Divórcio na velhice: a quebra de algo que parecia “pronto”

Na série Grace and Frankie, Cronos, “o tempo do relógio”, revela-se  pelo “peso da idade”: “estou muito velha para namorar”.  Ao mesmo tempo Kairós, o tempo vivido, imprime a força, o movimento, a disposição para o recomeçar:  “vamos fazer o melhor deste restante das nossas vidas”. Mulheres que envelheceram com seus conflitos, inseguranças, curiosidades e vontade de viver.

Cynthia Nunes de Almeida Prado* e Ruth Gelehrter da Costa Lopes

Esta breve reflexão tem por finalidade tratar do tema divórcio na velhice, articulando com trechos do texto “Finitude: viver no pesadelo do Cronos ou escolher a benção do kairós?” (Pessini, 2006) e a série americana “Grace and Frankie” (Direção: Tate Taylor e Scott Winant).

A ideia aqui é tratar de questões como a solidão e a insegurança do ser humano, ou seja, a ilusão do “não vou morrer sozinho”. Isto porque se costuma pensar que o casamento na velhice seria algo “pronto” e imutável, quer dizer: se até agora não nos divorciamos, não será agora que o rompimento acontecerá, ainda mais nessa fase da vida.

Essa compreensão traz a noção do cuidado de si e para/com o outro. Pessini (2006, p. 70) diz que “[…] cuidar é um desafio que une competência técnico-científica e ternura humana, sem esquecer que a ‘chave para se morrer bem está no bem viver’”.

De repente nos vemos diante da difícil tarefa do cuidar de si e do outro (que pode ser, poucas vezes boa, ou enormemente ruim, ou talvez, as duas ao mesmo tempo) e, ainda, com a terrível perspectiva da finitude diante de nós.  Em casamentos de longa data, como é o caso das respectivas uniões vividas pelas personagens Grace e Frankie (interpretadas por Jane Fonda e Lily Tomlin), havia um parceiro que poderia, em alguma medida, “auxiliar” nesse cuidado. Com a separação, a princípio inesperada, a quebra do estado vivido até então, muitas vezes leva ao luto, acompanhado da agústia de se ver ainda mais só diante da ideia de “fim de linha”.

Na série, as duas mulheres, casadas há 40 anos, são “abandonadas” por seus maridos. Eles pedem o divórcio para se casarem um com o outro, assumindo a homossexualidade. Grace e Frankie são forçadas a viverem juntas, formando assim uma excêntrica amizade. Analisando o modo de vida dos dois casais, vemos que Grace e Robert parecem ter um relacionamento por conveniência, por ser “algo que faz parte da vida” (palavras de Grace), já Frankie possui uma relação de profundo companheirismo com Sol, o que torna a vivência do luto triste e difícil de ser “digerida”.

A série retrata a vida dessas mulheres após a separação, mostrando as dores e alegrias vividas, perdas e ganhos a serem experienciados na maturidade.

Cronos, “o tempo do relógio”, revela-se pelo “peso da idade”: “estou muito velha para namorar”.  Ao mesmo tempo Kairós, o tempo vivido, imprime a força, o movimento, a disposição para o recomeçar:  “vamos fazer o melhor deste restante das nossas vidas”.

Pessini (2006, p. 66-70) lembra que “Cronos é o tempo das batidas do relógio, a marca implacável da finitude e temporalidade humanas no processo de envelhevelhecimento do nosso corpo. […] Nesta dimensão do tempo, lutamos contra, sentimo-nos facilmente vítimas dele, pois em geral chegamos sempre atrasados e o tratamos como se fosse inimigo”. Em contrapartida, Kairós seria “o tempo das batidas do coração. Na perspectiva de Kairós, temos como tarefa amar a vida pelo tempo, seja o ser ainda sem as marcas do tempo, como o caso do bebê ainda em gestação, o tempo do adolescente rebelde, o tempo do jovem idealista, o tempo do adulto responsável, e por que não o tempo da velhice”.

Grace e Frankie, após o processo de luto, não deixam de viver a vida por Kairós: conhecem novos lugares, reveem antigas amizades e amores, além do extremo companheirismo. Não obstante, não deixam de levar em conta a realidade imposta por Cronos. Com a convivência, elas percebem que não estão sozinhas, se uniram nas perdas e, o que antes era uma relação difícil, torna-se uma grande amizade.

A série fala um pouco sobre os sentimentos de pessoas mais velhas que, inesperadamente, se veem sozinhas, sem o companheiro de anos, e ainda tem de enfrentar a complexa tarefa de pensar um novo modo de vida na velhice. Vemos que o partilhar da vida oferece possibilidades, mesmo quando as diferenças estão presentes.

Grace e Frankie se tornam companheiras para o que der e vier, amigas de coração, vivem uma relação de profundo afeto e respeito. Mulheres, simplesmente seres humanos que envelheceram com seus conflitos, inseguranças, curiosidades e vontade de viver.

Referências 

PESSINI, L. (2006).  Finitude: viver no pesadelo do Cronos ou escolher a benção do Kairós? In: Velhices, reflexões contemporâneas. São Paulo: SESC: PUC, 2006.

Trailer de Grace and Frankie: https://www.youtube.com/watch?v=CDv6PRi1SgQ

* Cynthia Nunes de Almeida Prado – Aluna do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. Profa. Dra. do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia e do Curso de Psicologia, FACHS.

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

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