Histórias de amor que não pertencem a este mundo

Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo, filme debatido no Cine Frei Caneca, dentro do Programa Itaú Viver Mais, em parceria com o Portal do Envelhecimento, trata do mundo contemporâneo, onde as mulheres e os homens transitam e se relacionam, como personagens problemáticas, contraditórias e complexas.

 

O filme italiano “Histórias de Amor que Não Pertencem a Este Mundo”, dirigido por Francesca Comencini, foi adaptado do seu livro homônimo, cujo título original é “Amori che non sanno stare al mondo” (Amores que não podem estar no mundo), apresentado em agosto no Festival de Locarno, na Suíça.

As frustrações, ansiedades e aspirações do universo feminino representam o fio condutor da história. M é por meio de Claudia, a protagonista interpretada por Lucia Mascino, que nosso olhar se volta para o mundo contemporâneo, onde as mulheres e os homens transitam e se relacionam, como personagens problemáticas, contraditórias e complexas.

Claudia é uma professora universitária de meia-idade inconformada com o fim de seu relacionamento amoroso com o também professor Flavio (Thomas Trabacchi). A história dos dois começou diante de uma disputa num debate acadêmico, em que ela o contrapõe enfaticamente, e no que poderia gerar uma inimizade acaba se tornando o início de um romance.

O relacionamento dos dois, desde o início conturbado, se mostra ao longo do tempo que não mudou para algo mais profundo e conciliador. Foi entremeado por discussões e lágrimas, sempre provocados por Claudia, e em situações em que o romantismo, quando poderia se apresentar, era rompido por ela “questionando a relação”.

A história é contada no presente, mas diversas passagens apresentam outras personagens femininas, que cruzaram com Claudia, uma enfrentando o divórcio, outra já divorciada, a amiga e confidente numa relação com um homem casado, uma idosa e seu cão, uma feminista radical, e duas jovens alunas. São essas mulheres, em suas procuras, e que passam rapidamente ao lado de Claudia, que nos fazem refletir sobre esse universo feminino tão diverso e complexo, a busca de afirmação, a não submissão ao outro, e o papel da mulher num mundo cujas regras ainda mantém resquícios do passado, mas, sobretudo, uma história sobre o amor que não sabe como permanecer no mundo, o amor como obsessão e constrangimento, a diferença entre sentimentos e erotismo.

Em uma entrevista à mídia internacional, Francesca Comencini comentou: “Acredito que a narração cria um espaço de imaginação na mente daqueles que veem o filme, e essa uma das coisas lindas a narrar. As histórias são espaços de imaginação, emoção, identificação, sem preceitos e sem moral, mas também têm uma grande importância política. Então, me pareceu importante contar com naturalidade e, com uma aparente diferença, os diferentes amores, apenas para favorecer essa imaginação que talvez na cabeça de alguns, ainda não esteja lá”.

Ela também identifica que seus personagens femininos são mulheres que têm contradições e elementos de grande consciência, não querem abandonar o amor e isso às vezes leva a comportamentos não de submissão, mas com momentos de grande autonomia, força e fraqueza, e isso valendo também para os personagens masculinos

A voz da plateia

Estimulando a plateia para o debate, lancei algumas perguntas que me pareceram ser pertinentes para refletirem, e para reverem algumas cenas que poderiam usar para argumentos – O amor é uma guerra? A comunicação entre homem e mulher é fácil? Conseguimos realmente conhecer e mudar o outro? Como é viver sozinho? Quais cenas o filme mostra o homem contemporâneo? O que as cenas do passado, em preto e branco, apontavam sobre o amor?

O debate foi interessante pelas diversas interpretações. Uma das senhoras presentes afirmou que no filme o amor não existe, que essa emoção na vida real também seria questionável, mas seu argumento foi rebatido por um senhor, dizendo que o filme era sim sobre o amor, só que numa visão diversa do que estávamos acostumados, e que o homem tinha sido bem retratado, tanto nas suas inseguranças, quanto na sua masculinidade.

Aproveitando a fala desse senhor, fizemos um aparte, lembrando a cena de uma confraternização entre os docentes, em que na conversa entre os homens, um deles observou que a barba do outro estava diferente, e este, ao responder ser o xampu que estava usando, os demais a tocaram, e seguiram discutindo sobre marcas de cosmético. Uma das mulheres presentes ao passar e ouvir a conversa dos homens dispara – “como os tempos mudaram, antes eles discutiam futebol, falavam de mulheres e agora de pele, maciez de barbas”.

Das cenas em preto e branco de um passado distante, tivemos a visão do amor romântico, do amor recatado, do sonho do amor eterno, mas também do amor violento, quando uma arma dispara contra uma mulher. Nesse momento alguém da plateia lembrou que ainda hoje a violência contra a mulher acontece, mesmo que em nome do amor. Numa dessas cenas também surge a figura de uma professora diante de uma lousa, demonstrando através de dados estatísticos, como existe a discriminação feminina no chamado “mercado sexual”, visto que a cada década e a cada filho, esta ganha pontos negativos que rebaixam suas chances de novos amores.

O grupo discutiu sobre a comunicação entre homens e mulheres, e as dificuldades de se entenderem, e segundo alguns deles, existe um muro intransponível e particular na comunicação entre homens e mulheres, e que talvez não se entendam porque as perspectivas, a visão do outro, são guiadas por interesses e desejos diversos, muito pessoais, não tendo como saber o que se passa intimamente, e que mesmo num casamento de longa data a comunicação continua difícil, e que se sobrevive é porque os dois conseguem ter alguma autonomia e tentam respeitar as diferenças do outro. Com isso, as pessoas presentes na plateia completaram que se faz conjecturas pelos atos aparentes e não se conhece inteiramente o outro, apenas os efeitos de suas ações.

A questão levantada sobre a solidão veio das cenas do filme, em que uma das personagens aparece no início do filme contando para Claudia que estava se divorciando, que não queria levar nada do casamento, tampouco os filhos, queria apenas ser livre. Numa cena posterior, essa mesma personagem surge animada e conta para Claudia que perdeu tudo no divórcio, mas estava feliz porque estava com um novo amor, um homem bem mais jovem. As falas da personagem abriu espaço para discutir o porquê de querer a liberdade no seu casamento, mas logo partir para um novo relacionamento, que poderá prendê-la novamente. Nessa busca não estaria o temor da solidão? Diante desse questionamento houve algumas interferências do público feminino, de que o preço que as mulheres da geração delas pagavam era alto, quando procuravam uma nova forma de exercer seus direitos no casamento, sem submissão ao marido, e que isso muitas vezes as deixavam numa triste solidão amorosa. A conclusão do grupo foi de que, mesmo querendo ser livre, a mulher continuava buscando a companhia do outro, para não ficar sozinha.

A opção em deixar que o público presente dirigisse e interpretasse à sua maneira o jeito de ver e sentir o filme, dando espaço à voz dele e não teorizando, foi a de trazer e levantar as questões somente sob a ótica do universo deles.

Finalizando o debate, deixei a fala de Francesca Comencini, para que o grupo pudesse refletir sobre as questões apontadas por ela, dentro da sociedade contemporânea, seus males sazonais e suas formas peculiares de permanecer no mundo:

“O feminismo, isto é, a busca da igualdade na diferença, não significa querer desfigurar os homens, e, portanto ficar sozinha, mas procurar outra coisa”. 

“Não há amores que sabem como permanecer no mundo, mas há uma maneira de não saber como permanecer no mundo, diferente para todas as idades. Para poder ficar no mundo serve um código compartilhado entre os amantes e o mundo: com esse título, quero dizer apenas os amores que não encontram o código. Para gerações anteriores, esse código poderia ser o casamento, que era uma espécie de relação entre homens e mulheres, com papéis bem definidos. Isso, no entanto, foi explodido pelo feminismo, a liberdade conquistada das mulheres, que no mundo tomaram um lugar completamente diferente do que lhes foi atribuído. Este é um enorme revés e ainda não começou a perceber sua importância. Os códigos entre amores e o mundo também mudaram, porque as mulheres já não correspondem ao papel que lhes foi confiado, mesmo no caso do amor. Nesse sentido, os amores que não sabem como permanecer no mundo são aqueles em que os homens fogem e as mulheres procuram; e nesta fuga e pesquisa há toda a dificuldade de permanecer no mundo.”

“Um começo obsessivo, uma tentativa de juntar os personagens angustiados, no desespero, por um amor acabado, enfim a reflexão sobre o que não funcionou, para finalmente se encontrarem”.

Regina Pilar G. Arantes

Regina Pilar G. Arantes

Pedagoga; Mestre em Gerontologia; Especialista em Orientação Profissional; Coordenadora do ECAP/SP; Coordena Oficina de Orientação e Revisão de Projetos de Vida; Coautora do livro Nós Mulheres, volume 3; Pesquisadora e responsável por Relacionamentos do Portal do Envelhecimento; Pesquisadora do grupo de Pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação (LEC) da PUC-SP; palestrante. É colaboradora do Portal desde sua fundação, em 2004, contribuindo com artigos, e na função que exerce até hoje, a dos Relacionamentos. Sua atuação junto aos leitores é gratificante, pois em diversas situações acredita tê-los auxiliado em suas necessidades, não só direcionando suas questões a áreas específicas de atuação dos colaboradores do Portal, como indicando caminhos, enviando material, dando-lhes atenção e palavras de apoio. Email: reginaarantes@uol.com.br

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