Cinema para se morar de bem com a vida

Como o cinema é o que mais se aproxima da experiência humana, buscamos, aqui, ver o que ele tem a nos dizer sobre o morar na velhice. Selecionamos alguns filmes que apresentam essa temática e que nos ajudam a refletir sobre o morar nessa etapa da vida.

 

O cinema não é só entretenimento. Cada vez mais ele vem sendo um ótimo recurso de diversas aprendizagens ao longo da vida por ser facilitador da produção de significados e ampliar a nossa visão sobre a realidade. Trata-se de uma “ferramenta” de análise de situações da vida cotidiana uma vez que os filmes podem auxiliar na compreensão de diferentes experiências vitais, alertando sobre diferentes aspectos da vida que envolvem a nossa existência cada vez mais alargada. Como o cinema é o que mais se aproxima da experiência humana, buscamos, aqui, ver o que ele tem a nos dizer sobre o morar na velhice. Selecionamos alguns filmes que apresentam essa temática e que nos ajudam a refletir sobre o morar nessa etapa da vida.

O que podemos aprender com o filme Aquarius (direção de Kleber Mendonça Filho, 2016)? Primeiro, que projetos de vida estão em jogo o tempo todo por causa da especulação imobiliária que, assim como esta aniquila a história de uma cidade, pode destruir sonhos e memórias de toda uma vida e de muita gente. O filme, que se inicia com uma canção de Taiguara que diz: “Hoje / Trago em meu corpo as marcas do meu tempo / Meu desespero a vida num momento / A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo […]”, chama a atenção dos telespectadores para a preservação da memória arquitetônica da cidade, através da atuação de Sonia Braga, já envelhecida que, ao contrário do que se imagina, mostra uma velhice plena de sentidos, desejos e ativa. Afinal, ela lutou muito para que ao final de sua vida pudesse desfrutar de uma qualidade de vida em seu apartamento frente à praia e que de repente se vê em perigo pela ganância de uns poucos que querem que seu imóvel gere lucros construindo em seu lugar um conjunto de condomínios.

O morar também aparece em Up! Altas aventuras (direção de Peter Docter, 2009), filme de animação, quando o protagonista, um septuagenário, depois de ficar viúvo, revoltado com a decisão de tirá-lo a força do local por considerá-lo uma ameaça a morar só em uma casa que amou por toda a vida, e que estava prestes a ser demolida e ele institucionalizado, decide usar montes de balões para que sua casa levante voo. Além do filme mostrar como é possível apreender novos jeitos de viver a partir do luto do cônjuge, apresenta possibilidades de novas aventuras, incluindo aí amizades com gerações bem mais jovens como também repensar os modos de ser, estar e morar na velhice; como também de se ver a velhice. As imagens iniciais do filme mostram a representação de um velho frágil, improdutivo, sem autonomia, rabugento, e ainda ocupando um espaço nobre da cidade, tal qual em Aquarius, enfim, um velho que é forçado a se retirar do seu lar construído ao longo de sua vida. De forma lúdica e muitas vezes engraçada, o filme de animação vai nos apresentando os diversos estereótipos da velhice e como suas consequências passam despercebidas em nosso cotidiano.

Em o Exótico Hotel Marigold (direção de John Madden, 2011) o tema morar volta a se apresentar quando um grupo de aposentados desconhecidos parte para um exótico hotel na Índia, a fim de experienciar uma outra forma de ser, estar e conviver. O convívio de estranhos em um mesmo espaço permite aflorar questões de amor, de superação e da capacidade que o ser humano tem de fazer escolhas e que isso independe de idade. Enfim, um filme que nos faz refletir sobre o que queremos da vida e como queremos vivê-la.

Com Memórias Secretas (direção de Atom Egoyan, 2015) isso está resolvido. O filme, que tem como pano de fundo o morar em uma instituição de longa permanência aberta, funcionando mais como um hotel para a terceira idade, tem como premissa uma vingança pessoal levada a extremos. Apesar de mostrar as dificuldades do envelhecimento, o receio da degradação física e demência, a vingança, o perdão, memórias vivas e esquecimentos reais ou involuntários, o longa-metragem traz para a reflexão o desejo de viver e com ele a elaboração de projetos de vida, de dentro de um asilo – lugar considerado por muitos como fim de linha e ante sala da morte.

O morar coletivo é o foco do filme E se vivêssemos todos juntos? (direção de Stéphane Robelin, 2012) que retrata como ainda as moradias coletivas para longeviver são vistas na Europa, continente já envelhecido e que ainda entende as casas de repouso como fantasmas a serem expurgados. Lá e cá existe uma negação em se viver coletivamente com estranhos em uma instituição, pois esta ainda carrega um dos maiores estigmas da velhice: o isolamento, a frieza e a ausência de amizades. Assim, um grupo de amigos acolhe a velhice fragilizada de um membro do grupo e resolve morar todos juntos, a fim de um dar suporte ao outro. A convivência entre eles traz velhas lembranças, novas perspectivas e um novo desafio que irá mostrar que a vida ainda não acabou. Além da ajuda mútua, a vida comunitária permite a troca de experiências e um contato diário próximo. O filme nos alerta de forma muito bem humorada para a importância das redes e dos afetos nessa etapa da vida, afinal, como humanos, é o único que nos resta e interessa.

 

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte

Jornalista, Especialização e Mestrado em Planejamento e Administração do Desenvolvimento Regional, Doutorado e Pós.doc em Ciências da Comunicação pela USP. É docente da PUC-SP, onde está como coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia. Coordena o grupo de pesquisa Longevidade, Envelhecimento e Comunicação. Editora executiva do Web site Portal do Envelhecimento e Portal Edições. Integra o banco de avaliadores do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – Basis/Inep/MEC. Integra também a Rede Iberoamericana de Psicogerontologia (Redip) e a Red Iberoamericana Interdisciplinar de Investigación en Envejecimiento y Sociedad (RIIIES). E-mail: beltrinac@gmail.com

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