A Guerra dos Sexos, ontem e hoje

No cine-debate Itaú Viver Mais Cinema, realizado no dia 31/10, em parceria com a equipe do Portal do Envelhecimento, o público participante constatou que viveu a Guerra dos Sexos e, especialmente as mulheres, ressaltaram a importância em suas vidas desses avanços, já que muitas fizeram carreira profissional, em diferentes áreas, conciliando, muitas vezes, o cuidado com os filhos. É uma geração de homens e mulheres que buscaram romper os modelos tradicionais socialmente impostos.

 

O filme a Guerra dos Sexos, dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, nos apresenta a história verídica envolvendo a campeã mundial feminina de tênis Billie Jean King (Emma Stone) e o ex-campeão masculino Bobby Riggs (Steve Carell). A ação se passa no ano de 1973, momento no qual a ‘revolução sexual’ e o movimento feminista, estavam em seu auge especialmente nos Estados Unidos e Europa.

Este foi o filme escolhido para o programa Itaú Viver Mais Cinema, realizado no dia 31/10, na atividade de cine-debate em parceria com a equipe do Portal do Envelhecimento.

O filme começa quando a tenista em ascensão Billie Jean King enfrenta os dirigentes da associação dos tenistas ao constatar que as mulheres recebem muito menos que os homens nas competições oficiais do esporte. Na conversa que tem com eles ouve que os tenistas homens têm mais sucesso, mais público e mais ‘força’, daí a desigualdade nos valores dos prêmios. Billie Jean não aceita os termos e, resoluta, com ajuda de sua empresária, se desliga dos torneios e organiza um campeonato paralelo só para tenistas mulheres.

Neste panorama a partida de tênis, denominada pela mídia de Guerra dos Sexos, responde ao desafio feito a Billie Jean pelo o ex-campeão Bobby Riggs, já com 55 anos, que se denominava “um macho chauvinista”, ou seja, aquele que acredita na supremacia masculina – força e poder. Esse evento esportivo televisionado foi considerado um dos mais vistos, com cerca de 90 milhões de telespectadores em todo o mundo.

Nos bastidores de preparação da partida se desenrolam os problemas pessoais dos dois tenistas, mostrando a dependência financeira que Bobby tem da esposa, e a luta por igualdade e aceitação da própria sexualidade por parte de Billie Jean, com o início de seu romance com Marilyn Barnett (Andrea Riseborough).

O público presente ao cine-debate ocorrido no Shopping Frei Caneca, em São Paulo, mostrou-se bem interessado, torcendo e aplaudindo, durante a exibição, alguns dos feitos de Billie Jean. Ao final, ante a questão – O que você destacaria no filme? – surgiram as duas reflexões que guiaram o debate sobre uma questão absolutamente atual: a desigualdade feminina, em diferentes aspectos, no espaço social, tanto em termos de status econômico quanto na vivência da sexualidade, que perdura até hoje.

Apesar do grande avanço no papel das mulheres na sociedade moderna, em todas as áreas, ainda tem muita força a ideia da superioridade masculina, muitas vezes camuflada.

É o que mostra o recente artigo Índice de igualdade de gênero no mundo tem primeira queda em 11 anos (1) aponta que, segundo dados Fórum Econômico Mundial (WEF), a desigualdade entre homens e mulheres aumentou, em 2017, tanto no Brasil como em todo o mundo, de modo lento e gradual.

Segundo o mesmo artigo “o índice de igualdade global de gênero criado pela entidade com base em quatro quesitos — saúde e sobrevivência, participação e oportunidade econômica, realização educacional, e empoderamento político – sofreu seu primeiro recuo desde que a medição começou, em 2006”.

Essa desigualdade foi verificada principalmente pela diminuição da igualdade na economia e na política, sendo a Islândia o país com maior índice de igualdade, ficando o Brasil em 90º lugar. Nota-se, no entanto, que de modo geral na maioria dos países o fenômeno prevaleceu, e aqueles com mais desigualdade de gênero são Irã, Chade, Síria, Paquistão e Iêmen. Fazem parte do ranking 144 países.

Surge a questão: como e por que prevalece essa desigualdade histórica, entre homens e mulheres, em um mundo desenvolvido, no qual a figura feminina vem tomando a frente em várias áreas, antes vistas como de domínio masculino?

Till Leopold, do WEF, afirma que “pesquisas mostram que medidas com alvo no gênero para ajudar mulheres a progredir no mercado de trabalho têm efeito multiplicador para a economia como um todo e, assim, podem ser bastante eficazes”.

Mas, como vimos no decorrer do debate – que é uma mostra do sentimento de desigualdade social que prevalece – esse é um dado real. Interessante notar que o público do cine-debate, pessoas com 55 anos e mais, fez parte da geração jovem dos anos 1970, quando se desenrola a ação do filme, que trouxe muitas conquistas e avanços femininos, convivendo com a permanência de preconceitos “machistas” tanto no ambiente familiar quanto na sociedade em geral.

Vem de uma lenda grega a primeira justificativa para esta desigualdade – um castigo!

Segundo a lenda, as mulheres da Ática tinham o direito ao voto na época do rei Cécrope I (1558-1508 AC). Quando ele fundou uma cidade, nela brotaram uma oliveira e uma fonte de água. O rei perguntou ao oráculo de Delfos o que isso queria dizer, e a resposta foi que a oliveira significava Atena – deusa que representava a civilização, a sabedoria, a estratégia, as artes, a justiça e a habilidade – e a fonte de água Poseidon – deus do mar / Netuno para os romanos -, e que os cidadãos deveriam escolher entre os dois qual daria o nome à cidade.

Todos os homens e mulheres foram convocados a votar. Os homens votaram em Poseidon, as mulheres em Atena, que venceu por um voto. Poseidon ficou irritado, e atacou a cidade com as ondas. Para apaziguar o deus as mulheres de Atenas aceitaram três castigos: que elas perderiam o direito ao voto; que nenhum filho teria o nome da mãe; e que ninguém as chamaria de atenienses.

O castigo foi cruel – a perda de um do mais importante direito cidadão – o poder de participação e escolha.

Ao longo da história podemos observar, em diferentes momentos, as tentativas das mulheres em estabelecer igualdade social, mas prevaleceram esforços independentes e não organizados, como o ocorrido durante a Revolução Francesa (1789) cujo lema era Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Neste período surge a figura da revolucionária Olímpia de Gouges que declarava que as mulheres possuíam direitos naturais idênticos aos dos homens e, assim, deveriam participar, direta ou indiretamente, da formulação das leis e da política em geral.

Suas ideias não foram levadas em consideração pelo movimento revolucionário, desconsiderando suas próprias palavras de ordem. Segundo os estudiosos esse seria o símbolo mais representativo do feminismo racionalista e democrático que reivindicava igualdade política entre os gêneros masculino e feminino.

No século XIX o movimento pela igualdade feminina recomeça em outro contexto: o da sociedade liberal europeia que emergia, sendo a Inglaterra o núcleo deste feminismo emancipacionista, centrado na luta pela obtenção de igualdade jurídica – direito de voto, de instrução, de exercer uma profissão ou poder trabalhar, e a herança de propriedades. O movimento sufragista surge em 1897 com a fundação da União Nacional pelo Sufrágio Feminino, idealizado por Millicent Fawcett.

O movimento pelo voto feminino na Inglaterra, e as ações de protesto empreendidas pelas sufragistas, apesar do grande impacto, só obteriam um sucesso parcial com a aprovação do Representation of the People Act (1918), que estabeleceu o voto feminino no Reino Unido. No período da Primeira Grande Guerra (1914-18) o papel das mulheres foi fortalecido, pois assumem a liderança tanto das famílias como no mercado de trabalho, já que os homens estavam, na maioria, no front de batalha.

Vale ressaltar que a lei britânica deu forças a mulheres, de diversos outros países, na busca por direito ao voto. As primeiras feministas consideravam de grande importância essa luta por acreditarem que, pelo voto, as mulheres seriam capazes de solucionar problemas causados por leis injustas que lhes vetavam o acesso ao trabalho e à propriedade, por exemplo. Podendo participar do sufrágio, as mulheres passariam a ser também elegíveis e assim, pensavam as feministas, poderiam concorrer de igual para igual com os homens por cargos eletivos.

A Segunda Grande Guerra (1939-1945) ajudou a emancipação feminina e a consolidação de um novo patamar social nos planos econômicos e políticos, entre outros, mas, ao seu término houve um retrocesso, voltando a prevalecer, em parte, caráter patriarcal da sociedade em diferentes países.

Ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher

Esse retrocesso pode ser observado quando, em 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir lança o livro O segundo sexo, motivo de muita polêmica, no qual ela afirma que ninguém nasce mulher, mas torna-se mulher. Contesta, com essa premissa, o determinismo prevalente no final do século XIX, que se baseava na biologia para explicar o caráter ‘inferior’ do sexo feminino e as decorrentes desigualdades sociais entre os gêneros.

Para a filósofa, o “ser mulher” é uma construção social e cultural, e que para tornar-se homem ou mulher é preciso submeter-se a um processo que chamamos de ‘socialização de gênero’, baseado nas expectativas que a cultura de uma sociedade tem em relação a cada sexo. A conduta devia, assim, seguir normas e comportamentos “aceitáveis” de acordo com seu gênero e, consequentemente, homens e mulheres deveriam seguir papéis predeterminados: para os homens o trabalho e manutenção da família; para as mulheres a maternidade e os cuidados do lar. Foi tal a polêmica causada por essa obra que em 1956 ela entra para o Index – a listra de livros proibidos criada pela igreja católica para controlar as leituras dos fiéis – além de proibida em Portugal e na Rússia.

No Brasil constamos um progresso lento relativo à igualdade de gêneros, tendo em vista a diversidade de colonização em diferentes regiões deste imenso país, mesmo considerando avanços significativos ao longo dos anos.

Historicamente vale indicar que apenas no período imperial (1822-1889), foi reconhecido o direito à educação feminina. Outro momento importante foi marcado por mudanças no mercado de trabalho resultantes das greves realizadas em 1907 (greve das costureiras) e 1917 (greve geral), com a influência de imigrantes europeus (italianos e espanhóis), e de inspirações anarco-sindicalistas, que buscavam melhores condições de trabalho em fábricas, em sua maioria têxtil, onde predominava a força de trabalho feminina.

Entre as exigências das paralisações estavam a regularização do trabalho feminino, a jornada de oito horas e a abolição de trabalho noturno para mulheres. No mesmo ano, foi aprovada a resolução para salário igualitário pela Conferência do Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho e a aceitação de mulheres no serviço público.

Em relação à participação política, apenas em 1932, no governo de Getúlio Vargas, é garantido o sufrágio feminino, mas o direito ao voto e à candidatura das mulheres foi uma conquista plena apenas na Constituição de 1946.

Recentemente o movimento feminista brasileiro tomou novo alento, com passeatas e manifestações por direitos iguais e contra toda a forma de opressão, como podemos ver no documentário a Primavera das Mulheres, que narra os últimos anos dos movimentos de mulheres pelo Brasil e dá voz a diferentes protagonistas – de feministas radicais a atrizes e jovens influenciadoras da internet, de mulheres trans a ativistas do movimento negro abarca as muitas direções que o feminismo toma hoje no país (2).

No cine-debate, o público participante constatou que viveu um período de grandes transformações e, especialmente as mulheres, ressaltaram a importância em suas vidas desses avanços, já que muitas fizeram carreira profissional, em diferentes áreas, conciliando, muitas vezes, o cuidado com os filhos. É uma geração de homens e mulheres que buscaram romper os modelos tradicionais socialmente impostos.

Alguns se mostraram espantados com as polêmicas em torno da ‘questão de gênero’ indicando uma postura mais atualizada e avançada da que muitos esperam de indivíduos dessa faixa etária. Os dois temas de fundo do filme exibido – direito a remuneração igual e liberdade de escolha sexual – foram trazidos com naturalidade e argumentação relevante.

Uma das participantes destacou uma frase que o amigo estilista diz ao abraçar Billie Jean, já ao final do filme: ‘Um dia seremos livres para amar quem quisermos’.

Surge então no debate a polêmica em torno da filósofa americana Judith Butler, autora de um livro referência nos estudos de gênero – Problemas de Gênero – e que ficou ‘marcada’ por parte da mídia, especialmente via internet, como um ‘demônio’ que com suas reflexões poderia abalar as estruturas familiares. E a pergunta foi – De que família se fala? Que levou à reflexão sobre as diferentes configurações familiares atuais e, decorrente destas, sobre o papel do idoso no contexto.

Em recente entrevista(3) Butler destaca que no mundo atual, no qual as pessoas se expressam de forma diversa e plural, o respeito à singularidade e a tolerância de cada indivíduo torna-se fator de extrema importância. Olhar para um mundo com mais respeito à diversidade dos gêneros é entender que o outro, independente de sua orientação é alguém que merece respeito e direitos políticos, sociais e econômicos.

Afirma ainda que a identidade de gênero se refere à experiência de uma pessoa com o seu próprio gênero, e é diversa da orientação sexual. O gênero trata das diferenças que são os resultados das construções sociais e culturais, não resultados da natureza humana.

O gênero refere-se à identidade com a qual uma pessoa se identifica ou se se autodetermina; independe do sexo e está mais relacionado ao papel que o indivíduo tem na sociedade e como ele se reconhece. Assim, essa identidade seria um fenômeno social, e não biológico.

Refletindo sobre as desigualdades apontadas no filme A Guerra dos Sexos, e a abordagem dos temas pelos presentes, constatamos que a luta pela igualdade de direitos e liberdade de escolha ainda está fortemente presente em nossa sociedade, conforme nos indica os estudos apresentados pelo Fórum Econômico Mundial (WEF).

Constamos também que as categorias homem e mulher são insuficientes ante a complexidade dos seres, e seus modos de vida, pois não existe o homem ou a mulher ‘universal’. A igualdade e a pluralidade deveriam ser os motes da sociedade em movimento para, assim, pensarmos que não existem velhos/ velhices genéricos, mas diversidade nas múltiplas formas de viver e envelhecer.

Os participantes do debate mostraram-se bem informados e sem preconceitos, afirmando que é importante estar sempre abertos a novas ideias, para uma longevidade plena.

Notas

(1) Artigo publicado no jornal A Folha de São Paulo, por Carolina Vila-Nova, em 02/11/2017. Acessado em 02/11/ 2017. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/11/1932301-indice-de-igualdade-de-genero-no-mundo-tem-primeira-queda-em-11-anos.shtml

(2) A Primavera das Mulheres (documentário), 2017. Disponível em: https://globosatplay.globo.com/gnt/v/6229352/

(3) Judith Butler – Seu comportamento cria seu gênero, disponível em; https://www.youtube.com/watch?v=9MlqEoCFtPM

Fotos: Rodrigo Gueiros

Vera Brandão

Vera Brandão

Pedagoga (USP); Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUCSP); com Pós.doc em Gerontologia Social pela PUCSP. Pesquisadora CNPq (PUCSP); responsável pela editoria da Revista Portal de Divulgação desde 2004. Associada fundadora do Olhe (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento). Coordenadora da Coluna Memórias do Portal e escreve sobre educação continuada; memória social; saúde e espiritualidade; intergeracionalidade. Email: veratordinobrandao@hotmail.com

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