Considerações sobre uma nova experiência: depoimento

A juventude também esteve presente na convivência com meus 5 filhos, me orgulho de vê-los “cidadãos do mundo” com seus cabelos brancos. Meus 7 netos são um capítulo à parte na velhice, pois testemunhas vivas da passagem do tempo são também exemplos das mudanças inexoráveis e cada vez mais aceleradas.

Por Célia Morato Gagliardi (*)

 

Introdução

Resolvi, aos 80 anos, fazer o curso de curta duração “Fragilidades da Velhice: Gerontologia Social e Atendimento”, da PUC-SP. O passar dos anos tem sido para mim um experiência incrível, cheia de vida e de novos ensinamentos.

O Curso proporcionou aulas muito boas, com excelentes professores que me ajudaram a entender melhor as necessidades possibilidades da velhice, para torná-la bem vivida.

Devido a minha idade alguns assuntos “vivi intensamente” chegando a se tornar “parede” difícil de transpor. Mas acho que dei conta! Sobrevivi com vontade de compartilhar novos estudos e novos projetos. Foi gratificante ver colegas denunciando, trabalhando e/ou interessados em políticas públicas tão necessárias, para um envelhecimento digno especialmente para os mais necessitados.

Dos 60 aos 70 anos

Lecionei História durante 30 anos. Na maior parte deste período estive em Escola Pública, minha primeira opção como educadora, mas também em outras instituições. Sempre estudei muito, seja em cursos de pós-graduação, ou em grupos específicos para o ensino. Infelizmente convivi todos esses anos com o descaso do governo com os alunos e com a formação continuada dos professores.

Em vista disso procurei atuar junto à APEOESP na luta dos sindicalistas. Não era, e não é possível uma boa Escola Pública com Governos que desprezam a real situação dos professores e demais funcionários da Educação. As inúmeras greves foram testemunhas desta interminável luta. Foram jornadas difíceis, mas necessárias na procura de soluções para uma Educação democrática, portanto aberta a todos com iguais possibilidades de acesso e permanência. A luta política também estava presente exigindo o fim da ditadura militar. Que beleza, entre outros momentos, foi a Campanha pelas “Diretas-Já” de 1984. Ruas e Praças transbordaram de gente num momento quase mágico de suprapartidarismo.

Aos 60 anos me aposentei com um salário indigno, mas trazendo comigo a enorme alegria e satisfação do contato de tantos anos com jovens. Queria muito um Brasil melhor para eles!

A juventude também esteve presente na convivência com meus 5 (cinco) filhos. Foram anos de acertos e de conflito com os novos valores da sociedade, muitos dos quais bem diferentes daqueles em que fui educadora. Hoje me orgulho de vê-los “cidadãos do mundo” com seus cabelos brancos e seus filhos. Meus 7 (sete) netos são um capítulo à parte na velhice, pois testemunhas vivas da passagem do tempo são também exemplos das mudanças inexoráveis e cada vez mais aceleradas.

Foi uma dor imensa perder uma filha com 50 (cinquenta) anos, vítima de câncer uma vez diagnosticado a levou à morte em 45 (quarenta e cinco) dias de grande sofrimento. Eu que lhe dei à luz também acompanhei seu último suspiro com todo carinho que pude lhe dar.

A aposentadoria sempre foi algo perdido no tempo e imaginava que nunca chegaria. O importante era trabalhar, mas com o passar dos anos a energia foi diminuindo e o cansaço aparecendo. Chegou a hora de parar e renovar forças para outras atividades.

Logo iniciei trabalho voluntário junto às empregadas domésticas e ao ensino noturno para trabalhadores. Também participei da formação de um grupo de Terceira Idade na Igreja Nossa Senhora Aparecida de Moema. Junto com uma amiga fui coordenadora durante 11 (onze) anos. Este grupo se reúne até hoje contando com número significativo de associadas. Há 1 (um) ano não sou mais coordenadora. Deixá-lo foi uma decisão sofrida, mas também uma libertação da imobilidade e conservadorismo. Foi difícil trabalhar com velhos! Mas devo registrar a alegria das nossas amizades que o grupo me proporcionou, muitas das quais são exemplos de velhice participativa em movimentos sociais.

Também foi difícil trabalhar com determinados representantes da Igreja católica que nos “expulsou” das atividades que desenvolvíamos. Até o local das reuniões foi confiscado e hoje o grupo aluga outro espaço.

O aumento da expectativa de vida no Brasil tem incentivado a criação de grupos de velhos e/ou idosos. Há atividades interessantes, mas faltam avaliações, mudanças e projeções futuras.

Quero continuar a trabalhar com velho aberto às mudanças propostas pela sociedade atual, onde a cultura e a política estejam presentes. A busca da felicidade é fundamental não estagnando no passado, mas procurando novos ensinamentos num mundo em constantes transformações.

Dos 70 aos 80 anos

Minha vida continuou com diversas atividades e foram anos como cuidadora de meu marido, acometido por várias doenças.

Estive seis anos e meio prazerosamente ao seu lado, mas ao mesmo tempo brigando com a chegada da morte que já havia levado recentemente minha filha. As limitações das doenças, os hospitais, os enfermeiros em casa, o andador, a cadeira de rodas, a bengala, as visitas contínuas a médicos, não impediram bons momentos em viagens, passeios e encontros familiares, com parentes e amigos. Mas não posso negar que também havia momentos difíceis. Meu marido sempre foi alegre e carinhoso. Amamo-nos muito.

Durante os anos de cuidadora precisava de momentos “meus” aqui em casa. Encontrei esses momentos escutando muita música. Não era somente a música que eu necessitava, mas, sobretudo, a interação com a plateia onde havia pessoas alegres, sorrindo, cantando, dançando, se abraçando, se beijando. Eram ótimos momentos.

Também devo lembrar que sempre tive ajuda de bons médicos, presentes nas minhas necessidades físicas e psíquicas.

Após o ritual da morte vem o luto. Não dá para negá-lo. Até a duração de 1 (um) ano tem sentido, pois é o tempo da passagem das datas mais significativas. Também foi difícil para eu aceitar a sensação de “alívio” pela morte de pessoa tão querida, mas o seu sofrimento era cada vez mais insuportável.

E o que ficou? Estavam enraizados momentos de felicidade e de dedicação muito profundos. Esses momentos me levaram a uma disposição de continuar vivendo e aproveitando os momentos incríveis que a vida proporciona até a morte: última aventura que embora enigmática, chega a todos.

 

(*) Celia Morato Gagliardi – Historiadora. Depoimento apresentado no Curso de Extensão “Fragilidades na Velhice: Gerontologia Social e Atendimento”, realizado no primeiro semestre de 2017. E-mail: celiamgagliardi@gmail.com

 

 

 

 

 

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