E você, qual velho quer ser?

Ser velho é continuar voando a cada dia que passa, tomando novos rumos que nos remete a novos lugares, a novas situações, a novas direções. Ser velho é simplesmente continuar vivendo como a criança, como o jovem e como o adulto, como se aquele dia fosse o último, pois há uma única certeza nessa vida: o tempo passa para todos e a morte pode chegar a qualquer momento, não escolhendo gênero, raça, muito menos idade. 

Ana Beatriz de Almeida (*)

“Estamos prestes a entrar em abril, que horror!! Não quero que chegue o dia do meu aniversário, comemorar que estou ficando velha? Não quero nem pensar!” Foi por meio desse acontecimento, o qual vivenciei, que imediatamente pensei: “por que não escrever sobre o medo da velhice?”

“Viver é envelhecer e nada mais”, já dizia Simone de Beauvoir. Essa frase nos remete ao pensamento de que seria simples encarar a velhice, afinal envelhecer faz parte da vida, faz parte do ser, do existir, e é assim que deveríamos olhar o processo de envelhecimento.

Em muitos estudos encontramos o termo gerontofobia, que é utilizado por uma considerável parte dos especialistas e pesquisadores quando querem tratar do medo e rejeição que muitas pessoas têm em relação ao envelhecimento. Esse processo, que para muitos trata-se de algo natural da vida, pode trazer para outros uma angústia, ansiedade, infelicidade e, principalmente, medo das mudanças que a velhice acarreta em nossas vidas.

A pergunta chave para essa questão é: “Por que as pessoas têm medo de ficar velhas?”. E a resposta mais simples seria: “porque elas têm medo de morrer.” Entretanto, há algo que vai muito mais além da morte. Existe por trás desse anseio uma sociedade que acredita que ser velho é algo ruim, que a velhice incapacita, que a velhice é algo a ser temida, na qual o velho é um problema, improdutivo, doente, em que a bruxa má das histórias infantis é uma velhinha feia e maldosa, estigmas estes instalados, sobretudo, na cultura ocidental.

Além desses preconceitos, somos influenciados fortemente por uma mídia que estipula padrões de beleza, na qual a mulher deve ser magra, quadris largos e cintura fina, com um rosto impecável, sem acnes e, com toda certeza, sem rugas! E de repente chega a velhice, trazendo consigo a flacidez da pele, algumas expressões faciais mais marcantes, a pele enrugada. Que horror, não? Isso rompe drasticamente com o padrão de beleza ideal para sermos aceitos na sociedade! “Como posso ser linda como as atrizes de novela desse jeito?”. “Preciso de algumas cirurgias para aparentar menos idade, assim como a Suzana Vieira”.

Portanto, não é somente o medo de morrer, é o medo de ser rejeitado, de ser abandonado, de ser esquecido, de viver sozinho ou não ser aceito pela sociedade porque envelheceu, porque está passando por um momento único e natural da vida… Por meio desses pensamentos e conceitos equivocados, muitos têm dificuldades em compreender, em aceitar e em encarar o processo de envelhecimento, que certamente acontecerá.

Ser velho é continuar voando a cada dia que passa, tomando novos rumos que nos remete a novos lugares, a novas situações, a novas direções. Ser velho é simplesmente continuar vivendo como a criança, como o jovem e como o adulto, como se aquele dia fosse o último, pois há uma única certeza nessa vida: o tempo passa para todos e a morte pode chegar a qualquer momento, não escolhendo gênero, raça, muito menos idade. Dessa forma, estamos envelhecendo a cada segundo que passa, a cada palavra lida deste texto, mas nem todos teremos a sorte de um dia nos tornar velhos.

O segredo, portanto, está na forma pela qual cada um encarará a chegada da velhice, podendo ser recebida de forma leve, natural e, consequentemente, com uma vida plena, ou de forma triste e solitária, que na maioria das vezes tem por trás o “velho ranzinza”, estigmatizado pela sociedade. Mas que na verdade não é bravo ou teimoso apenas por ser um idoso, mas sim porque sempre teve essa personalidade ao longo de sua trajetória. Por isso, é preciso lembrar que a forma que você encara a vida hoje, será aquela que você carregará até o fim.

E você? Qual velho que ser?

(*) Ana Beatriz de Almeida graduou-se em Terapia Ocupacional pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Participou do grupo de estudos e supervisão durante a graduação em Neurologia. Atualmente é mestranda em Gerontologia pela Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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