Falar com idosos como se fala com bebê é desrespeitoso, não fofo!

Quando a enfermeira chama o seu parente idoso de “docinho”, ela pode fazer isso para ser gentil, mas usar essa linguagem infantilizada como nessa situação realmente pode ser bastante prejudicial, de acordo com uma pesquisa publicada no The Gerontologist da Universidade de Oxford. E um novo estudo descobriu que também é ruim para a saúde deles.

Ann Brenoff *

 

A infantilização da linguagem, denominada na pesquisa como Elderspeak, é caracterizada por uma fala lenta, entonação exagerada, volume elevado, com uso intencional de vocabulário simples e reduzida complexidade gramatical, mudanças no afeto, substituições de pronomes (“como estamos hoje?” Em vez de “como você está? por exemplo), diminutivos e repetição. A conclusão é: pessoas idosas, especialmente aqueles com problemas cognitivos, realmente não respondem bem a esse tratamento.

A pesquisa mostrou que os idosos com deficiências cognitivas que são tratados desta forma são menos propensos a cumprir e fazer o que está sendo solicitado a eles e/ou eles vão reagir negativamente, geralmente ficando agitados e gritando.

O estudo da pesquisadora Anna Corwin, da St. Mary’s College of California, analisou 100 horas de interações gravadas entre freiras católicas, com deficiência cognitiva e com idades entre 81 e 92 anos, e seus cuidadores, que eram freiras mais jovens.

Os dados foram coletados como parte de um estudo de sete anos sobre a comunicação linguística que contribui para o sucesso do envelhecimento em uma enfermaria de convento católico, onde os cuidadores não se envolveram com elderspeak. Os cuidadores, em vez disso, usavam tons de conversação, contavam piadas, histórias e, essencialmente, tratavam o destinatário como “uma pessoa significativa sem se importar se eles conseguiam ou não entender”, disse Corwin ao Huffington Post.

Corwin, professora de antropologia linguística, viveu em um convento do meio-oeste durante 10 meses, observando como as freiras cuidavam dos idosos com deficiência cognitiva. Ela disse que quase nenhuma das cuidadoras fez uso da infantilização da linguagem – nunca. Ela supõe que a escolha das freiras de não usar uma linguagem infantilizada “tem a ver com a maneira que elas entendem o que significa envelhecer”.

Ela disse ainda que as freiras não têm medo de declínio físico. Corwin considera o uso da linguagem infantilizada parte de nosso desrespeito cultural com os membros mais velhos da sociedade. “Nós desvalorizamos pessoas que não são mais produtivas no sentido capitalista da palavra”, disse ela.

Quando a infantilização é usada por um cuidador, ela disse, distorce a auto-avaliação do paciente e dispara a sensação de que não são mais competentes ou valorizados.

Seu trabalho baseia-se em pesquisas anteriores que descobriram que é muito importante a maneira de falar com as pessoas mais velhas. Um estudo de 2015 documentou como a infantilização da linguagem afeta negativamente o senso de bem-estar dos pacientes.

Kristine Williams, professora da Escola de Enfermagem da Universidade do Kansas, treina profissionais em lares de idosos a usar menos esse tipo de linguagem – incluindo termos de carinho como “querida”, “lindinha” e “docinho”.
Essas palavras podem ser bem intencionadas e destinadas a mostrar bondade e carinho. Mas o que elas realmente fazem é “enviar uma mensagem aos idosos de que eles não são competentes”, disse Williams ao Huffington Post.

Muitos primeiros trabalhos das enfermeiras são em lares de idosos. “Elas ouvem as enfermeiras mais experientes falar assim e aprendem isso dessa maneira”, disse ela. “Tentamos levá-las a refletir sobre isso na perspectiva do idoso”, acrescentou, falando das aulas de educação que ensina para enfermeiras experientes.

Em uma entrevista dada à AARP, Williams disse que os cuidadores muitas vezes não sabem que estão falando desta forma e ficam surpresos quando vêem vídeos de si mesmos em situações de cuidado. “Eles pensam que está mostrando que eles se importam e que vai melhorar a comunicação”, disse ela. Mas não está e não vai, ela acrescentou.

E é claro que não são apenas os enfermeiros que precisam ser lembrados de que nem todas as pessoas mais velhas têm dificuldade auditiva ou é mentalmente incapaz de entender o que está acontecendo com elas, medicamente. Os médicos que falam com o cuidador e agem como se seu paciente idoso nem sequer estivesse na sala podem usar alguma reeducação também, ela observou.

Tomando um passo adiante, talvez esteja na hora de uma mudança cultural de como vemos e consideramos aqueles que estão em seus 60 e 70 anos. Alguém topa erradicar aqueles memes de “avós adoráveis”?

* Ann Brenoff é colunista no HuffPost. Ela trabalha fora do escritório de Los Angeles, onde é gerente sênior. Antes de ingressar na HuffPost, em 2011, ela atuou no staff do Los Angeles Times. Tradução livre de Sofia Lucena.

Sofia Lucena

Sofia Lucena

Estudante de Engenharia de Produção da Universidade Federal de São Carlos (SP). Colabora com o Portal do Envelhecimento fazendo traduções de temas relacionados à longevidade humana. E-mail: sofiacortel@hotmail.com

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