Conversando sobre Odontogeriatria

conversando-sobre-odontogeriatria-fotodestaqueO Prof. Dr. Fernando Luiz Brunetti Montenegro (São Paulo, SP), em entrevista à estudante Jessyca dos Santos Ferreira Freitas, aconselha o seguinte: “Tentem ser Dentistas Generalistas pelos próximos 4 a 5 anos, para só depois buscarem uma área de especialização: recém-formado é muito cedo para você se focar só numa área: ame sua profissão inteira agora….ela é linda! E esqueçam ganhos altos, faturamentos estratosféricos, marketing pesado e ascensão social rápida: esses anos iniciais devem ser de aprendizado intenso.

Jessyca dos Santos Ferreira Freitas *

Por que escolheu esta área?

Foi uma tendência natural, pois sempre militei na área de Prótese Dentária, que os idosos sempre utilizaram.

Quanto tempo está nessa área?

Desde 1995, especificamente atendendo e publicando em Odontogeriatria, mas desde 1977 nas diversas áreas da Prótese Dentária e Prevenção do paciente reabilitado bucal.

O senhor acredita que mudanças se fazem necessárias para a evolução da profissão e dos profissionais? Quais seriam essas mudanças e quais as dicas para que elas possam se realizar?

Sim, Especialmente numa área técnica como a Odontologia é preciso manter atualização constante com cursos externos, estágios e frequência constante aos Congressos. Assim, é natural o profissional mudar conceitos e técnicas com o passar do tempo e, com certeza, terá de se adaptar a novos tempos até sua aposentadoria que, pela situação do país, vai ser cada dia mais tarde…

Quais são os casos mais frequentes na Odontogeriatria?

Os mais frequentes são os problemas periodontais, depois as cáries e na 3ª idade um excelente domínio de conhecimento de lesões bucais (Semiologia/Diagnóstico bucal) é vital e, claro, saber realizar bem as próteses dentarias de todos os tipos, bem como dominar os múltiplos aspectos da implantodontia.

Qual é o perfil de um odontogeriatra?

Deve ser uma pessoa profundamente preocupada em estudar a profissão como um todo, e as diversas implicações na saúde geral dos idosos (e vice-versa), e ver o ser humano por trás de seu paciente, pois o meio em que ele vive vai, certamente, influenciar no sucesso odontológico do caso que vier a tratar.

Qual a dificuldade de se trabalhar com idosos?

Só existem problemas para os que não se aprofundam no conhecimento das características desta faixa etária. São pessoas muito afáveis, mas conhecedoras de suas bocas, que não “compram gato por lebre” ou aceitam “enrolações” por parte dos profissionais. Querem e precisam participar das decisões sobre seus casos, não podem ser infantilizadas. Quando reclamam de algum incômodo com os tratamentos realizados, nossa primeira atitude – e por quantas sessões forem necessárias até a remissão completa dos sintomas apresentados – deve ser de ouvir e buscar solucionar, pois nossos trabalhos estão incomodando e isto exige intervenção nos primeiros retornos, certamente!

Os tratamentos radicais do passado acabam trazendo reflexos hoje, quando os pacientes estão idosos e mais precisariam de seus dentes na condição mais adequada possível?

Sim, você tem razão. O excesso de extrações e o quase zero de medidas preventivas das décadas passadas criaram as dificuldades reabilitadoras do presente. Mas uma nova safra de adultos de meia idade bem informados e conscientes, preventivamente, está sendo formada, e em poucas décadas essas bocas mutiladas, que ainda encontramos, tenderão a acabar. Cada vez mais e mais encontraremos pacientes bem dentados, criando outra perspectiva para a Odontogeriatria, considerando que vários conceitos básicos ainda nortearão o atendimento de idosos.

O que pode ser feito para melhorar a qualidade da saúde bucal e da mastigação na terceira idade? Falo de mastigação porque a musculatura não é a mesma, correto?

A musculatura pode não ter a mesma tonicidade e eficiência em quem extraiu seus dentes quando era jovem, e nunca mais foi ao dentista recuperar sua dimensão vertical alterada pelo desgaste dos dentes artificiais e da reabsorção dos rebordos ao longo dos anos. A musculatura também não sendo bem estimulada, por uma dieta que exija boa ponta das cúspides dos dentes e músculos eficientes, cria uma alteração até na deglutição dos alimentos, no dia-a-dia nestes idosos, mas tudo pode ser revertido quando bons princípios reabilitadores e de manutenção dos casos são instituídos. A idade per si, em pacientes dentados, não causaria grandes problemas na musculatura facial. Uma musculatura excessivamente flácida vai gerar grandes problemas de deglutição especialmente nos pacientes acamado-restritos ao leito, especialmente se usuários de próteses totais.

A escovação é diferente para os idosos?

Como há uma retração fisiológica, mas não patológica, que não vai comprometer a estabilidade dos dentes, do sistema periodontal de suporte e gengival, com o passar dos anos, aumentam a coroa clinica dos dentes e as ameias, ou seja, o espaço entre os dentes, assim a indicação de escovas interdentais e de escovação diferenciada e adaptada a cada caso clínico tem de ser estabelecida. É sim diferente da escovação que ele fazia desde criança, totalmente individualizada, na busca na maior eficiência de remoção de restos da alimentação, pois se ocorrer uma diminuição do fluxo salivar – muito comum pelo aumento do número de medicamentos ingeridos nessa faixa etária – com certeza mais restos ficarão retidos nos dentes e entre eles, bem como na porção posterior da língua, levando ao mau hálito, que nos obriga ao uso de um limpador de língua adequado à sua boca.

conversando-sobre-odontogeriatriaQuais as indicações dos implantes para os idosos?

Os idosos podem se beneficiar muito com os implantes desde a meia idade em uma grande variedade reabilitadora de situações clínicas – um só dente perdido apenas a dois arcos totalmente edêntulos – mas, além dos custos envolvidos, o grande problema é que doenças de longa duração podem comprometer a realização da fase cirúrgica dos implantes a saber: diabetes descompensadas; hipertensões não tratadas ou estabilizadas; problemas cardíacos e circulatórios, que obrigam a uso continuo de anticoagulantes; discrasias sanguíneas desconhecidas, ou pouco salientadas por seus médicos ou em exames laboratoriais; ter se submetido recentemente a terapias anticancerígenas na região de cabeça e pescoço, e os medicamentos que vem ingerindo para controlar essa doença; uma sensível diminuição do fluxo salivar não compensada clinicamente antes da instalação dos implantes, e uma serie de condições de saúde geral que impedem a fase cirúrgica dos implantes ser bem sucedida, como o ato de fumar, a não cooperação preventiva do paciente, levando a qualquer procedimento restaurador se perder em breve tempo na boca.

Nos dias atuais a vaidade dos idosos está em alta, o senhor aconselharia o tratamento ortodôntico?

O tratamento ortodôntico na 3ª Idade deve ter claros motivos de melhor distribuição das forças oclusais incidentes sobre os dentes remanescentes. Mais do que outras épocas da vida, o paciente idoso é mais propenso a um acumulo de placa e problemas periodontais, se não se higieniza bucalmente de forma eficiente. Como os tratamentos ortodônticos em adultos (e em idosos) duram vários anos, sem uma estrita cooperação preventiva dos pacientes, os dispositivos ortodônticos se tornarão com o passar dos meses /anos um agente efetivo de acúmulo maior de placa bacteriana e a posterior perda óssea, o quê acabaria por condenar muito dos dentes que iam ser reorganizados. Ortodontia/Ortopedia funcional só por vaidade, nem nos idosos e nem em qualquer idade. Mudar dentes de posição e fazê-los morder adequadamente é uma ciência muito séria e que exige anos de dedicação dos profissionais na sua aplicação clínica.

Finalizando Dr. Fernando, dê um conselho para os futuros profissionais dentistas, independente da especialização que quisessem fazer.

Estudem agora e sempre! A odontologia é uma profissão em constantes mudanças e vocês precisam estar atualizados, daí a importância de frequentarem Congressos Odontológicos sua vida profissional inteira. Aproveitem seus professores de Graduação ao máximo durante o curso, e nos horários sem aula visite clínicas de outros anos, frequente programas extramuros e/ou sociais com sua Escola. Olhe, tente entender o quê está ocorrendo clinicamente naquele caso e depois pergunte aos seus professores. Não se esqueça de que depois de formado, você poderá não ter com quem sanar suas dúvidas! Depois de formado faça cursos com professores de outras escolas, para conhecer outros modos de resolver os casos, ampliando assim seu conhecimento e seu “jogo de cintura” na solução dos problemas clínicos, que serão muitos, pois teremos de trabalhar muito mais até nos aposentarmos…

Tentem ser Dentistas Generalistas pelos próximos 4 a 5 anos, para só depois buscarem uma área de especialização: recém-formado é muito cedo para você se focar só numa área: ame sua profissão inteira agora….ela é linda! E esqueçam ganhos altos, faturamentos estratosféricos, marketing pesado e ascensão social rápida: esses anos iniciais devem ser de aprendizado intenso, e depois vocês pensam em outras coisas…Se elas ainda forem importantes quando estiverem mais velhos…

Leituras sugeridas
BRUNETTI, RF; MONTENEGRO FLB. Odontogeriatria – Noções de interesse clínico. SãoPaulo: Ed.Artes Médicas, 2002, 481 p.
MONTENEGRO FLB; MARCHINI L. Odontogeriatria: uma visão gerontológica. Rio de Janeiro: Ed. Elsevier, 2013, 360 p.

* estudante da Universidade Brás Cubas, Mogi das Cruzes, SP. A entrevista (em 01 de outubro de 2015) fez parte de seu TCC.

 

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