A Dor Crônica no portador da Doença de Alzheimer

A dor, além de impactar na qualidade de vida pode levar a limitações importantes que alteram a capacidade funcional do idoso e o quadro se agrava ainda mais se estiver associado a outros diagnósticos. Na Doença de Alzheimer o paciente pode ser incapaz de relatar com clareza seu desconforto, ou até mesmo, ter dificuldade de interpretar os sinais de dor, ocasionando dificuldade no diagnóstico e tratamentos pouco efetivos. 

 

Na primeira consulta de Fisioterapia, uma das primeiras perguntas que faço ao cliente é sobre a presença de dor. Pergunto o histórico completo dessa queixa, a intensidade, a duração, o tipo, que movimentos a pioram, investigo as atividades de vida diária e realizo o mapeamento completo da dor junto com o cliente.

Não são todas as consultas que me permitem fazer uma avaliação tão clara sobre esta queixa. Em unidades de saúde especializadas no atendimento gerontológico é frequente surgir clientes diagnosticados com Doença de Alzheimer (DA) e por isso comparecem em consulta acompanhados por seus cuidadores. Nestes casos, a investigação sobre a presença e impacto da dor na rotina do cliente continuará a fazer parte da avaliação, mas de uma forma muito mais desafiadora. Em estágios iniciais da DA o paciente ainda tem a capacidade de comunicar queixas de dor de forma clara, mas com a evolução da doença essa capacidade, como outras, ficam prejudicadas e neste momento é essencial que familiares, cuidadores e profissionais da saúde fiquem atentos a outro sinais que indiquem que o paciente está com Dor.

Por definição, a Dor Crônica é aquela que advém de processos patológicos crônicos, com duração prolongada (igual ou superior a 6 meses), mas gosto bastante das palavras da autora Maria Margarida Carvalho, em seu livro “Dor, um estudo Multidisciplinar”, que diz que “a Dor é sentida por alguém e este alguém precisa ser compreendido e respeitado na sua realidade e totalidade, para que esta dor possa ser verdadeiramente tratada”.

No envelhecimento, a prevalência de dor é significativa. Alguns estudos mostram que mais de 50% das pessoas maiores de 60 anos apresentam dores crônicas, especialmente as Dores musculoesqueléticas, as quais me atenho neste texto. A dor, além de impactar na qualidade de vida pode levar a limitações importantes que alteram a capacidade funcional do idoso e o quadro se agrava ainda mais se estiver associado a outros diagnósticos, como a DA.

Na DA o paciente pode ser incapaz de relatar com clareza seu desconforto, ou até mesmo, ter dificuldade de interpretar os sinais de dor, ocasionando dificuldade no diagnóstico e tratamentos pouco efetivos.

A dificuldade em relatar a dor não pode ser confundida com “não sentir dor” ou “sentir menos dor”, frases que ouvi algumas vezes de cuidadores e familiares. Erroneamente algumas pessoas acreditam que o paciente demenciado não sente dores como pessoas cognitivamente saudáveis. Acreditam que, se o idoso não exprime adequadamente o que sente (não sabe dizer onde é, ou não consegue mostrar com clareza qual parte do corpo está doendo) não é uma dor real, ou “é coisa da cabeça dele”. Derrubando essa teoria popular, em 2006, pesquisadores australianos avaliaram portadores de Alzheimer pelo exame de Ressonância Magnética e identificaram atividade cerebral relacionada a dor nas mesmas regiões do cérebro que em pessoas sem a Doença de Alzheimer. Ou seja, de acordo com esta pesquisa, o paciente com DA sente dores da mesma maneira que outros pacientes e a diferença está na forma de comunicação e gestão dessa queixa. Então, sim, vamos dar a devida atenção às queixas trazidas por estes pacientes, sejam elas claras ou não.

Em muitos casos, o idoso, antes de apresentar os primeiros sintomas da DA já apresentava queixas de dores por processos crônicos (artrose, por exemplo) e a DA não faz com que esta queixa seja solucionada, apenas faz com que o paciente tenha dificuldade em relatá-la.

Considerando a dificuldade na comunicação da queixa de dor, vamos ficar atentos a alguns sinais de desconforto que o paciente pode emitir, como por exemplo:

Expressões faciais: Observe a expressão facial do idoso ao realizar algum movimento ou ao receber o toque em alguma parte específica do corpo.

Alterações de comportamento: irritabilidade, agressividade, apatia, frustração. Perceba se o idoso está evitando movimentar-se, permanece mais tempo em uma mesma posição e mostra-se irritado ou agitado quando tocado ou mudado de posição (fase mais avançada da DA). Perceba se há emissão de gemidos ao movimento, limitações no movimento, diminuição do apetite, aumento da confusão mental, alterações no sono (dormir muito ou dificuldades para dormir).

É claro que todos estes sintomas podem estar associados a outros problemas de saúde, mas também poderão estar presentes na queixa de dor que deve ser identificada e tratada.

Além do sofrimento gerado, a dor não identificada e não tratada corretamente pode levar a agravos de saúde. Os profissionais especializados possuem instrumentos de avaliação de dor para a população idosa e existem instrumentos específicos para avaliar a população com demência, mas é de fundamental importância que cuidadores e familiares reconheçam o quanto antes a presença de dor para que relatem a queixa em consulta, efetivando o cuidado com o idoso com DA que deve ser feito por toda a rede de apoio: Familiar – cuidador – profissionais de saúde.

Gabriela C. de A. Goldstein

Gabriela C. de A. Goldstein

Fisioterapeuta da Unidade de Referência em Saúde do Idoso PMSP – OS ACSC. Mestre em Ciências pela USP, especialista em Fisiologia e Biomecânica do Aparelho Locomotor pelo IOT- FMUSP e especialista em Gerontologia Social pela PUC-SP.

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