Dalí e Gala, que o amor possa ser velho

E se a velhice é uma construção de afetos, os velhos amores também precisam ser construídos. Dalí amou Gala. Amaram-se segundo suas próprias regras. Amaram-se até o final da vida um amor capaz de ultrapassar a existência.

 

Da janela avista-se uma  igrejinha cujo badalar dos sinos causa comoção, já que memórias afetivas remetem a um tempo onde as torres do campus de uma universidade “dim dom lavam” diretamente nos corações. Naquela época, tudo era mágico e o amor verdadeiro passava a ser construído em minha vida.

A juventude pulsava inquieta e as incertezas eram tantas que dificultavam a percepção do caminho. Confesso que nem sabia muito bem o que queria  e  muito menos a direção que tomava como rumo, mas algo dizia que era preciso caminhar. Ali adiante encontraria um futuro cheio de arte, afeto e velhos a quem eu dedicaria meu tempo e o meu pensar.

Mesmo sem saber para onde, meus passos eram firmes e as pegadas eram cravadas no chão ao som dos sinos que cantarolavam com emoção a minha existência. Foi uma bonita época vivida em uma das cidades mais encantadoras que já conheci. Ithaca fica ao Norte do Estado de Nova York e a Universidade de Cornell assemelha-se a um verdadeiro sonho. Foi lá que, em meio a bosques e cachoeiras comecei a construir o amor que desejo para a velhice.

E se a velhice é uma construção de afetos, os velhos amores também precisam ser construídos. Ao olharmos para trás, percebemos nossas próprias pegadas misturadas em outras  e passamos então a não mais diferenciar qual é a nossa e qual é a do outro. Algo me faz crer que os amores dos velhos sejam os mais profundos já que carregam as construções de afetos de toda uma vida de parceria. Se não for assim, não é amor, penso eu.

Os dias têm sido difíceis, já que a vida resolveu agir pela tangente dando uma rasteira nos planos que tínhamos para esses dias. Nada sério o suficiente para descabelar a nossa alma, mas o desconforto causado pelas dores das pedras do caminho que reverberam no teu rim mostra o quanto nossos percursos estão entrelaçados.

Da janela avisto a igreja e meus ouvidos deliciam-se ao som do badalar enquanto aqui de dentro do quarto do hospital percebo que na dor do outro percebemos a si. São nos momentos como este que os caminhos desenham pegadas, tão intercaladas, que se faz evidente a união dos passos.

A vida nos transforma a cada instante, modifica os corpos, prateia os cabelos e também a tua barba enquanto intensifica os sentimentos que envolvem toda e qualquer relação.

Portanto, faz-se urgente cultivar relacionamentos positivos que aumentem nossa potência de amar e ser feliz. Investir apenas no que vale a pena e descartar o que nos condena a mesquinharia de afetos seria a condição sine qua non da nossa existência.

Na Arte, Dalí amou Gala e Gala amou Dalí.

Salvador Dalí, pintor catalão que se tornou conhecido por seu talento, excentricidade e estranheza vivia de forma teatral e tudo parecia fazer parte de um script.

Participou do movimento surrealista artístico e literário nascido em Paris na década de 20. O surrealismo era fortemente influenciado pelas teorias do psicólogo Sigmund Freud (1856-1939) que mostrava ao mundo racional a influência do inconsciente no viver humano.

Na arte o irreal ganha força e a ditadura da razão passa a ser fortemente questionada pelos surrealistas. O sonho libertaria o homem deste mundo tolhido pela ordem da sapiência. Muito mais do que um simples movimento estético, o surrealismo apresentava uma nova maneira de se enxergar o mundo.

Dali, com seus bigodes chamativos, era a cara do movimento que levou o mundo onírico para as artes. Seu amor por Gala foi retratado em inúmeros quadros do pintor que fez dela sua musa.

A beleza madura de Gala, 10 anos mais velha do que Dalí, encantava o mundo através da obra do artista espanhol. Uma relação de amor que transcende a vida e vai ao encontro da arte. Os dois tinham um forte amor construído nas suas peculiaridades e a evidência desta relação é facilmente percebida ao olharmos Gala retratada surrealisticamente em diversas situações. Amor é amor e quando construído ao longo da vida mostra a velhice como o ápice do sentimento.

Velhos que não se largam, velhos que se amam sem as interferências do corpo jovem. Velhos com um mesmo caminho onde as pegadas ali cravadas tornaram-se únicas. A nós, cabem as escolhas. Alguns velhos se maltratam enquanto remoem as mágoas de uma vida pautada em um falso amor. Velhos que se aturam por não terem sido capazes de vivenciar o lado saudável de amar. Sim. As escolhas são nossas e o tipo de sentimento que alimentaremos ao longo da vida, somos nós que abraçamos.

Gala, da sua maneira, amou Dalí. Dalí com sua loucura amou Gala. Dizia sentir-se curado através deste amor que ultrapassava os métodos psicanalíticos. Amaram-se segundo suas próprias regras. Amaram-se até o final da vida um amor capaz de ultrapassar a existência.

Daqui deste quarto escuto o som que embala alegremente minhas esperanças: Ser velha com um amor velho. Encontrar a cura para os males da vida no amor que cultivamos. Esperanças renovadas a cada tocar do sino.

Suas pedras também são minhas. Existe existência sem pedras? Questiono ingenuamente.

Seis da tarde. Os sinos tocam. Os remédios tentam acalmar a dor. Blém, blém, blém. Olho pela janela e vejo muita vida lá fora. Blém, blém, blém, os sons dos sinos ecoam pelo quarto. Um casal apaixonado passeia de mãos dadas. O amor está em constante construção. A vida está lá fora nos esperando para ser vivida. Amanhã será um novo outro dia e certamente, os sinos voltarão a tocar.

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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