A Festa de Despedida

Tratando de histórias de casais que vivem o dilema da existência, “A Festa de Despedida” apresenta, com muito humor, diferentes testemunhos e visões sobre a eutanásia. Um desses casais que comandam o curso da história é Yehezkel e Levana. Yehezkel constrói uma máquina que libera um produto letal mediante um comando dado pelo próprio doente, configurando assim um suicídio assistido. Ajudado por um grupo de idosos que vivem na mesma casa de repouso em Jerusalém, o homem coloca seu plano em ação.

 

Sábado à noite, cinema, pipoca e um tantinho de solidão: itens para lá de imprescindíveis para uma boa reflexão. Quer mais cor nisso tudo?

Então, vamos lá: combine o já falado com Eutanásia, Envelhecimento, Alzheimer e Homossexualidade na velhice. Parece terrível? Pois eu te digo que não. Consegui, ao mesmo tempo, rir, chorar e pensar em todos aqueles que me são queridos e que daria até mesmo o que não tenho, pela paz de quem tanto significa para minha alma.

Bem, temas tão controversos e delicados você encontrará no filme “A Festa de Despedida” (2015, Direção: Sharon Maymon e Tal Granit), uma sensível produção alemã/israelense, de roteiro impecável, que nos leva ao lado bom da dor, aquela da suprema leveza de pensar apenas no bem do outro e na bela vida vivida que partilhamos com alguém muito especial.

Apesar de legalizada em alguns países, assim como o suicídio assistido, a eutanásia pertence àquelas questões bastante discutíveis e, como não seria? Se partirmos do princípio que a vida é nossa maior riqueza, como pensar numa perda voluntária do bem mais precioso que o divino – que mora lá longe – nos deu?

Outro ponto doloroso: afinal, de quem seria a decisão final, da família que alimenta a cada dia a infinita esperança de cura milagrosa, ou do indivíduo, disposto a terminar com sua própria dor e sofrimento?

Tratando de histórias de casais que vivem o dilema da existência, “A Festa de Despedida” apresenta diferentes testemunhos e visões sobre o assunto. Mas, na verdade, a beleza do filme está na forma como casais que passaram boa parte de suas vidas lado a lado, e que agora precisam enfrentar a dura realidade de uma doença terminal, lidam com o fim de seus pares. Como seguir a vida sem a simples presença de quem amamos?

Um desses casais que comandam o curso da história é Yehezkel e Levana. O passatempo preferido de Yehezkel é construir engenhocas, por exemplo, um distorcedor de vozes que usa para dar trotes em sua amiga se fingindo de Deus, pedindo para ter paciência, pois ainda não há vagas no céu para ela.

Levana, a companheira de anos, está com todos os sintomas da Doença de Alzheimer – “Aos poucos estou desaparecendo. De mim, restará, apenas, a casca”.

Padecendo pelo insistente pedido de ajuda de uma amiga muito querida do casal cujo marido implora pelo próprio fim, Yehezkel, decide construir uma máquina que libera um produto letal mediante um comando dado pelo próprio doente, configurando assim um suicídio assistido. A difícil decisão de “apertar o botão” é daquele que sofre.

Ajudado por um grupo de idosos que vivem na mesma casa de repouso em Jerusalém, o homem coloca seu plano em ação. Primeiro, palavras de amor, beijos e despedidas, tudo filmado, depois rumo a “Terra do Nunca”, com suas belezas e gostosuras (melhor pensar assim).

Parece triste, mas o cuidado no roteiro, o tom cômico, manobras inteligentes nos diálogos, faz com que a sensação que fica para nós, seja boa, íntima, como se já conhecêssemos os personagens e quiséssemos ajudá-los nessa estranha caminhada para o desconhecido.

Algumas cenas navegam entre os extremos da dor e da comédia: a triste imagem da doce Levana nua no café da manhã e mais tarde seus amigos também nus, na estufa, brindando a natureza humana é algo impagável. Depois a singela declaração de amor de um marido sobre o primeiro encontro com sua mulher e as agruras da velhice: nossas memórias nos enganam até na última fase da vida, fato esse irrelevante diante do sentimento entre duas pessoas que se amam (o homem erra de mulher, ele lembra do encontro com a primeira mulher e quem está no “fim” é a segunda).

Importante destacar que a habilidade dos diretores acaba encontrando espaço para tratar outros temas como a relação homossexual de dois homens casados, a eutanásia como um negócio, o já conhecido “turismo de morte” na Suíça, um país que permite o suicídio assistido e para onde várias pessoas viajam para realizar um último ato que seu país de origem proibiu.

Quando vemos, lá se foram 95 minutos de filme que cresce a cada cena, a cada dilema de vida e morte, até chegar o momento final (literalmente), a decisão de Yehezkel e Levana, o maior ato de amor.

Aí pensei: “Não se deveria mandar as crianças para a cama, cada vez que acordam ficam mais velhas” (do filme “Em busca da Terra do Nunca”) e os centímetros da “régua” diminuem.

Assim, de um tantinho triste, que eu estava, saí de “A Festa de Despedida” infinitamente feliz, feliz de quem um dia pode encontrar a imensidão do que significa amar.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=_VPWV2HCgIA

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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