Governo, especialistas e moradores divergem sobre ILPIs

Brasília – Com a diminuição da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida, a população idosa é a que mais cresce no Brasil, de acordo com dados do IBGE. Somente entre 2001 e 2009 seu crescimento foi de 40.5%. Neste mesmo período, os conselhos dos Direitos do Idoso (CDIs) aumentaram 480%.

Aécio Amado

 

Atualmente existem 1.974 conselhos municipais e 27 estaduais. Para a secretária nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Lena Peres, isso reflete o protagonismo do idoso na formação de políticas públicas.

Segundo ela, a criação dos CDIs possibilitou ao governo adotar posturas que integram o idoso na sociedade e mais sintonizadas com suas demandas. “Não temos uma política segregatória de criar, por exemplo, uma praça ou um banco para o idoso, mas queremos uma convivência intergeracional”, disse. Isso significa diminuir o número de “lares de velhinhos” ou instituições de longa permanência para idosos (Ilpis).

Atualmente, existem 1.293 Ilpis no país, das quais apenas 294, cerca de 10%, são públicas. “Não dá para propor algo que eles não querem e o que a maioria quer é continuar morando com sua família”, completou.

Para compensar a diminuição das Ilpis, o governo deve investir na formação de cuidadores profissionais de idosos e na criação de centros de convivência, onde idosos, crianças e adolescentes possam passar o dia em atividades educacionais, de saúde e de lazer. Até agora, foram formados 400 profissionais.

Para o cientista social José Carlos Libânio, que coordenou um estudo sobre hábitos e relações familiares e de trabalho do idoso, essas ações devem ser complementares, pois não substituem outras políticas de habitação. “Quanto mais idosa a pessoa for, até o ir e vir dela para esse centro de atividades fica comprometido pela saúde ou pela dificuldade de andar numa cidade despreparada, sem boas calçadas e respeito nos ônibus”, afirmou.

Ele destaca ainda que é preciso, mesmo em casa, ter alguém que possa amparar o idoso. “Com o tempo, ele fica cada vez mais dependente, deixa de cozinhar, fazer compras e dirigir”, acrescentou.

Libânio acredita que o Estado ainda não está preparado para as transformações que aconteceram nos últimos anos. “Em gerações passadas, era esperado que a família cuidasse do seu idoso, mas com o divórcio e a chegada da mulher no mercado de trabalho esse cuidado nem sempre é possível. Não há preparação do Estado para ocupar este lugar da família”, disse.

A coordenadora de uma Ilpis do Núcleo Bandeirante, cidade satélite de Brasília, Michelle Pereira, reforça a opinião do pesquisador. “Desse jeito, as instituições filantrópicas acabam fazendo o papel do Estado. Se aparece um idoso sem família que não tem para onde ir, uma autorização judicial nos obriga a recebê-lo”, afirmou. O lar que ela coordena abriga 93 idosos e é mantido por doações e convênios com o governo do Distrito Federal. A espera por uma vaga é de mais de um ano.

Michelle Pereira disse ainda que a Ilpi não deve ser vista como um local de abandono. “O lar aumenta a qualidade de vida dos idosos porque oferece atividades às quais ele não teria acesso se vivesse somente com os R$ 550,00 do Benefício de Prestação Continuada que recebe do governo. Temos cursos, passeios e serestas. Não queremos ninguém vegetando”.

O ex-caminhoneiro Manuel Menezes, de 77 anos, é um exemplo de quem preferiu viver numa Ilpi do que na casa de parentes. Ele veio há três anos do Ceará para morar no lar. “Sempre fui independente. Eu tinha dez anos quando meu pai me deu uma última camisa e a partir daí sempre trabalhei. Aqui ninguém me perturba e eu não perturbo ninguém. Nunca fui de dar trabalho para os outros”, disse.

Gloria Cruz, de 66 anos, também elogiou o local. Ela vive no lar desde sua inauguração, há 30 anos, quando se mudou para acompanhar o ex-marido, com 96 anos na época. Nestas três décadas ela tem ajudado as enfermeiras a cuidar dos idosos doentes e namorado muito. Está casada pela sétima vez, a terceira com um dos moradores do lar. Como moradora mais antiga, ela conhece bem o lugar e afirma: “Aqui é um pedacinho do paraíso”.

Fonte: Agência Brasil, 02/10/2010. Acesse Aqui

 

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Redação Portal do Envelhecimento

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