Ecléa Bosi, eternamente Emérita

Ecléa Bosi, que partiu para o andar de cima no dia 10 de julho de 2017, está entre aqueles seletos autores cuja obra está consolidada não apenas como referência em sua área de atuação, no caso a Psicologia Social, mas nas Ciências Humanas como um todo.

Paulo de Salles Oliveira*

 

A contribuição da Profa. Ecléa Bosi à Universidade de São Paulo é singular pela originalidade, pela profundidade e pelo brilho, conforme atestam o reconhecimento e a repercussão nacional e internacional que seu nome alcançou. Pierre Bourdieu, o conhecido sociólogo, discutia os textos de Ecléa com seus discípulos na Sorbonne, enquanto Scheibe, nos Estados Unidos, se baseava em Ecléa para construir suas reflexões em Psicologia.

Seu livro, Memória e sociedade: lembranças de velhos, lançado em 1979, atingiu a décima quarta edição no ano de 2008 e passou por várias reimpressões. Eis um trabalho que é teórica e metodologicamente ímpar pela proposição de alternância entre sujeito e objeto de conhecimento e por uma escrita capaz de dar vida à memória de pessoas idosas que reconstituem sua trajetória na cidade de São Paulo, fazendo-nos redescobrir variadas facetas da sociabilidade. Elabora reflexões que, ao mesmo tempo, tanto são rigorosas e densas quanto lavradas em fineza incomum de estilo, sensibilidade e densidade dramática. Ecléa confere à ciência os mais elevados padrões de humanismo e, por isso mesmo, ao mesmo instante em que explica, comove, inaugurando uma Psicologia Social da Emoção, como disse Flávio Rangel.

Muitos foram os críticos consagrados que se renderam às qualidades do texto. Fiquemos, aqui, apenas com alguns nomes entre os mais conhecidos: Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Lourenço Diaféria, Paulo Sérgio Pinheiro, Octavio Ianni, Olgária Matos, João Alexandre Barbosa e Marilena Chaui, entre tantos outros. É, por sinal, de autoria de Marilena Chaui um dos mais belos e profundos balanços críticos da obra de Ecléa, publicado no primeiro número de 2008 da Revista Psicologia-USP. Outro livro de Ecléa Bosi, Cultura de massa e cultura popular: leituras de operárias, foi lançado em 1972 e chegou à 12a edição em 2008.

Além destes, Ecléa lançou em 2003 duas outras publicações: um livro de contos, Velhos amigos e O tempo vivo da memória. Raros são os autores nas humanidades que alcançaram índices tão formidáveis de projeção de sua produção acadêmica e hoje se pode dizer, sem receio de errar, que qualquer estudo que se debruce sobre essa temática, tão bem trabalhada por ela, deve necessariamente ter seus livros como fundamento. Tornaram-se clássicos, conforme a definição de Ítalo Calvino, ou seja, “livros que nunca terminaram de dizer aquilo que tinham para ser dito”.

Foi graças ao empenho e discernimento de Ecléa como pesquisadora que ficamos conhecendo no Brasil autoras como Simone Weil, a filósofa que se tornou operária por convicção e que nos deixou reflexões sensíveis e penetrantes sobre o universo do trabalho, além de ricas anotações metodológicas sobre a atenção ao outro.

Ecléa nos apresentou também à poetisa Rosalía de Castro, da Galiza. Otto Maria Carpeaux, o crítico literário, logo reconheceu a beleza da tradução e também a dificuldade da tarefa, acrescentando que “aqui e lá o ‘galego’ continua ofendido e humilhado”.

Na esteira de Simone e Rosalía, Ecléa sempre foi muito combativa; dentre suas lutas estão as ecológicas, especialmente contra as usinas nucleares. Um dos escritos de Ecléa, chamado “Em defesa da vida”, alerta sobre os efeitos que um acidente que a unidade em Angra dos Reis poderia causar.

A veia combativa de Ecléa pode bem ter sido herdada de sua mãe, dona Ema Strambi Frederico, que, aos 85 anos, aderiu à causa da Anistia Internacional e passou a escrever cartas a ditadores pedindo pela libertação de presos políticos.

Por iniciativa de Ecléa, iniciou-se em 1994 a Universidade Aberta à Terceira Idade, que acolhe pessoas maiores de sessenta anos nos cursos regulares da USP. Concebida de uma forma inteiramente original, a Universidade Aberta não segrega os velhos em turmas específicas, como é comum ocorrer tanto no Brasil como na Europa, mas os recebe nas mesmas classes dos alunos regularmente matriculados. Promove, assim, além da oportunidade de acesso ao conhecimento o ensejo da co-educação de gerações.

Não se pode esquecer, dentre as qualidades da Profa. Ecléa, sua simplicidade. O respeito que tem pelos sujeitos pesquisados – sejam eles os idosos, as operárias ou a gente do povo – é o mesmo que tem por seus colegas e por seus alunos. Dela não se ouve uma palavra de soberba e jamais usa de sua projeção para se sobrepor a seus pares. Pessoas assim elevam a Universidade a seus mais dignos patamares.

Ecléa, diante de sua luminosa trajetória, é quase impossível não reconhecer que a vida nos presenteou por tê-la conhecido e pela possibilidade de conviver a seu lado. É como se nos encontrássemos com Noêmia, a personagem descrita por Cecília Meireles.

Permita-nos, porém, que hoje possamos todos nós oferecer a você nosso reconhecimento e nossa gratidão na forma de um título. Este título não vem de nós; ele vicejou no jardim de sua existência. Você talvez não tenha notado, mas nosso único trabalho hoje foi colher, dos inúmeros feitos de sua vida, um adjetivo. Não se acanhe, portanto, nos seus sentimentos de modéstia, pois a partir de agora você será também – para todos nós – a professora Ecléa emérita.

* Paulo de Salles Oliveira – Professor titular do Departamento de Psicologia Social e do Trabalho, do Instituto de Psicologia da USP. E-mail: psalles@usp.br. Trecho extraído do discurso de saudação, em nome da Congregação do Instituto de Psicologia da USP, por ocasião da solenidade de outorga do título de “Professor Emérito” à Profa. Dra. Ecléa Bosi, em 20/10/2008, publicado na revista Kairós, São Paulo, 11(2), dez. 2008, pp. 249-255.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Nota da redação Portal

Reproduzimos a seguir vídeo que presta uma homenagem à professora, na ocasião dos 23 anos do programa Universidade Aberta à Terceira Idade, realizado em março de 2017, pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária (PRCEU) da USP.

 

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