Envelhecer e morrer com dignidade

Portugal – Rememoro uma senhora acamada, a quem prestava apoio psicológico com frequência num lar de idosos. Tinha um câncer. E, inevitavelmente, já não se encontra entre nós. Dizia-me, sempre que a cumprimentava: “não estou nada bem menina”, e começava a chorar. Todo o seu semblante era um quadro de desânimo e pavor de falecer, o que bem sabia ir suceder a breve trecho. Para apelar à réstia do seu ânimo, dizia-lhe: “tem uns olhos lindos”. E ela respondia-me: “não tenho não, tive”. Sussurrava-lhe baixinho, aproximando-me do seu rosto: “continua a ter uns olhos lindos, azuis, que me fazem lembrar o céu”. Ela sorria sempre, mais confortada. E as nossas conversas surgiam sempre a partir daí.

Sónia Carvalho (*)

 

Esta senhora era apenas uma entre centenas de pessoas institucionalizadas nas IPSS de acolhimento para idosos. Sendo que algumas estão acamadas devido a doenças degenerativas ou demências, sem saírem dos quartos, todo o dia deitadas a contemplarem o dia a desaparecer, vagarosamente, e solitárias na sua dor.

Embora a velhice seja uma etapa prevista, uma vez que faz parte de um processo biológico natural, a realidade é que a pessoa idosa geralmente apresenta dificuldade em lidar com as vicissitudes próprias do processo de envelhecimento.

Muitas vezes, os idosos sentem-se improfícuos por estarem dependentes do amparo de outrem nas atividades básicas do quotidiano, nostálgicos das suas casas e dos tempos de juventude a que jamais retornarão. Assim, inquietos por, na reta final da vida, habitarem um lar, pois (segundo dizem alguns) ali só esperam a morte, despojados de carinho dos que lhes são queridos, que nunca é demais, quiçá o único paliativo que os conforta, a modos de manter a auto-estima. A propósito, lembro-me de uma idosa que não deixava que a cumprimentasse com dois beijos. Desculpava-se: “Não dê beijinhos a uma velha como eu. Sou uma velha, não quero que tenha nojo de mim.”.

Nesta senda, as intervenções de animação sócio-cultural e o apoio psicológico junto dos idosos afiguram-se cruciais para contribuir para um envelhecimento salutar quanto possível e digno.

Felizmente, no nosso conselho, subsiste uma forte preocupação por parte das IPSS para implementar ações proativas que apoiem os idosos. Por exemplo, a Santa Casa da Misericórdia de Mirandela (SCMM) tem vindo a desenvolver um projeto de animação de idosos que tem tido um impacto bastante auspicioso no bem-estar psicossocial dos seus clientes

envelhecer-e-morrer-com-dignidadeEm paralelo, o Centro de Saúde de Mirandela instituiu o projeto “Envelhecer Saudável” e a PSP de Mirandela desenvolve há anos o programa “Apoio 65” que conta com a cooperação de algumas empresas locais, tal como, a Delta Cafés. Nesta empresa, os funcionários despendem uma/duas horas por semana, durante o horário de trabalho, para atividades de apoio social, designadamente dar apoio aos idosos que vivem sozinhos no nosso conselho.

Ainda assim, as formas de apoio mencionadas não chegam a todos os idosos que vivem no nosso conselho! Segundo um recente levantamento de dados efetuado pela PSP de Mirandela, existem cerca de 600 idosos em Mirandela cidade a viverem sozinhos, sendo que a SCMM presta apoio a 300 idosos no âmbito do apoio domiciliário. É preciso também o envolvimento da própria comunidade.

Deveríamos preocupar com os vizinhos idosos que vivem ao nosso lado, oferecer ajuda para o que for preciso. E porque não implementar políticas análogas da Delta Cafés no nosso contexto laboral? Poderíamos fomentar sentimentos de gratificação pessoal por causa do nosso serviço em prol de franjas da comunidade, ao invés de dedicarmos algumas “horitas mortas” para navegar na internet em busca de coisas fúteis, como alimentar cusquices no Facebook, porque não sabemos que fazer ao tempo.

Importa demonstrar, agora mesmo, o nosso espírito solidário para promover a dignificação da pessoa idosa.

Que os idosos possam sentir que são protegidos, acarinhados e nunca, mas nunca, sós.

Que possam partir com memórias lindas dos seus últimos anos da sua vida, não se cingindo saudosamente e apenas aos tempos de juventude, revendo vezes sem conta os álbuns de fotos que guardam nas gavetas de tempos idos. São os nossos pequenos gestos, de carinho, de cuidado e de preocupação, que concebem essas memórias.

(*)Psicóloga, responsável pela Oficina Estimulação Cognitiva do Projeto Animação de Idosos, criado em Julho de 2012. E-mail: sonia@scmm.pt. Fotos extraídas do site do projeto.

​Fonte: Terra Quente, Edição 529, 01/11/2013. Acesse Aqui

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