Hermeto Pascoal: Eu nasci música!

A música não envelhece. A música é como o vento, ela se espalha pelo mundo inteiro e vai para qualquer lugar… A música está sempre em todos os contextos, é o que nos diz Hermeto Pascoal, 81 anos, em entrevista ao Portal do Envelhecimento.

 

Hermeto Pascoal nasceu em 22 de junho de 1936, em Olho d’Agua das Flores, município de Arapiraca, no interior de Alagoas. Também conhecido como “o bruxo dos sons”, Hermeto é compositor, arranjador, multi-instrumentista, considerado um dos poucos gênios musicais em plena atividade com seus 81 anos de estrada, e vai até quando Deus quiser. Acabou de lançar o álbum duplo, No mundo dos sons. Reconhecido dentro e fora do nosso país pelos seus pares por sua habilidade excepcional e que foi enaltecida por Caetano Veloso na canção Podres Poderes “hermetismo pascoais e seus tons e mil tons, seus sons e seus dons geniais”. Sua versatilidade em extrair sons de objetos, assim como de ritmos diversos, possibilita-nos dizer que sua música, como a ela se refere, é universal.

No bate papo que tivemos, fica muito clara a sua relação intensa com o mundo místico, que é o fio condutor de toda sua obra. Essa dimensão cósmica faz de sua música um som universal, perpassado pelos desígnios sagrados e pela naturalidade com que encara sua relação com Deus. A frase “ Eu nasci música” revela muito do que pensa sobre o dom que recebeu para fazer seu papel no mundo.

Artista excepcional, sua entrevista é como música que vai fluindo entre nós, por meio de seus comentários sobre seu processo de criação, a liberdade do agir, o transcorrer dos shows, a energia trocada com o público quando no palco e a necessidade de comunhão entre todos, semelhantes que somos. Segue a entrevista:

Hermeto, sua música produz um encantamento em mim, nas pessoas. Você sente isso?

Hermeto Pascoal: Claro que sinto. Para mim, é justamente isso, porque eu não faço um estilo de música só, eu a chamo de música universal, justamente por isso, porque ela é espontânea, só tem uma coisa, é pela boa qualidade, harmonia bonita, tudo rico, um ritmo, tudo misturado. Eu digo para você, para mim, tudo é som, tudo é música. Essa música que eu faço, depois de ter já viajado praticamente pelo mundo todo, não encontrei em nenhum lugar que dissesse assim, aqui o público é mais isso ou mais aquilo. É sempre naquele nível de sensibilidade, sensacional.

Eu posso chegar ao Japão e fazer assim: larilalalá… Com as notas que fiz, com as notas assim, afinadas, e eles afinam, e aí é em qualquer lugar do mundo. Em qualquer lugar que eu vou, estou na minha casa, estou no mundo. É por isso que chamo a música de música universal.

A sua música se comunica com todos os povos, não é?

HP: Exatamente. Por exemplo, eu sou cem por cento intuitivo, a minha escola é a vida. Não faria nada sem música, porque foi Deus que me deu. Eu nasci música. Eu nasci com tudo, os pés, a minha mãe dizia que nasci bem cor de rosinha, já nasci música mesmo.

Então, as pessoas perguntam, há quantos anos você toca? Há quantos anos? E eu digo, olha, há oitenta e um anos, o Hermeto Pascoal toca há oitenta e um anos, e vai até quando Deus quiser.

Como é o seu processo de criação?

HP – Eu não premedito nada. Porque eu não vim aqui para premeditar nada. Aquilo vem. Tem dias que eu estou assim, e as pessoas vêm e dizem: Hermeto, e aí, como vai ser o show hoje? Eu digo: você vem falar do show agora, eu não estou fazendo show agora. Uma entrevista, para mim, é tão importante também, para mim é importante como um show. Quando eu vou para o palco, eu vou, qualquer surpresa que acontecer no palco, eu vou sentir aquilo na hora. Não há nada preparado. Só sei uma coisa, a música vai rolar, eu vou tocar. É assim que eu sou, eu sou assim, intuitivo, porque Deus me botou assim no mundo, agora, ele fez assim, todo mundo tem o seu grau de percepção.

Você recebeu um título de “Doutor Honoris Causa” pela universidade New England Conservatory, em Boston, nos Estados Unidos, não é ?

HP: Isso, lá nos Estados Unidos, eu recebi lá em Boston. Eu fui pessoalmente receber. Foi um momento especial na minha carreira.

Quantas músicas você já fez?

HP – Eu já estou com aproximadamente nove mil músicas na pauta. Aprendi a escrever assim, fazer arranjos, não sei, no meu pensamento, na minha prática da vida, de tocar com um e com outro, de observar muito, sem olhar muito, porque eu não enxergo muito, olha só que lindo, a gente pensa que não enxerga também com o sentir.

Todo esse talento reconhecido no Brasil e fora do nosso país…, houve desafios?

HP: O desafio não houve, há o desafio. Sempre. Mas, o que eu quero dizer para você é que a percepção é que manda nas coisas. Para mim, por exemplo, uma coisa que eu fiz há quarenta anos, por exemplo, eu olho hoje, e fico feliz… porque a música não envelhece. Uma música passa para a outra e vai somando sempre as coisas, sempre assim. A gente vai embora, mas as coisas continuam.

Como surgiu a ideia de produzir o livro Calendário do Som? Você escreveu sobre os seres humanos, fez 366 músicas?

HP: Foi intuição. Nossa, aquele ali está explodindo pelo mundo inteiro, graças a Deus. E tudo nele é intuitivo. Era uma época que eu estava viajando demais, por toda parte do mundo. Daí, como eu sou intuitivo, já te falei, veio aquele negócio, quando eu ia começando a cochilar: Você tem que fazer um livro. Foi tão linda essa ideia de homenagear cada irmão, são homenageados os que vêm, os que estão, e os que vão, quem nasceu no dia primeiro de tal já nasce homenageado. A música é como o vento, ela se espalha pelo mundo inteiro e vai para qualquer lugar e sai para qualquer lugar. A música, para mim, está sempre em todos os contextos. Eu sou um cidadão brasileiro, e sou um músico universal.

Hermeto, eu atuo com pessoas que trabalham muitos anos, que vivem muitos anos, a sua intuição já falou em algum momento em fazer uma canção sobre o longeviver? Isso daria uma música?

HP: Dava, mas eu não consigo viver na idade que eu sou, cronológica… É uma coisa que eu me vejo menino. Uma criança, até briguei com minha mãe, ela estava com seus… da minha idade mais ou menos, muito debilitada já pro fim, adoentada, e eu estava conversando com uns amigos, eu converso brincando, assim, e ela deitada no sofá, disse: “meu filho, eu nunca vi você homem, e eu: mãe, pelo amor de Deus, eu estou brincando com seus netos aqui, que é isso, como a senhora diz que eu não sou homem? Ela riu e disse: “meu filho, não foi com essa intenção que eu falei, é que você brinca como você brincava quando era menino, eu vejo você menino, brincando ainda”. Aí eu falei, mãe, você não me vê de fora para dentro, como eu também não vejo as pessoas, eu vejo todo mundo no seu interior, eu também me vejo no meu interior. Eu me amo, eu me amo de verdade… Eu me lembro de quando fui criado na minha terra, até uns quinze anos, não tinha nada de relógio, não tinha luz elétrica, e a gente almoçava tudo na hora certa…

 

 

Áurea Soares Barroso

Áurea Soares Barroso

Doutorado em Serviço Social com estágio doutoral no Centro Português de Investigação em História e Trabalho Social (CPIHTS) e Mestrado em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Pedagogia (Centro Universitário Unifai), Pós-doutoranda (UERN). Atua principalmente nos seguintes temas: envelhecimento, políticas sociais, gestão pública, espaços coletivos de participação cidadã e de solidariedade. E-mail: haathor@uol.com.br

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