Do paradoxo das categorias – uma reflexão

As diferentes categorias, ou subcategorias, específicas, podem situar de forma mais adequada à dimensão múltipla que existe no universo do envelhecimento. 

Adriana Matarazzo de Brito*

 

Quando queremos falar sobre pessoas que alcançaram os 60 anos, que no Brasil são classificadas como ‘terceira idade’ ou ‘idoso’, nota-se que, em alguns momentos, podem surgir dúvidas: como deveríamos nos referir a elas?

Muito além das diferentes maneiras de referirmos a elas há uma gama de aspectos que, desde sempre, acompanharam a vida das pessoas que atingem essa marca etária: características adquiridas ao longo vida, a personalidade desenvolvida, os fatos vividos, e como se lidou com eles – traços/características/vivências que foram sendo formados ao longo dos anos.

Esse ‘composto’, formado ao longo da experiência de vida marca um ‘modo de ser’ – uma pessoa que seja mais caseira e se sinta bem só; outra mais expansiva que gosta de ter uma vida social intensa; workaholic ou mais voltada ao lar; praticante de esportes ou sedentária, ou uma mistura, com um pouco de tudo isso, afinal somos muitos!

Se cada um tem particularidades, podemos imaginar que o ideal seria haver classificações e/ou categorizações para nos localizar/identificar. Mas, por outro lado, podemos pensar que se eliminarmos determinadas categorias as generalizações não ficariam amplas demais, eliminando, as ‘particularidades’ próprias a cada um? Imaginamos, como exemplo, diferentes situações:

1- Maria nasceu e se educou em uma determinada cidade do interior e, ao longo da vida, conviveu com pessoas que costumavam referir-se aos conhecidos como: “A Lucia, senhora que costura vestidos, completará 80 anos. Ela se tornou uma idosa com muita autonomia”; ou o “Senhor Francisco, da padaria, mesmo sendo um senhor de 78 anos continua a fazer pães”. Bem, Maria possivelmente irá estranhar se alguém disser: “A Lucia, que costura vestidos, completará 80 anos. Ela se tornou uma velha com muita autonomia”. Uma das particularidades de Maria está no fato dela ter vivido em um local onde o costume era falar de alguém usando antes a palavra “senhora” ou “senhor”, e que quando se referisse a alguém já mais velho, era usado o termo idoso (a).

Mas, em outras ocasiões, se refutarmos determinadas classificações como idoso, por acharmos que é uma palavra carregada de estigmas negativos, será que não estaríamos fazendo suposições sobre este lugar social próprio a cada um?

2 – Pedro, hoje é um septuagenário. Quando mais jovem casou, teve dois filhos, e trabalhou sempre muito interessado e estimulado pelo emprego que tinha. Cultivou um hobbie, teve uma boa vida social e, assim, criou um determinado universo mental ligado à experiência de vida. Hoje aposentado, continua com o seu hobbie, e inclusive tem buscado novos. Mantém uma vida social ativa.

Pedro é diferente de João.

3 – João, de 73, anos, casou e teve dois filhos, mas um emprego pouco estimulante. Porém, sem encontrar outras possiblidades de trabalho ao longo da vida, manteve-se sempre no mesmo lugar, e se dedicou quase que exclusivamente a ele, com poucos interesses fora dessa rotina. Hoje aposentado, com 73 anos, pouco faz no seu dia a dia.

O trecho de Malloy-Diniz, L. F & Fuentes, D. & Cosenza, citado por Neri (2013, p.26), confirma a influência do estilo de vida no envelhecimento:

[…] o declínio em atividades físicas e mentais acarreta doenças físicas e psicológicas e afastamento. Para a manutenção de um autoconceito positivo e a ampliação das possibilidades de adaptação, os idosos devem substituir os papéis sociais perdidos em virtude do envelhecimento por outros. São ideias centrais da teoria da atividade (Havighurst & Albrecht, 1953), que se estabeleceram em complementaridade à teoria do desengajamento (Cummings & Henry, 1961).

Poderíamos dizer: Pedro é um idoso ativo, e João um idoso que tem poucos laços sociais, e que, possivelmente, caminhará progressivamente para o isolamento social. Por que então eliminar as diferenças e as formas de categorizar os diferentes ‘estilos ou modos’ de viver a vida e a velhice? Acreditamos que as ‘categorias’ se fazem necessárias para nos referirmos às características individuais, o mais próximo de suas realidades.

Consideramos, ainda pensando em Pedro: será que ele, pela vivência que teve, olharia para si e se chamaria de ‘idoso’? Possivelmente, por conta dos estigmas que a palavra carrega, seria provável que ele preferisse até mesmo omitir a sua idade. Será necessária uma classificação para entendemos melhor “quem é Pedro” – uma pessoa bastante ativa e já idosa – mas qual seria ela? Pela ‘regra’, seria “idoso ativo”, mas, pelas suas particularidades pessoais, talvez a categoria fosse: ‘Pedro, é uma pessoa acima dos 70 anos de idade e ativo’ ou então ‘Pedro, uma pessoa 70+ ativa’.

Entretanto, pode ser que esta suposição – da categoria mais apropriada ser algo como: “Pedro, uma pessoa 70+ ativa” esteja completamente errada, isto é: de repente Pedro tenha orgulho de falar que é um “idoso ativo” – já completou 70 anos – e mesmo com a idade leva uma vida que o alimenta e mantém o seu bem-estar. Já João, talvez pelo ‘peso’ de ter ficado ‘preso’ a um trabalho tedioso, com poucos estímulos, dificilmente veria diferença entre as denominações: “idoso” e “uma pessoa 60+”, e não se importaria em ser chamado de “idoso” – como se fosse algo que denotasse demérito.

Acreditamos que, sempre que possível, ao nos referirmos às pessoas idosas devemos usar os termos mais de acordo com a realidade de cada uma, mas, mesmo assim, não ocorreríamos em um julgamento descompassado entre o que acreditamos ser adequado e como o próprio idoso se reconhece?

Pensando nas inúmeras classificações que surgem para as pessoas que completam 60 anos, quando nos depararmos com denominações como “melhor idade” ou “idade de ouro” – que pretendem dar uma conotação altamente positiva para a idade – podemos questionar também esta categorização, a fim de não criar um paradigma simplista de uma vida bela – afinal, a vida das pessoas certamente terá de tudo: coisas boas e coisas duras. Denominações como estas reduzem todo um universo de sutilezas a algo com um passe mágica: ao completar 60 anos a vida passa a ser ótima, são eliminadas as dificuldades ou tristeza, chega-se a “idade de ouro”. Novamente vale a observação-ressalva: certamente algumas pessoas, em determinadas circunstâncias, poderão se reconhecer como na “idade de ouro”, mas não se pode generalizar.

Diante das grandes diferenças na forma como se envelhece, é importante termos claro as distinções sócio econômicas que impactam este ‘modo’ próprio de envelhecer. Afirma Neri (2013, p. 39) que:

Pobreza, isolamento social e discriminação por idade expõem os idosos a situações estressantes. No Brasil, tais situações são representadas por problemas de moradia, transporte e segurança, que podem ser vividos como aborrecimentos constantes, mas que também têm grandes chances de serem vividos como eventos inesperados e incontroláveis. Nesses casos, a perplexidade e o sofrimento psíquico dos idosos tendem a ser enormes e podem potencializar os efeitos de doenças crônicas, dor, incapacidades e depressão.

Devemos estar atentos às diferenças no envelhecer, levando em consideração muitos fatores: o idoso que trabalha e tem situação econômica estável; aquele que não trabalha, e precisa da ajuda financeira dos filhos; os que, apesar de trabalharem, não ganham o suficiente para sua subsistência; o grau de escolaridade; se vivem no campo ou na cidade; e, importante, a qualidade de saúde e acesso aos cuidados, entre outras. Assim, evidencia-se que a experiência de envelhecer será diferente de acordo com a realidade vivida.

Consideramos que as diferentes categorias, ou subcategorias, específicas, podem situar de forma mais adequada à dimensão múltipla que existe no universo do envelhecimento. Seria uma forma de fazer com que a ‘velhice’ deixasse de ser vista como exclusiva e homogênea, e que a categorização aberta, desde as conversas informais até sua expressão social e midiática, e abrisse caminhos para mostrar à sociedade as diferenças que existem no processo de envelhecer.

Referências

Neri, A. L. “Conceitos e teorias sobre o envelhecimento”. In Malloy-Diniz, L. F & Fuentes, D. & Cosenza, D. (Org.), Neuropsicologia do envelhecimento – uma abordagem multidimensional. p. 26. Porto Alegre, Artmed, 2013.

 

Adriana Matarazzo de Brito -Trabalho apresentado no Curso de Extensão chamado Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento, da Pontifícia  Universidade Católica de São Paulo, no primeiro semestre de 2017. E-mail: dribri@hotmail.com

 

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