“A Família Bélier” desperta a fala do outro e de nós mesmos

Paula é uma adolescente francesa que enfrenta todas as questões comuns de sua idade: o primeiro amor, os problemas na escola, as brigas com os pais… Mas a sua família tem algo diferente: seu pai, sua mãe e o irmão são deficientes auditivos. É Paula quem administra a fazenda familiar, e que traduz a linguagem de sinais nas conversas com os vizinhos. Um dia, através de seu professor, ela descobre ter o talento para o canto, podendo integrar uma escola prestigiosa em Paris. Mas como abandonar os pais e os irmãos?

 

E nas minhas andanças semanais pelas telas mágicas da cidade, invadidas por grandes e pequenos filmes pretensos aos Oscar, encontro, nada mais nada menos que o simples e singelo “A Família Bélier”. Devo dizer que os críticos não pouparam alfinetadas às doses monumentais de açúcar, lágrimas e soluços que a história (ficcional) provocava nos espectadores.

Da minha parte, confesso que o filme emociona pela força da intensidade dos sentimentos, desejos e gestos dos personagens. Sempre como verdadeiras explosões que falam de afeto e acabam nos tocando pelas constantes faíscas de generosidade, nunca pelas limitações impostas por uma suposta deficiência.

Edgar Morin (sociólogo e filósofo francês) afirma que o cinema, entre todas as artes, é a que mais se aproxima da experiência humana. Para ele, o cinema é o recurso através do qual podemos buscar a superação da indiferença.

O autor ainda ressalta a fascinação que existe num espetáculo cinematográfico em que os espectadores encontram-se numa espécie de hipnose e alienação, esquecendo-se de si mesmos, projetando-se nas histórias e nos heróis que aparecem.

Acredito que “A Família Bélier” proporciona a possibilidade de acordamos para a compreensão do outro e de nós mesmos. E essa experiência, ricamente vivida no cinema, foi – desculpem-me a redundância – ainda mais poderosa com o debate que aconteceu no final da exibição. Sabe aqueles detalhes que só aparecem no olhar e na percepção do outro? É isso aí, parece que viramos “gente grande” quando aprendemos a ouvir.

Você deve estar pensando: onde consigo tamanha emoção? Então, vamos lá, anote na sua agenda: sempre na última terça-feira do mês, às 14 horas, o Itaú Viver Mais Cinema nos brinda com a exibição de um filme (cuidadosamente escolhido) e, como já disse, um animado e descontraído debate. Ah, para não esquecer: o evento é aberto para todos os públicos e, aqui em São Paulo, tudo acontece no Cine Shopping Frei Caneca. Nessa última terça-feira, dia 27 de janeiro, a escolha da equipe Itaú foi pelo divertido e tocante, “A Família Bélier” (2014) do diretor francês Eric Lartigau.

Dentre muitas coisas gostosas nesse evento, eu diria que “o antes” e “o depois” são partes essenciais dessa ida ao cinema. Logo que me acomodei num assento marcado, um homem – que chamarei de um certo “Senhor Bélier” – me cumprimentou animadamente. Coisas assim: “Você vem sempre aqui? Gosta desses eventos? Sabe, eu já estou passando dos 80, mas olha que ainda tenho animação pra muita coisa. Cinema é demais, né! Pena que não vou ficar para o debate…eu sempre tenho muito pra falar.”

Quando as luzes se apagaram, ele disse: “com licença, agora vou me esparramar”. E assim, entra em cena os agitados personagens dessa exótica família.

Mas, quem são os Bélier? Como, na maioria das famílias, temos o pai Rodolphe (François Damiens), a mãe Gigi (Karin Viard), o filho Quentin (Luca Gelberg) e a filha Paula (Louane Emera). Um detalhe, à exceção de Paula, todos são deficientes auditivos.

À princípio, você poderia pensar que a história se limita a falar das dificuldades impostas pela deficiência (se é que, de fato, ela existe) ou até das superações. Mas não, de cara, percebemos que Paula exerce um papel fundamental na dinâmica familiar, social e de trabalho do grupo: é ela quem dá voz à família, ela é a intérprete dos seus pensamentos e emoções. E o que não falta para a jovem Paula é trabalho. Como eles moram numa área rural, vivem do que produzem e ainda encontram tempo para participarem das questões políticas do local, inclusive com a candidatura do pai a prefeito da cidade.

Esse poderia ser o gancho para o desenvolvimento da história, mas Lartigau, o diretor, optou por outro caminho: iluminou a trajetória de Paula e fez dela sua heroína.

Dando destaque à responsável jovem, entra em cena o despertar do amor e a importante e decisiva chegada do professor de música M. Thomasson – divinamente interpretado por Eric Elmosnino – com sua percepção precisa do talento da jovem para o canto. Ele diz: “Você tem o dom”.

Através dele, Paula descobre sua própria voz, a voz da alma que grita para ser despertada. E nela, ele encontrou o eixo, o seu centro, há muito perdido. Como diria a poetisa Cora Coralina (1889-1985), “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

E é na música do eterno Michael Sardou (ícone da canção francesa), “Je Vais t’Aimer” e “Je Vole”, que a emoção invade a tela e a menina vira mulher. É no toque do pai que a compreensão acontece, no afeto trocado pelo olhar que permite que Paula alce voo e siga o seu e só seu percurso de vida.

“Queridos pais, vou partir. Amo vocês, mas vou partir. Eu não vou fugir, vou voar…”

 Falando um pouco da surdez

O filme retrata um pouco da realidade dos sujeitos surdos, embora a comunidade de surdos na França tenha se manifestado contra a escolha de artistas não deficientes e suas performances, consideradas estereotipadas por eles. Que realidade seria essa? A Família Bélier mostra que na França, país de primeiro mundo, a acessibilidade aos vários tipos de serviços públicos e eventos não é tão fácil assim para quem é surdo. Imaginem por aqui, quando poucos sabem que a Língua Brasileira de Sinais seja considerada a nossa segunda língua oficial. Você a conhece?

Mas o que vem a ser a surdez? As pessoas nascidas surdas foram julgadas “estúpidas” por milhares de anos e consideradas “incapazes” pela lei ignorante – incapazes para herdar bens, contrair matrimônio, receber instrução, ter um trabalho adequadamente estimulante – e que lhes foram negadas de direitos humanos fundamentais. É o que nos narra Simone Spadafora (2011a), acrescentando que essa situação só começou a ser remediada em meados do século XVIII, quando a percepção e a situação dos surdos se alteram radicalmente. 

Segundo ela, a ciência, para explicar o desconhecido, inventou a surdez através dos níveis de perdas auditivas, das lesões no tímpano, de fatores hereditários e adquiridos. Os discursos produzidos culturalmente da surdez, todos associados e produzidos no interior de saberes clínicos, linguísticos, religiosos, educacionais, jurídicos, filosóficos, etc., orientam olhar os surdos como capazes de serem “tratados”, “corrigidos” e “normalizados”, olhares biologizantes.

Aliás, o termo “surdo” é vago, pois são variados os graus da surdez. Spadafora (2011a) assinala que os graus têm uma importância qualitativa, e mesmo “existencial. Segundo ela, “há pessoas que têm dificuldade para ouvir, pessoas que conseguem ouvir parte do que se fala com auxílio de aparelhos auditivos e um pouco de atenção e paciência provindos de quem fala com eles. Há os que são ‘seriamente surdos, vítimas de doença ou dano no ouvido na juventude; ainda é possível ouvir a fala com os novos aparelhos auditivos existentes. Existem os profundamente surdos – às vezes chamados totalmente surdos -, que não têm esperança alguma de ouvir qualquer fala. As pessoas profundamente surdas não são capazes de conversar de maneira usual – precisam ler os lábios, usar a língua de sinais ou ambas as coisas.

Assim como alguns autores, entre eles Oliver Sacks, A Família Bélier propõe olharmos a surdez, não no lugar da deficiência, mas como uma diferença cultural. Uma identidade. A surdez como um marcador cultural primordial, sujeitos surdos e não sujeitos com surdez, sem cair nas oposições entre surdos e ouvintes. Nesse sentido a surdez seria um primeiro traço de identidade, e não somente uma materialidade sobre a qual apenas discursos médicos são inscritos.

Oliver Sacks (2010), em “Vendo Vozes”, nos incentiva a ver os surdos sob uma luz nova, “étnica”, como um povo, com uma língua distinta, com sensibilidade e cultura próprias.

A partir do sujeito surdo representado no filme A Família Bélier, é possível pensar também sobre a padronização e normatização imposta pela sociedade contemporânea à vida humana, patologizando o desconhecido, o altero, o diverso, como a velhice (Spadafora e Côrte, 2013), uma vez que a maioria dos trabalhos sobre o envelhecimento (assim como os da surdez) aponta os problemas do idoso de uma perspectiva externa a ele, pois não se ouve a sua própria voz.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=y0pnVZLD4eU

Música “Je Vole” por Michael Sardou (1978) https://www.youtube.com/watch?v=kLkMVmHMJV4

 Referências

Sacks, Oliver (2010). Vendo Vozes: uma viagem ao mundo dos surdos. São Paulo: Companhia das Letras.

Spadafora, Simone (2011a). Velhices sem escuta na surdez contemporânea. Exame de qualificação, mestrado acadêmico. São Paulo, PUC-SP.

Spadafora, Simone & Côrte, Beltrina (2011b). Asilamento justificado: Inclusão de velhos surdos e deficientes auditivos. [Versão eletrônica], Revista Portal de Divulgação, (6). Disponível em http://portaldoenvelhecimento.org.br/revista/index.php/revistaportal, acesso em 03/11/11.  

Spadafora, Simone & Côrte, Beltrina (2013). A surdez: uma analogia com a velhice. In: COELHO, O. E KLEIN, M. (orgs) Cartografias da surdez: Comunidades, Línguas, Práticas e Pedagogia. Porto: Livpsic.

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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