Estereótipos da velhice – uma relação com o filme Up! Altas aventuras

No filme UP! Altas Aventuras percebemos que a sociedade possui uma construção baseada na marginalização e incompreensão da velhice, presentes claramente nas mídias e nos discursos. Isso talvez aconteça pelo fato de vivermos em uma sociedade capitalista onde tem mais valor  aquele que ainda produz.

Este texto discute os estereótipos da velhice relacionando-os com o filme Up! Altas aventuras (Ano: 2009, Direção: Peter Docter). Tentamos, com isso, refletir sobre a visão que nossa cultura passa da velhice que, na maior parte das vezes, é negativa e, pior, nem percebida. A essas questões, incluem-se, também, a “parte positiva” na construção da visão de velhice pelas mídias.

Up conta a história de Carl Fredricksen, um senhor de 78 anos que está prestes a perder a casa em que sempre viveu com sua falecida esposa Ellie, já que o terreno será vendido a um empresário que pretende construir um edifício no local.  Revoltado com a decisão de tirá-lo a força do local que amou por toda a vida, um dia, ao ver o andamento das obras, ele acaba acertando um funcionário da empresa com sua inseparável bengala.

Depois da “suposta” violência, o velho passa a ser considerado uma ameaça para a sociedade e enviado à um asilo. Para evitar que sua casa fosse demolida e consequentemente a própria internação, ele decide usar montes de balões para que sua casa levante voo. Seu objetivo era visitar uma floresta na América do Sul, onde ele e sua esposa planejavam morar. Por um incidente ou… obra do destino, o pequeno escoteiro Russel acaba pegando carona na aventura. Assim, em meio a grande confusão, o Sr. Fredricksen e Russel seguem viagem, rumo à Floresta Amazônica.

Para a realização do artigo foi utilizado como embasamento teórico o texto “Quais são as imagens dos idosos na mídia?” de Beltrina Côrte, Elisabeth Mercadante e Mayra Rodrigues Gomes.

Já nas cenas iniciais, fica evidente a visão do velho como alguém rabugento, um peso a ser carregado, uma ameaça, além de pessoa sem autonomia. Imagem que já tinha sido confirmada com uma pesquisa feita no país há mais de 10 anos, em agosto de 2005 (web site Portal do Envelhecimento), sobre Qual a imagem de velho a sociedade está criando?,  os resultados revelam que 45% dos internautas consideram os velhos como sendo seres com experiência acumulada, 36% um peso a ser carregado, 12% improdutivo e 7% doente. Os resultados são significativos quando mostram que 55% dos internautas têm uma visão negativa da velhice.

A falta de autonomia, muito recorrente na visão sobre o velho, está presente em Up! quando o Sr. Fredricksen, sem direito ou opção de permanecer em casa, se vê obrigado a fugir, chegando ao extremo de carregar a própria casa nas costas. Ele sabia que não tinha qualquer outra escolha.

Baseado em relatos de casos e pesquisa, percebemos ainda ser comum, em nossa sociedade, que a família tome decisões pelos velhos, não dando voz, autonomia e direito de opinião a eles e, quando questionam essas questões, são vistos como teimosos e rabugentos. Esse fato fez parte do estudo realizado pela psicóloga e mestre em Gerontologia Social, Laura Bosque, quando investigou a imagem da velhice nas mídias na década de 90. A pesquisadora concluiu que durante essa década, nos canais abertos da TV Argentina, os velhos se mostravam como corpos sem voz própria e com atributos carregados de preconceitos. A psicóloga diz também que outros falam por eles, e nunca o próprio velho, mesmo quando os defendem, ficam passivos.

Vemos no filme Up! que a bengala é um símbolo marcante da velhice, por representar a fragilidade física. Novamente, ainda que muitas vezes essa visão negativa e preconceito com o envelhecimento passem despercebidos, acabam por marginalizar os velhos e causar um sentimento de ausência de poder. Todos esses aspectos fazem com que os velhos sejam colocados numa posição de “incompreensíveis”.

Desta forma, pode-se concluir que a sociedade ainda tem uma construção baseada na marginalização e incompreensão da velhice, presentes em muitas mídias e nos discursos sociais. Isso talvez aconteça pelo fato de vivermos em uma sociedade capitalista onde tem mais valor quem produz, quem tem do que quem é. O velho ainda é visto como improdutivo, portanto, sem valor – um peso a ser carregado.

Este pensamento, presente no filme desde as cenas iniciais, marcam a imagem do velho como alguém frágil, improdutivo, sem autonomia, rabugento e ainda sofrendo pela perda da esposa. Afinal, pensam os outros, um velho ocupa um espaço onde um edifício pode ser construído, um imóvel que gere lucros e não algo improdutivo.

Com Up! Altas aventuras, percebemos que os velhos são vistos negativamente pela presença de estereótipos que os marginalizam e desqualificam. No filme, isso se faz presente, desde a aparência do Sr. Fredricksen até seu comportamento e a forma como é tratado. Não podemos afirmar que essa imagem do velho tenha sido proposital, com o intuito de uma reflexão acerca do tema. Isso porque na maior parte das vezes, os estereótipos da velhice e suas consequências passam despercebidos.

Referências 

CÔRTE, B.; MERCADANTE, E.F.; GOMES, M.R. Quais as imagens dos idosos na mídia? In:

Velhice, reflexões contemporâneas. São Paulo (SP): SESCSP/PUC-SP, 2006.

PRATA, H.L.; ALVES JUNIOR, E.D. Estereótipos sobre o envelhecimento e a velhice em um filme de Walt Disney. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd185/estereotipos-sobre-o-envelhecimento-em-walt-disney.htm. Acesso em: 29 ago. 2016.

(*) Isabella de Mello Infantini Fonseca – Aluna do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. Profa. Dra. do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia e do Curso de Psicologia, FACHS. E-mail: ruthgclopes@pucsp.br

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