“Em algum lugar do passado”… presente e futuro

Para o Dia dos Namorados: O filme começa em 1972, na noite de estreia da peça escrita pelo jovem dramaturgo Richard Collier (Christopher Reeve). Em plena comemoração pelo sucesso de crítica e público, uma senhora abre espaço, entre tantas pessoas com sua discreta, mas marcante presença.

 

Ela caminha na direção do jovem, abre delicadamente sua mão, entrega um relógio de bolso e diz, quase num sussurro: “Volte para mim!”

Escrever não é uma tarefa fácil, sempre precisamos de inspiração, principalmente quando o assunto em questão é o amor, premissa básica para uma das datas mais festejadas no ano: o Dia dos Namorados.

Confesso que tenho minha fonte de inspiração particular, o não obscuro objeto de meu amor e, por que não dizer, do meu desejo. Se isso já não fosse suficiente, pensei que o cinema do romance bem poderia complementar e representar a celebração do encontro entre duas pessoas que por generosidade de São Valentim e Santo Antônio fizeram tal façanha acontecer.

Abrindo um parêntese, gostaria de lembrar o leitor sobre as raízes históricas do Dia dos Namorados. Reza a tradição que o dia 14 de fevereiro, data essa em que o dia dos namorados é comemorado em países como os Estados Unidos, relembra o aniversário de morte de São Valentim, mártir cristão que provavelmente viveu durante o século III. Nesse período, o imperador romano Claudio II proibira os casamentos, por acreditar que os homens solteiros e sem responsabilidades familiares eram melhores soldados. Valentim se opôs a essa decisão, concedendo as bênçãos matrimoniais a jovens noivos de forma clandestina.

A rebeldia do santo o levou à prisão e ele acabou sendo decapitado no ano de 270. Durante o período em que esteve trancafiado, Valentim teria se apaixonado por uma jovem, filha do carcereiro, com quem manteve um romance secreto. Antes de sua morte, o religioso lhe escreveu uma mensagem em que assinou “do seu Valentim”, criando aquilo que se tornaria o primeiro cartão de dia dos namorados.

Dois séculos depois, no ano de 496, o papa Gelásio I escolheu Valentim como símbolo dos enamorados. No entanto, toda a saga do mártir é incerta. Há pelo menos três religiosos com o nome de Valentim, dois deles sepultados em Roma e um terceiro que teria sido morto na África. A própria Igreja Católica, em 1969, deixou de celebrar o aniversário do santo por considerar suas origens – e mesmo sua existência – incertas.

No Brasil, a história do Dia dos Namorados começou em 1949. Na época, o empresário João Agripino da Costa Dória Neto (1919 – 2000) trouxe do exterior a ideia de celebrar uma data em homenagem aos jovens casais. No entanto, a festa passou por algumas adaptações para se encaixar melhor nas tradições do país. Em primeiro lugar, a referência a São Valentim, santo nada popular na cultura brasileira, foi abandonada. Em seguida, trocou-se o dia 14 de fevereiro pelo dia 12 de junho. A nova data, véspera do dia do “santo casamenteiro”, o nosso Santo Antônio, foi escolhida para que a festividade pudesse animar o fraco comércio no sexto mês do ano.

E deu certo, aqui estamos, não para vender coisas, mas para presentear os leitores com palavras de amor, esperança e possibilidades. Para isso, não há melhor escolha que o filme “Em algum lugar do passado” (1980, direção: Jeannot Szwarc), história baseada no romance de Richard Matheson originalmente publicado com o título de “Bid Time Return” em 1975 e mais tarde republicado como “Somewhere in Time”.

Alguém poderia pensar: por que exatamente esse filme, já que existem tantas entre tantas histórias de amor. Explico: o filme tem o seu momento presente em 1979, ano esse que me permitiu viver, conhecer e saber o que significava amar sinceramente alguém. Ter um sentimento genuíno que não pede presentinhos, não compreende ressentimentos, ironia, raiva e outras infinitas formas de desamor. Importa apenas a presença de quem se ama.

“Em algum lugar do passado” rompe os limites do tempo e do espaço, permitindo o inimaginável, transgredindo todas as leis possíveis das ciências duras e, tudo isso só se torna possível pela intensidade de um encontro raro, especial e encantado.

O filme começa em 1972, na noite de estreia da peça escrita pelo jovem dramaturgo Richard Collier (Christopher Reeve). Em plena comemoração pelo sucesso de crítica e público, uma senhora abre espaço, entre tantas pessoas com sua discreta, mas marcante presença. Ela caminha na direção do jovem, abre delicadamente sua mão, entrega um relógio de bolso e diz, quase num sussurro: “Volte para mim!” Alguém pergunta: “Quem é ela?” Richard responde: “Nunca a vi na minha vida”.

“Missão cumprida”, pensa a enigmática senhora. Essa mulher que ainda guarda a singela beleza da jovem atriz que foi, Elise Mckenna (Jane Seymour), espera pelo improvável, ela acredita, não duvida que seu grande, senão maior amor voltará para ela, nem que seja para uma outra forma de existência.

O tempo passa, estamos em 1979, e Richard agora é um importante dramaturgo. Daquele estranho encontro, permaneceu uma certa melancolia, a falta de alguma coisa inexplicável, um resgate desconhecido. Diante de tamanho vazio, chega o dia que ele decide se libertar e seguir rumo a nenhum lugar específico.

Na caminhada, o jovem encontra o Grand Hotel (“Sim, porque não!”). Sem entender a razão que o faz parar exatamente lá, Richard faz sua escolha, seu último destino.

Quem o recebe? Não poderia ser ninguém menos que o velho Arthur, o mesmo garoto que infernizava o pai em 1912. “Já nos conhecemos antes?”, pergunta o simpático velho.

Tudo, para Richard, parecia no mínimo diferente até chegar no “Hall da História” do hotel. Foi lá que, definitivamente, o passado revelou seus primeiros sinais.

A câmera se aproxima, era como se mais alguém estivesse lá, observando, admirando, vivendo a alegria do reencontro: “agora falta pouco, o amor se ocupa do resto”. Richard não resiste a imagem de uma mulher ofuscada pelos raios de sol, guardada, eternizada na moldura de um quadro mágico. O flagrante da felicidade, o brilho dos olhos ao encontrar seu amor.

Quem seria ela? Elise Mckenna: “uma das mais reverenciadas atrizes de seu tempo. Por muitos anos ela foi a campeã de bilheteria do teatro. Sob a tutela do empresário Willian Fawcett Robinson (interpretado pelo magistral Christopher Plummer) – aquele que tudo sabe e prevê acontecimentos -, foi a primeira atriz americana a criar uma mística nos olhos do público. Desaparecida em seus últimos anos e aparentemente sem vida social fora do palco, ela representava a absoluta quintessência da reclusão”.

E nos achados sobre Elise, Richard encontra a última foto da atriz: ele mal podia acreditar, era a mesma senhora que o surpreendeu na noite de estreia de sua peça.

Assim, vem a pergunta: “a viagem no tempo é possível?”.

Eu diria que para aqueles que amam avassaladoramente, não existem impedimentos, tudo vira real, nem que seja nos próprios sonhos, devaneios e alucinações. E Richard ainda descobre que esteve em 1912 como hóspede do Grand Hotel, quarto 416 e registro às 09h18s! Agora ele sabia tudo que precisava para empreender sua viagem no tempo, ele acreditava que seria possível e que lá estaria Elise Mckenna, a sua espera.

Rompendo os limites, Richard viaja no tempo: do presente surge lentamente o passado, a esperança de uma vida já vivida em outros tempos. No lago, ele vê Elise. Ela pergunta: “É você?”

E ao som de Rachmaninoff, da Rapsódia, o encontro acontecia.

Para Elise, o amor é sua razão de vida: “O homem dos meus sonhos está quase desaparecendo agora, aquele que eu criei em minha mente. O tipo de homem com o qual toda mulher sonha lá no fundo e que mais secretamente atinge seu coração. Quase que posso vê-lo agora diante de mim. O que eu diria a ele se ele estivesse realmente aqui? ‘Perdoe-me’. Nunca tinha conhecido este sentimento. Vivi sem ele por toda a minha vida. É de se admirar, então, que tenha falhado em reconhecê-lo? Você o trouxe a mim pela primeira vez. Há algum modo para que eu possa lhe dizer como minha vida mudou? Qualquer modo de fazê-lo saber que doçura você me deu? Há tanto a dizer que não consigo encontrar as palavras, exceto estas: ‘Eu te amo’. E isso eu diria, se ele estivesse aqui”.

“Em algum lugar do passado” conta a história de um amor rasgado, mas acima de tudo, incondicional que sobrevive a distância, ao tempo e as impossibilidades. Um legítimo representante da generosidade do amor.

Quando os amantes acham que tudo já estava perdido, a intimidade acontece. O cabelo cai delicadamente sobre os ombros, um gesto, um carinho, a aproximação, um sinal…um homem e uma mulher, sem reservas, sem limites, e a chama de uma vela que testemunha o encantamento do amor.

Mas, na brincadeira de “nada nos bolsos” surge uma intrusa moeda que o lembra para seu tempo, 1979. Richard retorna, o romance ficou em 1912. Agora é a vez do presente. Ele sabe que precisa voltar, mas as coisas não acontecem assim, o tempo não é generoso.

Resignado, Richard circula pelos mesmos lugares que esteve com Elise. No lago, nada mais que uma lembrança e o retrato, a comprovação de que ela sempre existiu eternizada na moldura de um quadro, a verdadeira imagem do amor.

Socorrido pelo velho Arthur, Richard sorri. As vozes que tentam reanimá-lo, aos poucos, desparecem e ele segue o caminho traçado desde sempre: passado, presente e futuro reunidos na eternidade com Elise, os três tempos do amor, enfim juntos.

Agora posso revelar a outra razão pela minha escolha do filme “Em algum lugar no passado”: homenagear aquele que encantou meus anos de menina/moça, como dizíamos antigamente.

Christopher D’Olier Reeve (1952 – 2004) será para sempre o Super-Homem, o homem que com seu ingênuo e destemido personagem Clark Kent soube tão bem enriquecer a imaginação de tantas crianças e jovens numa série inesquecível.

Que ironia da vida que justamente o “Super-Homem” tenha tido um fim tão triste (após sofrer um grave acidente a cavalo, Reeve ficou tetraplégico vindo a falecer em 10 de outubro de 2004 aos 52 anos).

Para mim, Reeve, de onde estiver, continua a ser, assim como meu amor, homens com o dom de encantar, surpreender e, principalmente, dar o melhor de si para o outro, para os outros.

E que o Dia dos Namorados seja, para você e seu amor, repleto de encantos e encantamentos!

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=gLTnN8I6ebI

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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