Eu fiz algo de memorável?, pergunta o “Sr. Kaplan” que há em nós

Envelhecer é difícil para todos, mas especialmente doloroso para Jacobo Kaplan, que começa a se fazer perguntas do tipo: ‘Que sentido tem a minha vida?’, ‘O mundo é melhor graças a mim?’, diz o diretor do filme “Sr. Kaplan”, Álvaro Brechner, cujo objetivo foi retratar com humor a história do homem que teme a morte. O lançamento será no dia 26 de fevereiro, em São Paulo e Rio de Janeiro. Não percam!

 

“Eu fiz algo de memorável?”, pergunta Sr. Kaplan, a si mesmo, ao se dar conta da sua larga existência e de suas memórias de infância, quando teve que abandonar seu país – ele é um refugiado que escapou da Segunda Guerra Mundial – e se virar sozinho em outro continente, constituindo no Uruguai sua família, mas que vive preocupado e decepcionado com o interesse escasso de seus familiares e amigos em mostrar suas origens judaicas, tratando com um pouco de leveza e muito humor.

Essa é uma das primeiras cenas do filme, baseado no romance “El Salmo de Kaplan”, de Marco Schwartz, que conta a história de Jacobo Kaplan (Hector Noguera), um senhor judeu de 76 anos, aborrecido com o “lugar social” que queriam que ele ocupasse na sociedade: aposentado. A gota d’água foi a não renovação de sua carteira de motorista. Então, ele se inspira em um monólogo casual com sua neta adolescente, meio que andrógina, e em um noticiário para ocupar seu tempo. Junto a um ex-policial, Wilson Contreras (Néstor Guzzini), amigo da família e alcóolatra, contratado pela mesma para ser seu motorista, ambos tomam como projeto de vida uma missão que os tiram da insatisfação com o momento em que viviam: por um lado, Kaplan, vivenciando os efeitos do envelhecimento impondo algumas limitações ao modo em que sempre viveu e, por outro, Contreras, um homem bom, desempregado, e afastado de sua mulher e filhos, por causa de um cunhado corrupto.

Ambos tomam como missão desmascarar um ex-nazista que vive em uma pequena praia vizinha, começando uma jornada de situações cômicas em meio a insolações e muito calor, perseguições e vilões. A situação evolui para uma amizade entre os dois personagens, deixando menos sombrio as limitações de cada um, como o tema que estão investigando e que já foi retratado à exaustão.

Ante o temor à morte, o humor!

Os personagens do filme mostram contradições e fragilidades, além de reflexões existenciais muito sérias e pertinentes à uma sociedade que envelhece rapidamente como a nossa, mas com leveza e humor, levando-nos a dar boas risadas. Para o diretor do filme, Álvaro Brechner, “envelhecer é difícil para todos, mas especialmente doloroso para Jacobo Kaplan, que começa a se fazer perguntas do tipo: ‘Que sentido tem a minha vida?’, ‘O mundo é melhor graças a mim?’”. Ainda segundo Brechner, por meio de personagens que mostram contradições e fragilidades, o objetivo foi retratar com humor a história do homem que teme a morte, aquilo no que ele acredita e quer acreditar, seus valores e os seus receios de perda de identidade, e o desejo inato de deixar uma marca de sua passagem pelo mundo.

Nesse sentido, se discute o sentido da vida. Para uma sociedade cada vez mais longeva, onde pessoas com mais idade quase não mais encontram seu lugar, que projeto de vida estamos construindo para nosso longeviver?

Relações intergeracionais

A relação de Jacobo (Hector Noguera) com sua neta, Lottie (Nuria Fló), é de cumplicidade por interesses individuais. Mas a relação que é construída na comédia com Contreras (Néstor Guzzini), seu motorista, é de outra magnitude: a relação intergeracional está focada na própria relação. Nela, identificamos benefícios mútuos para ambos, novos papéis sociais foram se construindo, assim como novas perspectivas para o aposentado e para o desempregado.

Filmes que fomentam o desenvolvimento de relações intergeracionais são sempre bem-vindos em uma sociedade cada vez mais individualista e individualizada. Neste sentido, “Sr. Kaplan” é   um excelente instrumento para explicar realidades geracionais, seus conflitos e interações, distanciamento e aproximações, graças à intervenção de diferentes profissionais, a começar pelo escritor do romance que deu título ao próprio filme.

Elenco

O filme, da Pandora Filmes,  vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cinema Latino de Huelva, é uma coprodução entre Uruguai, Alemanha e Espanha e foi a indicação uruguaia para o Oscar de 2015. Segundo longa do diretor Álvaro Brechner, “Sr. Kaplan” tem no elenco atores consagrados do cinema latino-americano, Néstor Guzzini – protagonista do filme “Tanta Água”, vencedor do Festival de Berlim em 2012 – e Hector Noguera. O filme participou ainda da seleção oficial do Festival de Chicago, além de ter sido premiado no Festival de Cinema Latino de Huelva, na categoria Melhor Roteiro. 

O ator chileno Hector Noguera, um dos atores mais respeitados da América Latina, é um importante nome na cena cultural chilena. Diretor artístico do Teatro Camino, Hector participou de mais de 120 produções para o teatro, e excursionou pela América Latina, Europa e EUA com suas peças. A carreira de Noguera como cineasta teve início com os curtas-metragens “The Nine Mile Walk (Treze Quilômetros na Chuva)”, “Sofia” e “Segundo Aniversário”, realizados em 2003, 2005 e 2007, respectivamente. 

No elenco da produção, destaca-se o ator Néstor Guzzini, que se tornou o ator mais requisitado no cinema latino (Argentina e Uruguai, principalmente), participando de filme premiados em festivais internacionais, como “Tanta Água” (2013), de Leticia Jorge e Ana Guevara, distribuído no Brasil pela Pandora Filmes, e que rendeu a ele o prêmio de melhor ator no Festival de Lima Latin e no River Run International Film Festival; “Solo” (2013), de Guillermo Rocamora; “Três” (2012), de Pablo Stoll (co-diretor de “Whisky”); “La Demora” (2012), de Rodrigo Pla; “Gigante” (2009), de Adrian Biniez; e “Acné” (2008), de Federico Veiroj.

O elenco conta ainda comRolf Becker (o alemão), Nidia Telles (Rebecca), Nuria Fló (Lottie), Gustavo Saffores (Isaac), Hugo Piccinini (Elias), Leonor Svarcas (Estrella), César Jourdan (Carlos), Adela Dubra (Sheila), Augusto Mazzarelli (Weinstein), Jorge Bolani (Kligman), Sergio Gorfain (Samuel Kaplan), Danna Liberman (Sara Kaplan), Francisco Vila (Jacobo na infância).

O diretor

Álvaro Brechner é diretor do longa  “Mau Dia para Pescar” (2009), selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes e para mais de 60 festivais internacionais, como os de Montreal, Varsóvia (Free Spirit Award), Los Angeles (Melhor Longa-metragem de Estreia), Austin (Melhor Filme e Prêmio do Público), Brooklyn (Melhor Diretor), Mar del Plata (Melhor Ator), Moscou, Xangai, Pusan, Gijón (Melhor Direção de Arte), Lima (Melhor Roteiro), São Paulo, Toulouse (Melhor Roteiro e Melhor Música), Estocolmo, Haifa, Istambul e Havana. No Uruguai o filme permaneceu em cartaz durante 23 semanas consecutivas, recebendo quatro prêmios da Associação Uruguaia de Críticos, nas categorias de Melhor Primeiro Longa-metragem, Melhor Filme Uruguaio do Ano, Melhor Roteiro e Melhor Diretor. Na Espanha, recebeu indicação da crítica especializada para os prêmios de Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro. Sr Kaplan já está com distribuição na Espanha, Alemanha, Áustria, Grécia, Suíça e Israel.

 O autor do livro

Marco Schwartzé um escritor e jornalista colombiano que viveu em Jerusalém entre 1971 e 1974, e atualmente reside na Espanha, onde atua como editor do jornal El Periódico de Catalunya. Em meio a 621 obras de 16 países, ele foi o grande vencedor do prêmio literário Norma, um dos mais importantes da Colômbia, com o romance “El Salmo de Kaplan”, escolhido por unanimidade por um júri que contava com a escritora brasileira Nélida Piñon, o argentino Eduardo Berti e o colombiano Rafael Humberto Moreno Durán.

Portal do Envelhecimento

Portal do Envelhecimento

Redação Portal do Envelhecimento

portal-do-envelhecimento escreveu 351 postsVeja todos os posts de portal-do-envelhecimento