Falsos deuses

Quando uma pessoa começa a perceber os sinais do próprio envelhecimento – algumas vezes não por ela, mas pelos outros, pelo “alerta” do outro -, quase sempre procura por alternativas desesperadas para evitá-los. É o que ocorre com a propaganda de um certo medicamento cuja chamada sedutora anuncia: “viva sem ficar velho”.

 

Bruno José Monte Rey da Cunha* e Ruth Gelehrter da Costa Lopes

O jogador de futebol em fim de carreira hesita em aposentar-se, busca, na medida do possível, uma colocação em outros times para continuar ativo na profissão, luta com suas limitações e fragilidades – próprias do passar dos anos – e, até pela falta de perspectiva, decide pelo “pendurar as chuteiras”: aceita, resignado, que sua carreira nos campos chegou ao fim. Traçando um paralelo, vemos que o mesmo acontece em algumas velhices.

Parte da propaganda “Viva sem ficar velho”

Quando uma pessoa começa a perceber os sinais do próprio envelhecimento – algumas vezes não por ela, mas pelos outros, pelo “alerta” do outro -, quase sempre procura por alternativas desesperadas para evitá-los. É o que ocorre com a propaganda de um certo medicamento, que aqui chamaremos de “F”. A chamada sedutora não poderia ser outra: “viva sem ficar velho”.

Mas, perguntamos: a velhice seria assim tão ruim? Lygia Py (2004, p. 114) talvez tenha a resposta, em seu texto “Tempo de envelhecer: percursos e dimensões psicossociais” quando diz: “[…] sentindo o afastamento progressivo do padrão jovem socialmente instituído, (o idoso) se vê ameaçado de exclusão, por não mais atender às exigências do culto à juventude”.

Logo, o idoso se percebe numa situação ameaçadora diante da imposição social de uma eterna juventude que vincula a ideia de doença e morte ao envelhecimento e, consequentemente, “espalha” pela mídia essa concepção. Sentindo-se excluído, e de acordo com Py, acionando “conteúdos persecutórios”, só o que resta são as diversas e “amalucadas” formas de permanecer jovem, e quem sabe até, adiar o fim. Assim, o remédio ou os remédios ganham espaço, pois surgem em perfeita combinação para atender uma demanda ilusória.

É como se o sujeito que envelhece fosse um míope social, enxerga apenas o que está diante de si, a decrepitude e a perspectiva de morte. Em resumo: um alguém improdutivo, impedido e iludido, até mesmo incapacitado de ampliar seu olhar para novos horizontes.

E qual seria a alternativa imediata? Tomar algumas drágeas de “F” e ganhar o mundo mágico da juventude.

Seguindo esse caminho, Py (2004, p. 115) adverte: “no curso do envelhecimento, o ser humano é impelido a confrontar a desqualificação do corpo envelhecido que é marcado no social pelos estigmas da decadência, feiura, doença e aproximação da morte”. Na verdade, ninguém quer ser velha(o) feia(o), improdutiva(o), doente e se ver prestes a morrer, daí as propagandas explorarem os sonhos e desejos de um eterno bem viver, considerando que este é um segmento altamente rentável e muito bem aproveitado pela mídia.

É como se vendêssemos uma pílula da juventude mesclada à ideia da imortalidade!

Para Py (2004, p. 120) “o envelhecimento agrava o que é sentido como perda e, assim, fragiliza os recursos internos do indivíduo idoso, construídos ao longo de toda a vida”. Decidido a não se entregar às formulas mágicas, mas desiludido, percebendo que a identificação com a eterna juventude é mítica, falsa, e que tudo acaba, o velho se vê desamparado com a ausência de um corpo vigoroso, das capacidades motoras, do poder, do status do trabalho, além do inevitável: as perdas das pessoas queridas.

Py (2004, p. 123) propõe que “a elaboração dessas perdas deve resultar numa abertura de perspectivas para um redirecionamento dos afetos depositados nesses vínculos, no sentido do idoso se estender com a inexorabilidade das marcas da passagem do tempo”.

Aceitar e refletir que seu corpo já não é o mesmo de ontem, aceitar e refletir que seu corpo está envelhecido, e continua a envelhecer, aceitar e refletir que ele precisa se adequar a uma nova condição ditada pelas limitações das capacidades físicas; buscar outras atividades, abrir espaço para a construção de novos vínculos afetivos, fazer novas amizades: esses, talvez, sejam caminhos, possibilidades que cada um deve perseguir ao longo da vida, sendo dono de si mesmo, aprendendo a dizer não à publicidade ruim, e aprendendo a dizer sim às demandas do corpo e espírito.

Assim como o jogador de futebol que descobre um novo mundo fora dos campos, o mesmo pode acontecer ao indivíduo que envelhece. Há vida no envelhecer, e é possível viver sendo velho.

Se estas mal traçadas linhas não fizeram sentido para você, quem sabe, pelo menos, um pouco delas permaneçam nas suas reflexões. Como bem lembra Py (2004, p. 127), espero que “em vez de aceitarmos a marca de horror da velhice e confrontarmos a morte, possamos estar diante da nossa própria finitude e da finitude dos objetos da nossa afeição”.

“Os deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser”. (Fernando Pessoa)

Referências

PY, L. (2004). Envelhecimento e subjetividade. In: Tempo de envelhecer: percursos e dimensões psicossociais. Rio de Janeiro: Nau.

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* Bruno José Monte Rey da Cunha – Aluno do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. Profa. Dra. do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia e do Curso de Psicologia, FACHS.

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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