Envelhecer é Preciso…

Envelhecer é viver o tempo, aquele tempo de cada um para construir a história pessoal, mas também aquele tempo que corre, sem dar nova chance, produzindo sua ação, sem nada dizer. O tempo é um trem com muitas paradas e em cada estação uma nova página é construída, mais um trecho de nossa biografia é esboçado. O tempo facilita – mas não garante – o nosso amadurecimento emocional para lidar, inclusive, com a própria ação do tempo. Enfim, precisamos desse tal tempo para engolir e digerir o fato de que estamos envelhecendo e vivendo a oportunidade de ter embarcado nesse trem.

 

O envelhecimento está aí para todos! E para os desavisados ou conscientes, preparem-se:  o processo de envelhecer é sutil e pasmem, acontece todos os dias! Com todas as pessoas, em todos os lugares de forma heterogênea. Aliás, todo o curso de nossa vida é heterogêneo.

Nossa relação com o envelhecimento é singular e depende de nossa história pessoal, das nossas crenças e o valor cultural e social agregado ao longo da vida. Valor esse que, por vezes, busca perpetuar a juventude e a conservação, como se fosse possível dar um baile em Cronos. Como se fosse possível retardar o tempo e desfrutar ao mesmo tempo do brilho da juventude e da sabedoria do envelhecer. Quantas vezes nos pegamos reproduzindo frases do tipo: “Queria um corpo de 20 com a sabedoria de hoje”. Adianto que isso é impossível.

Críticas ou constatações a parte, reforço a questão de que envelhecer é preciso. Nossa biografia é construída a partir de nossas experiências, que precisam do tempo para acontecer, não dá para viver tudo que desejamos em um só dia. Viver e construir nossa identidade, precisa de tempo, de vida acontecendo aos poucos.  Como seria possível fazer o que diz Almir Sater “ cada um de nós compõe a nossa história” sem viver essa história?

Envelhecer é viver o tempo, aquele tempo de cada um para construir a história pessoal, mas também aquele tempo que corre, sem dar nova chance, produzindo sua ação, sem nada dizer. O tempo é um trem com muitas paradas e em cada estação uma nova página é construída, mais um trecho de nossa biografia é esboçado. O tempo facilita – mas não garante – o nosso amadurecimento emocional para lidar, inclusive, com a própria ação do tempo. Enfim, precisamos desse tal tempo para engolir e digerir o fato de que estamos envelhecendo e vivendo a oportunidade de ter embarcado nesse trem.

Esse tempo que tentamos inutilmente controlar é também responsável por algumas das transformações que vivemos, mas que nem sempre percebemos; aquela ruga sutil que surge, mas também aquela experiência e maturidade que conquistamos. É o tempo que cura a dor de um romance fracassado e que facilita o luto pela perda de um ente querido, que produz o crescimento de nossos filhos. Pressa para superar aquele momento difícil, desejo de que o tempo congele para curtir bons momentos, esquecemos do tempo que passamos com aquela pessoa, e tentamos a todo custo multiplicar o dia ou as horas.

Como seria se o tempo parasse? Continuaríamos envelhecendo?

Envelhecer faz parte do viver e ir contra essa certeza pode ser bastante sofrido ou, pelo menos, produzir alguns fios brancos na cabeça. Pense na Adaline, personagem principal do filme “A Incrível História de Adaline” (Diamond Films 2015). Nascida na década de 20, casada, depois viúva, tem uma filha.  Durante uma noite chuvosa sofre um acidente de carro quase fatal, sendo reanimada por um raio que atinge o lago no qual o veículo se encontrava. O acontecimento causa um fenômeno inesperado e a jovem é “condenada” a existir com a aparência de 29 anos pelo resto da vida.

Ao longo de sua extensa e congelada vida, Adaline conquistou o pragmatismo da velhice, mas não teve oportunidade de acompanhar a velhice de seus amigos nem acompanhar o crescimento e envelhecimento da filha. Obrigada a mudar de cidade em cidade, fugindo dessa singular situação, temia – e com razão – virar atração de circo ou propaganda de creme antirrugas. Temia viver, se esquivava dos antigos amigos, evitava se relacionar, amar, sentir, construir laços de amizade e se apaixonar. Adaline parou no tempo, mas ainda assim viveu, congelou! Como seria viver como esse personagem? E administrar a ideia de ter 29 anos por 100 anos? Ótimo para alguns, solitário para outros.

Com o passar dos anos, é preciso refletir sobre o que se perde e o que se ganha com a velhice, mas essa análise deve ser feita durante toda a vida e ao longo do processo de envelhecimento.

É preciso avaliar como lidar com o envelhecer e com o tempo que temos, no tempo que temos. Portanto, envelheça, viva, e faça parte de sua jornada, dos 0 aos cem anos!

 

Fabiana Petito

Fabiana Petito

Formada em Psicologia pela FMU, especialista em Psicologia Clínica no Hospital do Servidor Público Estadual, pós graduada em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública, Pós graduanda em Gerontologia pela Hospital Osvaldo Cruz. Psicóloga da Unidade de Referência em Saúde do Idoso PMSP- OSACSC.

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