, por exemplo, já não conseguem mais realizá-las. Certo, como podemos proporcionar atividades relacionadas ao cuidado da casa e cozinha, nos preocupando em não piorar o quadro de dores, e sem o corriqueiro radicalismo do “não posso mais”? Vamos pensar juntos o que pode ser feito?

O que ele consegue fazer sozinho e de forma segura? Podemos adaptar?

Quais atividades precisam de supervisão?

Faço por ele ou faço com ele?

Como posso facilitar?

Como inserir na rotina do idoso frágil, atividades que lhe proporcionem prazer, que façam sentido, que reforcem o seu papel na família, que tornem a vida um pouco mais leve?

E quanto aos exercícios físicos que foram aprendidos na Fisioterapia e, alguns deles, orientados que fossem realizados no domicílio, é possível realizá-los? A prática diz que sim e estabelecer uma rotina de atividades facilita o processo de aceitação e colaboração por parte do paciente.

Todas estas questões que coloco aqui não são fáceis de se responder, mas o fato de estarmos dispostos a pensar a respeito já mostra que temos um caminho a ser descoberto. Chegaremos muito mais rapidamente nas respostas se levarmos em consideração a vontade do idoso, sua história, sua cultura, seus hábitos de vida e se nos comprometermos com o processo de tratamento desde o início até o plano de alta estar em prática.

Gabriela C. de A. Goldstein

Gabriela C. de A. Goldstein

Fisioterapeuta da Unidade de Referência em Saúde do Idoso PMSP – OS ACSC. Mestre em Ciências pela USP, especialista em Fisiologia e Biomecânica do Aparelho Locomotor pelo IOT- FMUSP e especialista em Gerontologia Social pela PUC-SP.

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