Cerejeiras em Flor – época de florescer

No filme Hanami: Cerejeiras em Flor (2008, Direção: Dorris Dorrie), as concepções de uma velhice cercada pelo que se espera da sociedade, e até mesmo dos filhos do idoso, são confrontadas com desejos de vivências “demasiadamente ambiciosas”. A busca de sentido em coisas tão desprezadas antes da necessidade de serem repensadas devido à iminência da morte, por exemplo, é uma reflexão provocada no personagem principal. A partir de um aprofundamento na maneira como o casal de idosos no filme se relaciona com o mundo, com a morte e com o sentido de cada momento que vivenciam, pode-se delinear um olhar desse veículo das mídias sobre o idoso na atualidade.

Larissa Felix Brum e Ruth Gelehrter da Costa Lopes *

 

A velhice, circundada por aspectos como a aproximação da morte, a inversão de papéis com os filhos, a vulnerabilidade física acompanhada da limitação de vivências, antes facilmente possíveis, e a necessidade de não estar só neste momento conturbado, são alguns dos temas presentes no filme.

Transbordando em sensibilidade e poesia, o filme conta a história de um casal a partir da notícia de que um dos pares irá morrer brevemente por uma doença aparentemente sem cura. Trudi, a esposa, fica sabendo da doença do marido, Rudi e, sem contar a ele, convida-o para uma viajem – visitar os filhos que moram longe.

Na chegada de Rudi e Trudi, percebe-se a complicada relação familiar: os filhos não têm tempo para passearem com os pais e brigam entre si o tempo – ninguém quer a tarefa do “cuidar” ou mesmo da atenção carinhosa.

Curiosa, Trudi demonstra grande interesse por uma apresentação de butô, mas Rudi acha tudo muito estranho, sem sentido. Em boa parte do tempo, Rudi parece incomodado de estar fora de sua rotina, das questões práticas de que tanto se ocupava no seu dia a dia.

Aqui, pode-se pensar na possibilidade dele não sentir necessidade de refletir sobre o sentido de sua existência, sobre a morte ou sobre quaisquer questões mais distantes do concreto imediato, mais uma vez em referência ao desejo da sociedade em evitar certos assuntos existenciais, tais como a morte, a incerteza sobre o futuro, o tempo e o sentido das coisas.

Os pais sentem que as coisas mudaram na relação com seus filhos, o que os impede também de estarem próximos dos netos, distanciando a possibilidade de interação e continuidade das relações familiares. Esse distanciamento entre gerações é apontado por Ferrigno (2006) como uma consequência do esvaziamento de papéis atribuídos na sociedade a esses velhos enquanto eram funcionais dentro dela.

Após visitarem os filhos em Berlim, Trudi tenta levar o marido à sonhada viagem ao Japão, na casa de outro filho. Mas Rudi acha que é ele que deveria visitá-los, pois ir para um país tão distante seria mais difícil para eles. No final, decidem viajar para uma praia no Báltico, como faziam quando eram jovens. Quando lá chegam, Rudi diz que apenas olhar a praia é o suficiente para ele, e que já deveriam voltar para casa, retomar a vida de antes.

Naquela noite, Trudi tenta mostrar a Rudi o que é o butô, através de sentimentos expressos pelo movimentar do corpo. Num breve momento, ela o abraça, mas ele pede que ela pare – tudo lhe parece “sem sentido” e estranho.

Na manhã do dia seguinte, assim que Rudi acorda se dá conta de que a esposa falecera dormindo ao seu lado. A partir desse momento, grandes conflitos parecem tomar conta de seu coração, pois ele não sabe o que fazer sem a presença carinhosa da esposa. Em uma cena, ele diz que irá onde Trudi decidir: essa é uma fala que ilustra uma questão delicada – o fato de sempre ter sido conduzido pela esposa, de não fazer suas próprias escolhas. Esse jeito de viver de Rudi, como a sociedade espera que um idoso viva, isto é, seguindo as regras implícitas de uma rotina sem questionamentos – começa entrar em conflito com o sofrimento causado pela morte de Trudi.

Hanami significa época do florescer, e é uma metáfora para o sentido que as coisas e a vida ganham para Rudi a partir da perda da esposa. Vendo o pai sem direção, os filhos se reúnem para novamente discutirem “o que fazer com ele”, como se suas próprias vontades não tivessem qualquer voz, como fosse um ser passivo e sem motivações próprias. Diante disso, Rudi decide pela viagem ao Japão, visitar o filho, mas, assim como os outros, não tem tempo para qualquer cuidado, além de já estar “cansado” da presença do pai.

Rudi se depara então diante um novo contexto, com o butô, na medida em que reconhece os movimentos misteriosos de uma garota, Yu, no meio do parque. Ele inicia uma amizade com a jovem e percebe que o butô é uma dança das sombras, em que o corpo “mal está lá”, em que se dançam os vivos e os mortos, pela comunicação que só é possível através do sentimento expresso pela dança.

A partir daí, Rudi começa a se vestir com as roupas de Trudi, na tentativa de levá-la para os lugares onde sempre quisera ir, sentir-se próximo dela realizando desejos que ela tinha e compartilhava. Ele se encanta por uma nova perspectiva de vida – tudo o que antes era sem sentido começa a se encher de significados.

A questão da morte da pessoa que mais amava, a sensação de estar sozinho em relação à disposição de seus filhos e a impossibilidade de permanecer o mesmo levaram Rudi a escolher algo que nunca pensara em fazer. Ele, até então, vivia à mercê do que lhe esperava, do que lhe era dado, e do que estava acostumado, mas a angústia gerada pela morte de Trudi, o levou a ampliar a própria experiência de vida – antes tão fechada – em busca de algo pelo que viver.

Pode-se dizer que neste florescer existencial, representado pelo florescer das cerejeiras, símbolo da efemeridade da vida, segundo a cultura japonesa, Rudi passa a não aceita mais sua condição de velho passivo e solitário à espera da morte. Os novos significados do florescer, das cerejeiras, do butô, enquanto formas de se viver e de sentido a uma existência para além do concreto limitado e racional, são o ponto mais marcante da trajetória de Rudi percorrida em plena velhice.

O destino final da viagem de Rudi e Yu é o Monte Fuji, coberto pelas nuvens na maior parte do tempo, fato que impossibilita que seja visto. Após alguns dias esperando as nuvens baixarem, Rudi acorda de madrugada e, ao olhar pela janela, vê que o Monte finalmente aparece. Já nas margens do lago, vestindo o kimono de sua esposa, expressa seus sentimentos através do butô, aproximando-se cada vez mais de Trudi que, agora, se encontra em todos os lugares – nas cerejeiras, no butô e nas coisas que ela amou, e ele passou a amar.

A partir de uma visão sobre a velhice e suas questões abordadas com sensibilidade e sutileza no filme, pode-se formar a imagem do velho na sociedade atual. O filme tem um tom crítico quanto às novas gerações e sua relação com o idoso, embora também mostre que há chance de uma ligação entre estas, não apenas pelo sangue, mas pelos sentimentos, ideias sobre a vida e desejos compartilhados.

Referências

FERRIGNO, J. C. (2006). A identidade do jovem e a identidade do velho: questões contemporâneas. In: Velhices: reflexões contemporâneas. São Paulo: SESC: PUC.

 

Larissa Felix Brum – Aluna do curso de graduação de Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica – PUCSP, 5º semestre. Ruth Gelehrter da Costa Lopes – Supervisora Atendimento Psicoterapêutico à Terceira Fase da Vida. É docente do Programa de Estudos Pós Graduados em Gerontologia e do Curso de Psicologia, FACHS.

 

Ruth G. da Costa Lopes

Ruth G. da Costa Lopes

Psicóloga, mestrado em Psicologia Social pela PUC-SP e doutorado em Saúde Pública pela USP. Atualmente é professora Associada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo na Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde e Programa de Gerontologia. Tem experiência na área de Saúde Coletiva, com ênfase em Gerontologia e Psicogerontologia, atuando principalmente nos seguintes temas: processo de envelhecimento, psicoterapia em grupo para idosos, velhice e família. E-mail: ruthgclopes@gmail.com

ruthlopes escreveu 19 postsVeja todos os posts de ruthlopes