Família e velhice: abandono e desamparo

Um senhor, que vive em área rural, recebe uma ligação da filha avisando que não passará a noite de Natal com o pai. Assim, ele acaba passando a data sozinho. Na cena seguinte chega a notícia do falecimento do pai. Todos os filhos deixam seus trabalhos na cidade e, vestidos de preto, seguem para o velório. Já em casa, eles encontram a mesa de jantar posta e, então, o pai, surge, para surpresa geral. Os filhos se assustam. Então, o pai diz a frase mais marcante: “De que outro jeito eu teria conseguido reunir todos vocês? Hein?”

 

Este texto discute a família moderna tendo como referência a propaganda “Voltar para Casa” (2015) da rede alemã de supermercados Edeka. A propaganda mostra um senhor que vive em área rural e que recebe uma ligação da filha avisando que não passará a noite de Natal com o pai. Assim, ele acaba passando a data sozinho. Na cena seguinte chega a notícia do falecimento do pai. Todos os filhos deixam seus trabalhos na cidade e, vestidos de preto, seguem para o velório. Já em casa, eles encontram a mesa de jantar posta e, então, o pai, surge, para surpresa geral. Os filhos se assustam. Então, o pai diz a frase mais marcante: “De que outro jeito eu teria conseguido reunir todos vocês? Hein?”

A cena final mostra os filhos e o pai felizes, reunidos para a ceia de Natal. A propaganda termina com a frase: “Está na hora de voltar para casa”.

Partindo da propaganda descrita, podemos refletir sobre algumas questões observadas no mundo moderno, como o abandono e desamparo familiar, onde observamos que as visitas aos familiares acontecem apenas em datas comemorativas.

A discussão parte da ideia de tentar estabelecer a relação de importância entre família e velhice com algumas causas: a estrutura da família inserida num capitalismo que leva ao desamparo e abandono do idoso, como demonstrado na situação da mídia.

A família e seus entraves…

A família é considerada por muitos estudiosos como uma instituição cultural onde as representações sociais (valores, sentidos, crenças, etc.) são formadas e atualizadas. Por essa razão, ela compõe, atualmente, o tripé educação – trabalho – família, portanto sendo o lugar onde o conjunto de representações sobre a velhice é formado, configurando um modelo que deverá ser utilizado pelo homem para relacionar-se com seu corpo, com os outros homens e com a vida (Maffioletti, 2005).

Em função do lugar de importância que lhe é atribuído pelos próprios velhos e por nossa cultura, a família se tornou alvo de críticas, onde o centro do problema estaria localizado nas características da família de hoje, reproduzindo os mecanismos e processos da sociedade, não oferecendo condições para que seus membros mais velhos vivam integrados em seu meio, atualizando o esquema de segregação que a sociedade determina, sendo uma das responsáveis pela marginalização a que é submetido o velho na sociedade contemporânea modernizada.

Outra questão fundamental e objeto de crítica é a intervenção do capitalismo, onde trabalhar fora tantas horas por dia para sustentar a família, acabou deixando o homem sem tempo para cuidar dos seus, sendo o estresse e a falta de tempo (para si, para o lazer, para a cultura e educação) os principais problemas desse tempo moderno onde as pessoas vivem para trabalhar ao invés de trabalhar para viver. Muitas vezes vemos que esses aspectos já são suficientes para fragilizar certos laços familiares.

Relacionando esses pontos com a mídia apresentada, podemos observar que o sistema capitalista com trabalhos árduos e salários pequenos, é a principal causa do distanciamento dos filhos com o pai idoso. Essa avaliação é percebida a partir do local onde os filhos e o pai moram, representando um contraste absoluto (cidade versus campo).

“Cada um guarda em si, como mediador da fala, a imagem de quem inicialmente o ajudou a viver, a falar, a amar” (Maud Manoni,1995).

A citação de Manoni é o esperado como verdade. Porém, como mostrado anteriormente, as gerações mais novas, de filhos e netos, vem se distanciando dos mais velhos, e parecem esquecer quem os ajudou a viver, a falar e a amar. Não temos tempo, é o discurso que mais se houve. Tudo passa então muito rapidamente. O homem moderno é aquele que não tem tempo para olhar para o passado e absorver seus ensinamentos, prefere sempre olhar para frente em busca de novidades e lucro.

Diante desse comportamento, vem o distanciamento. Na velhice, o sofrimento, que advém do corpo e do biológico, ganha intensidade e promove uma fragilização progressiva. “A vivência do desamparo é singular a cada sujeito e vai em função da sua organização psíquica” (Manjabosco, 2014). Muitos podem adoecer mais rápido, física ou psicologicamente, por conta desse abandono.

“O desamparo pode ser considerado um sintoma do sujeito velho tanto nas épocas passadas, quanto nos dias atuais” (Manjabosco, 2014). A humanidade passou por diversas revoluções sociais e tecnológicas, mas o trato para com a velhice pouco mudou, foi e continua sendo negligenciada, como pode-se observar na área do trabalho, da produção. O modo de produção capitalista se utiliza do vigor da juventude e, quando o sujeito não dá mais conta de ser fonte de lucro, é sumariamente dispensado pelo sistema, que até então serviu, e fica “à deriva”, ou seja, sem função, se sentindo sem importância.

Levando em consideração tais questões abordadas, pode-se dizer que o desamparo não é somente familiar, mas sim social também, sendo necessário um trabalho com os idosos vítimas de tais abandonos, e com a sociedade como um todo.

Como visto, o desamparo observado por parte da família, acaba sendo também um desamparo social à velhice. Tais questões citadas acerca da produtividade influenciam a formação da concepção de velhice pelas famílias, resultando em um sentimento de medo de envelhecer, pois esses indivíduos não reconhecem, em suas instituições (familiares e sociais), o acolhimento que as deixariam seguras enquanto velhos. Os desamparos a que estão submetidos, permeiam seus lares.

Referências

MAFFIOLETTI, V.L. Velhice e família: reflexões clínicas. Psicologia: ciência e profissão,  v.25 n.3, Brasília, setembro de 2005.

MANJABOSCO, R. O desamparo na velhice. Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Departamento de Humanidades e Educação, Rio Grande do Sul, 2014.

MANNONI, M. O Nomeável e o Inominável. A Última Palavra da Vida. RJ: Ed. Zahar, 1995.

MATT; ELBE. J. Voltar para casa. Edeka (2015). Disponível em: https://youtu.be/V6-0kYhqoRo.  Acesso em: 16 ago. 2016.

Escrito por  Carolina Alexandrino Baraldi e Ruth Gelehrter da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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