A exclusão do idoso dentro das suas próprias famílias

Culpamos, muitas vezes, a sociedade por desrespeitar os direitos dos idosos, culpamos ainda o Estado por cometer inúmeras injustiças com essa população, mas não podemos nos esquecer do desprezo, descaso e violência que existe dentro das famílias.

 

No último dia 13 de outubro minha prima mais velha se casou e para que esse dia acontecesse exatamente do jeito que ela queria eu e minha família vivemos uma aventura. No dia 12 viajamos todos juntos em um ônibus alugado pelos noivos, com destino a Minas Gerais, onde ocorreu a cerimônia religiosa, e por que tão longe? Tudo pela minha avó paterna! Uma senhora de quase 90 anos que não consegue mais realizar viagens tão longas e por isso minha prima teve essa atitude linda que emocionou a todos os convidados. A cerimônia foi belíssima, minha avó segurou as alianças e estava feliz e pude ver a gratidão em seus olhos pelo carinho e preocupação que minha prima demonstrou em um momento tão especial de sua vida.

Presenciei, um dia antes da cerimônia, discretamente, uma cena em que ela pegou as mãos de sua neta e disse algo mais ou menos assim: “Que você seja muito feliz, minha filha, você é uma menina boa e merece toda felicidade do mundo, obrigada por ter vindo aqui só para eu ver você se casar.” Minha prima, emocionada, respondeu algo parecido com: “Só quero a senhora presente nesse dia”. Até eu entrar no ônibus e ouvir as pessoas dizendo o quão linda foi a atitude de minha prima, não tinha notado que, infelizmente, isso não é normal para todas as famílias. Em uma das conversas com os fotógrafos, um deles disse ao meu pai: “Já participei de muitos casamentos, mas nenhum deles os avós foram atores principais, a maioria nem liga para eles, que honra da sua mãe em ter uma neta assim”.

Visivelmente presenciamos a exclusão dos idosos pela sociedade diariamente, uma vez que o sujeito velho é associado a um ser doente, fraco, incapaz, inútil, que não possui sentimentos, prazer e vontades, por isso vem a exclusão. O mesmo ocorre, frequentemente, dentro das próprias famílias.

Em um estudo no qual foram entrevistadas um grupo de famílias de idosas usuárias de Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) do município de Franca-SP, foi possível perceber que a realidade e a significação da velhice tem realce pelo seu aspecto negativo (adoecimento, falta de força física e capacidade de produção formal), pois os filhos das idosas que foram entrevistadas, em sua maioria, não veem a velhice com bons olhos e não valorizam essa fase da vida, demonstrando assim a introjeção do preconceito e da desvalorização a esse segmento, disseminados pela nossa sociedade.

Quantas vezes nos deparamos com situações onde alguns membros de nossas próprias famílias não têm paciência em ouvir as histórias e memórias de vida do avô ou da avó, ou ainda pensam: “Ah deixa ele ali, nem está ligando para a nossa conversa ” ou “ Ele não precisa ir, não vai perceber”, nas quais os filhos, filhas, netos e netas tomam decisões sem nem ouvir o que aquele idoso realmente quer, esquecendo que ele é um ser humano e que possui vontades, sentimentos e o livre arbítrio de escolher aquilo que ele desejar, pois vai continuar sendo o protagonista de sua história até o fim da vida.

Culpamos, muitas vezes, a sociedade por desrespeitar os direitos dos idosos, culpamos o Estado por cometer inúmeras injustiças com essa população, mas também não podemos nos esquecer do desprezo, descaso e violência que existe dentro das famílias. É dever do Estado, da sociedade e, principalmente, da família amparar o idoso garantindo-lhe o direito à vida com dignidade, dignidade esta que pode ser proporcionada apenas oferecendo momentos de escuta para nossos velhos, respeitando suas vontades , incluindo-os nas conversas do almoço de domingo ou na festa de família.

É claro que os problemas familiares devem ser considerados e não é a minha intenção afirmar ou exigir que se deve amar, sentir carinho ou cuidar dos nossos pais, avós, bisavós…, pois sentimentos assim nunca devem ser cobrados. O meu intuito é o de oferecer uma reflexão de que muitas vezes colocamos a culpa na sociedade, cobrando a inclusão dos idosos na vida social, mas não os incluímos dentro de nossas próprias famílias, não nos esforçamos ou não os surpreendemos com atitudes como a da minha prima, e isso é válido não somente para o idoso, mas também para pessoas deficientes, para o negro, para os estrangeiros, para os homossexuais e tantas outros grupos, cuja discriminação e preconceito são frutos de uma cultura onde falta muito mais do que o respeito. Há ausência de empatia, compreensão, e aqui especificamente, aos idosos, que já contribuíram muito para essa sociedade, mas que, infelizmente, são relegados a um segundo plano pelo Estado e também pela sua família.

 

 

Ana Beatriz Almeida

Ana Beatriz Almeida

Graduada em Terapia Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Participou do grupo de estudos e supervisão durante a graduação em Neurologia. Atualmente é mestranda em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). E-mail: graduou-se em Terapia Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Participou do grupo de estudos e supervisão durante a graduação em Neurologia. Atualmente é mestranda em Gerontologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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