Estamos preparados para conviver com a diversidade em moradias coletivas?

Este texto traz reflexões que podem melhorar o discernimento quando da escolha por moradias coletivas como solução de conforto, desde que haja clareza de que o idoso poderá conviver com a diversidade. É óbvio que, apesar da pressão social exercida sobre os homossexuais em grande parte da vida, a velhice pode trazer posturas menos rígidas e o desejo de ser livre levar a comportamentos mais autênticos. Apesar de isso ser natural, o preconceito e a intolerância podem levar a crises na convivência de idosos que compartilham espaços comuns.

Maria Luisa Trindade Bestetti *

 

estamos-preparados-para-conviver-com-a-diversidade-em-moradias-coletivasTodos sabemos que a diversidade de gêneros sempre existiu, mas que foi um assunto velado até muito recentemente. Quem assistiu o filme Milk – A Voz da Igualdade (2008), viu o ator Sean Penn vivendo Harvey Milk, um ativista que enfrentou o preconceito com a homossexualidade concorrendo a um cargo público em São Francisco, Califórnia, alcançando apoio significativo e não somente da comunidade gay. Aconteceu efetivamente na década de 70, tornando-se um ícone dos movimentos em favor da diversidade.

Considerando que ainda encontramos muitas manifestações polêmicas sobre o assunto, este texto traz reflexões que podem melhorar o discernimento quando da escolha por moradias coletivas como solução de conforto, desde que haja clareza de que o idoso poderá conviver com a diversidade. É óbvio que, apesar da pressão social exercida sobre os homossexuais em grande parte da vida, a velhice pode trazer posturas menos rígidas e o desejo de ser livre levar a comportamentos mais autênticos.

Apesar de isso ser natural, o preconceito e a intolerância, seja por argumentos ligados à moral ou a dogmas religiosos, podem levar a crises na convivência de idosos que compartilham espaços comuns. Muitos serão esses momentos, desde refeições e em ambientes de estar, até a própria circulação em corredores onde os encontros positivos podem ser construídos. Havendo restrições, tais situações tornam-se negativas, criando barreiras que terminam por fragmentar o edifício em diversos pequenos territórios.

Não há como programar um edifício para questões como essas, seria como setorizar por gênero, o que atualmente não tem sentido algum. Ao mesmo tempo, conhecer os limites de tolerância do idoso não pode ser exigido no seu ingresso em residenciais coletivos, já que é uma característica de personalidade muito abstrata e só perceptível na convivência. Portanto, cabe à família considerar aspectos como esse, de modo a garantir o conforto do seu parente idoso. Quando falamos nesse quesito, consideramos não somente questões geométricas e sensoriais mas, principalmente, a possibilidade de pertencer ao grupo no qual o indivíduo está inserido e onde seja capaz de aceitar seus pares tais como são. O senso de pertencimento não prescinde de tolerância, especialmente sobre escolhas e responsabilidades que assumimos ao longo da vida.

Se hoje a maioria das pessoas considera as opções sexuais como naturais, ainda há reações desproporcionais em relação ao assunto. São conhecidos hotéis, bares e locais de passeio onde predominam determinados grupos, mas seria inadmissível pensar em moradias assistidas para idosos com essa característica. Em realidade, espera-se que a tolerância predomine e que a fase do ciclo de vida quando a experiência está acumulada seja proveitosa e feliz, com qualidade de vida e, principalmente, conforto.

* Maria Luisa Trindade Bestetti é arquiteta e pesquisadora sobre as alternativas de moradia para idosos no Brasil, especialmente sobre a habitação mas, também, o bairro e a cidade que a envolvem. É responsável pelo blog Ser modular: Acesse Aqui 

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