Do que cuidaremos mais: da casa externa ou da casa interna?

Reflexões sobre a longevidade, pois sabemos tanto de tantas doenças, mas continuamos doentes… Sabemos nomear os sentimentos, mas não sabemos lidar com eles…

Marceli Karagulian (*)

 

O processo de envelhecimento é inerente a todo ser humano, não há como fugir dele.  Todos sem exceção em algum período de suas vidas se darão conta que o tempo passou. O senso comum tem mudado ultimamente quando se olha para o próprio envelhecimento; uns se dividem em “o velho é o outro”, outros “eu sou velho mesmo” assumindo uma posição de finitude da vida e outros ainda que assumem sua própria existência como um processo natural que simplesmente se vai vivendo sem muitas preocupações e ocupações;  de uma maneira  simples,  despretensiosa e sem cobranças.

Na verdade a maneira como se viveu quando mais jovem, isto é, com menos idade será a maneira de encarar essa mesma vida. Como ouvi numa fala em algum momento da minha vida: “se você é um jovem idiota, será um velho idiota”. Nessa fala se espera que muitos valores importantes na juventude devam ser mantidos em todo processo de viver ao longo dos anos, e que outros podem ser mudados de acordo com a conveniência ou maturidade.

Maturidade esta que faz um indivíduo pensar num conjunto de éticas e valores, independente da idade que se tem; pensar sobre aquilo que viveu em toda a vida, no sentido de que cada pessoa é diferente e envelhece de maneira diferente.  E esse envelhecer para muitos é algo que se dá totalmente no corpo físico, que já se gastou, se declinou, foi usado e agora não serve para mais nada; cujas emoções, espiritualidade, sexualidade, convivência social, entre outros, não mais podem aparecer, serem vividas e experimentadas; devem ser esquecidas, abandonadas ou na pior das hipóteses demenciadas.

Há uma subjetividade em viver esse processo dito de envelhecimento em que, de alguma forma, querem esquecer sua própria história de vida. Além dos aspectos biológicos nem sempre se relacionarem com o quadro das estruturas psíquicas.

Entretanto, devemos ter um olhar múltiplo sobre a velhice – no sentido de quem viveu mais ao longo dos anos -, não pode ser somente do ponto de vista biológico ou espiritual ou até corporal; deve ser um olhar ativo em questões sociais, econômicas, culturais, afetivas, familiares, políticas públicas, uma série de fatores que podem favorecer e beneficiar essa vivência de “muitos” anos. Não podemos parar no tempo com pré-conceitos quando se confunde seres humanos com coisas; classifica-se velho como coisas descartáveis, pois afinal estamos todos envelhecendo.

Nesse sentido há uma necessidade cultural e até mesmo mundial de descartar preconceitos, ressignificar o conceito, o discurso do que é ser velho. As estatísticas e os dados demográficos estão aí, com letras gigantes, mostrando para toda a humanidade que a expectativa de vida vem aumentando cada vez mais. E se iremos viver mais, há que se pensar como isso se dará, do que cuidaremos mais: da casa externa ou da casa interna?

Algumas colocações de autores ou estudiosos do processo de envelhecimento são amplas e muito subjetivas porque para os humanos é um mistério envelhecer… parece que não se tem nada definido… parece que quem vive envelhecendo não sabe dimensionar a própria vida. Nos questionamos em saber que perdemos, e de perdas significativas no corpo físico, mas, e nas emoções? E nos valores? E na vida que construímos? Perdemos também?

Creio que não… penso que não devemos somente valorizar as perdas do corpo físico,  mas temos que pensar um pouco na experiência única que cada ser humano tem nessa brevidade de vida… sabendo que todos nascemos, vivemos e um dia morreremos… e a maneira como vivemos é a maneira que seremos eternizados. Penso então que será nas lembranças, nos valores, nas tradições, no amor relacional e transgeracional vividos na família que se construiu, na sociedade que se viveu.

E quando se tem velhos que viveram com sabedoria, bom senso, respeito e amor ao próximo fica mais fácil encarar a si mesmo, encarar a longevidade de dias… parece que não sentimos tanto o desamparo.

É como se eles, os velhos, ou nós amanhã, fossem um farol em alto mar quando a noite está escura e estamos numa tempestade. Temos um norte, um porto seguro, uma esperança de que no dia seguinte o sol voltará a brilhar e seguiremos nossos próprios caminhos… é o ciclo da vida!

Em nossos dias sabemos tanto de tantas doenças, para cada parte do nosso corpo há um especialista, mas continuamos doentes… Sabemos nomear os sentimentos, mas não sabemos lidar com eles.

O envelhecimento visto pela ótica da arte

Traçando um paralelo com o texto “Totonha”, de Marcelino Freire (2005), às vezes é mais fácil ficar no esquecimento, é conveniente. Desprezar o conhecimento ou zombar dele. Que não me tirem do meu mundinho, que não nomeiem para mim o que penso ou que sinto; é um não querer participar da sociedade como um todo, é um “só pensar em mim” e não se importar com mais ninguém. Me parece que não é uma maneira sábia de viver uma vida, mas uma escolha de como viver a vida. E para todas nossas sementes haverá uma colheita.

Por outro lado, avaliando o curta do cineasta Ugo Giorgetti chamado “A esperança é a última que morre”,  quando não temos nossos valores definidos, construídos de forma sólida dentro dos laços afetivos da família funcional, permitimos ser levados por modismos visuais da televisão, comerciais, cinema, mídia em geral, modelos distorcidos da realidade, negação do estado real de vida… e nos deprimimos, nos sentimos desamparados.

Assisti alguns filmes como: A grande beleza, Amante em domicílio, Quarteto, Elsa e Fred, Grace e Frankie… todos com histórias sobre personagens velhas que vivem situações inusitadas contendo momentos de tristeza, alegrias, incertezas, solidão, medo etc., ao mesmo tempo momentos de alegria, superação, vivacidade, amizade e amor. Vi personagens com idade avançada, mas vivendo de forma totalmente inconsequente, egoísta, como se tivessem uma idade imatura…

Qual é o equilíbrio disso? Que tipo de velho queremos ser? Quais direitos teremos?

Penso que há muito que se descobrir, muitas perguntas para serem feitas e poucas respostas para nos acalmar.

Devemos refletir nossas práticas, nossa forma de pensar em nossa intersetorialidade de serviços para o outro e para nós mesmos; onde possa existir interação, articulação entre vários saberes, deveres e direitos. Tudo deve ser dinâmico, interativo; um olhar para o todo e ao mesmo tempo individual. Tem de ter autocrítica e dar o primeiro passo para dentro de si mesmo. Não é cada um por si, mas um todo, uma rede psicologizada para a vida longa dar certo. Daquilo que temos é disso que daremos, servindo nosso próximo como a nós mesmos. Isso implica juntar esforços…  pessoas, serviços, políticas públicas, Estado… Enfim, refletir na prática do dia-a-dia.

Referências

A esperança é a última que morre. Direção de Ugo Giorgetti. A esperança é a última que morre. Documentário do filme “As velhices”, de Isa Grinspum Ferraz. 2003. SP.

A Grande Beleza. Direção de Paolo Sorrentino, 2013 no Brasil. Disponível no Netflix.

Amante em Domicílio. Direção de John Turturro, 2014 no Brasil. Disponível no Netflix.

Anne e Frankie. Direção de Scott Winant e Tate Taylor, 2016 no Brasil. Disponível no Netflix.

Beauvoir, S. A Velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.

Elsa e Fred. Direção de  Michael Radford, 2014 no Brasil. Disponível no Netflix.

Goldfarb, D.M.C. Corpo, tempo e envelhecimento. Casa do Psicólogo, SP, 1998.

O Quarteto. Direção de Dustin Hoffman, 2013 no Brasil. Disponível no Netflix.

Marcelino, F. Totonha, Canto XI p.77 – Contos Negreiros. Record 2005. SP.

 (*) Marceli Karagulian. Texto escrito para o Curso Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da COGEAE/PUC-SP, segundo semestre 2016. E-mail: marcelikaragulian@gmail.com.

Imagens: artista Yulia Brodskaya.

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