E eis que surge… um pardal

Heráclito (Fragmento 18), o filósofo pré-socrático, já dizia: “Se não tiveres esperança, não encontrará o inesperado, pois não é encontradiço e não é inacessível.”

 

Como é difícil a relação entre pais e filhos! O vídeo grego “What´s that?” ou “O que é isso?”, direção de Constantin Pilavios (2007) exemplifica a crueza ao mesmo tempo em que lida com a delicadeza das emoções e os inúmeros desencontros de entendimento. Em poucos minutos a história é contada: pai e filho estão sentados num banco, quando, subitamente, um pardal pousa perto deles.

Um filme simples, comovente, que provoca reflexões sobre o sentido das palavras, a tolerância e a difícil compreensão travada nas relações. A pergunta de ontem, a pergunta de hoje – existe diferença entre elas?

Olavo Bilac em seu poema “Velhas Árvores” nos leva a pensar no envelhecimento real, próprio de cada um, expresso numa memória pulsante, viva, atenta e, ao mesmo tempo, acolhedora:

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:
Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

O poeta escreve sobre uma natureza, a mesma desde sempre, aparentemente repetitiva diante dos olhos, mas revelando-se como um pássaro que voa através do tempo trazendo lembranças ressignificadas no seu canto. Ressignificações estas que são aprendidas e geram novos saberes.

Educação, o conhecimento trocado pelo lirismo de um poema, pelas imagens e mensagens de um filme (e não importa o tempo de duração), pela letra e som produzido por uma música ou pelos enigmas das obras de arte. “Educação” ação, reação, interação, movimento que não se restringe ao “eu pergunto, você responde”.

Educar é um caminho de múltiplas direções, algumas vezes, invisível, construído pelos silêncios, pelos olhares que podem ou não estar representados em sílabas, palavras, frases, textos.

Para Mahatma Gandhi, “a verdadeira educação consiste em pôr a descoberto ou fazer atualizar o melhor de uma pessoa. Que livro melhor que o livro da humanidade?”.

Freire (2010, p.119) argumenta sobre a importância da escuta na educação: “Escutar (…) significa a disponibilidade permanente por parte do sujeito que escuta para a abertura à fala do outro, ao gesto do outro, às diferenças do outro”. Estar atento a “vida vivida” da criança, do jovem, do ser na maturidade, na velhice significa escutar também os seus “não-ditos”, traduzir seus silêncios e interpretar os sentimentos pela linguagem do olhar, dos sinais inscritos no corpo.

Esta abordagem nos remete a possibilidade de uma convivência dialógica diferenciada, da abertura ao outro como explicita o autor (2010, p.136): “O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na História”.

É necessário ter consciência de que se constrói um diálogo na compreensão desta inquietação interna que opera silenciosamente, curiosa àquilo que “passeia” diante dos olhos do espírito.

Como afirma Aldous Huxley: “O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura”.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=mNK6h1dfy2o

Referências

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessário à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2010.

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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