Encontre-me nas Sutilezas

Dia 21 de setembro é o dia da Conscientização da Doença de Alzheimer. Dia que somos convidados a pensar. Pensar na Ermelinda, na Suzete, Mariazinha e Teresinha. Pensar em tantos idosos que vivem a angústia de se perderem da própria história e na crueldade de tornarem-se a própria patologia.

 

Chego para trabalhar carregada de materiais que farão parte da proposta do dia, quando a vejo acelerando os passos ao meu encontro.

Recebo um abraço afetuoso seguido de uma pergunta feita com sotaque carregado do interior: Ôxe querida! Já colheu o milho?

Retribuo o abraço e digo que havia deixado tudo em ordem antes de sair de casa. E não estava mentindo, afinal já havia feito ginástica, andado com as cachorras e separado os materiais para um dia de atividades. O milho, no meu caso, estava enlatado dentro da dispensa.

O dia apenas começava e eu já estava esbaforida ao abraçar Ermelinda que trazia nas entrelinhas da demência, a pessoa que havia sido. Ao criar-se na roça, carrega para o presente todas as sensações vindas daquele contexto histórico. A doença apaga lembranças, modifica as pessoas enquanto teima em nos mostrar um não sei o que tão sutil que passa despercebido pela maioria. Ela está ali.

Hoje, em meio a muita agitação, andanças e momentos de confusão mental, ela desenha compulsivamente numa tentativa de organizar um mundo que se encontra totalmente desconexo. Seus desenhos retratam sua desordem mental e isso me instiga.

Dona Suzete também me cativa. Dona de um viver de absoluta dedicação ao lar, ela conta que seu marido nunca permitiu sua ausência. A casa era o seu lugar e suas tarefas eram sempre relacionadas a ele. Na sua velhice, carrega fortemente a proibição imposta pelo esposo, o que causa grande transtorno sempre que se ausenta.

Dona Suzete tem uma demência avançada e sempre responde em tom exclamativo a retribuição ao elogio que, sinceramente, faço a ela: Você é que é linda! Linda é você! Mas a vida não tem sido linda com ela e tem lhe tirado o poder de exclamação trocando o que seria surpreendente e feliz pela agonia de não mais reconhecer a própria casa.

Justo com ela que não podia se ausentar! Ultimamente pensa que precisa voltar para casa mesmo quando já está nela. Isso me parece cruel demais.

São histórias e mais histórias que a mim são apresentadas por personagens reais que fazem parte da minha vida profissional e afetuosa já que, confesso, não sei e nem quero separar uma da outra.

Para tornar a doença mais branda, ofereço como alternativa, a Arteterapia como meio de suavizar angústias e perturbações, além de ser um importante meio de estímulo cognitivo.

Familiares de idosos que possuem Alzheimer ou outras demências, muito comumente desistem dessas pessoas.

A doença degenerativa parece ser maior do que qualquer ganho, pois sabemos que a perda vem a galope.

Dia 21 de setembro é o dia da Conscientização da Doença de Alzheimer. É uma tentativa de tornar o esquecimento social que ela traz como consequência, pelo menos um pouco menor.

Costumo me referir ao esquecimento social como algo maior do que o esquecimento patológico e isso é perverso demais.

Onde estão as políticas públicas capazes de favorecer idosos com demência? Onde estão os Centros-Dia Públicos capazes de acolher esses idosos sem tirá-los do convívio familiar? Temos pouco! Muito pouco! Por que os velhos com demência não são expostos exaustivamente a programas de estímulo cognitivo que valorize a vida e não a doença? Deveria ser um direito de todos. De todos eles.

Dia 21 de setembro somos convidados a pensar. Pensar na Ermelinda, na Suzete, Mariazinha e Teresinha. Pensar em tantos idosos que vivem a angústia de se perderem da própria história e na crueldade de tornarem-se a própria patologia.

Neste dia 21 convido a todos para irem mais além. Os encontrem nas sutilezas e, por favor, me deixe voltar para casa! Aliás, Ôxe querida! E o milho?

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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