Carlão, o mochileiro artesão que veste a vida!

Carlão atualmente é guia cultural do Museu Histórico de Cuiabá (MT), está construindo um espaço para mochileiros do “mundo”, principalmente para arte do artesão. Construiu sua casa com suas próprias mãos, com material reciclado e doações. Atualmente se sente realizado e acha que está vivendo o seu melhor momento de sua vida, pois através de sua persistência conseguiu até hoje realizar muitos sonhos, sendo o primeiro deles vestir a vida!

  

Antonio Carlos Almeida Rios (Carlão), 60 anos), três filhos e quatro netos. Nasceu em Mairi (Bahia), entre idas e vindas está em Cuiabá há 40 anos. Desde pequeno percebeu o seu interesse pelas artes, tinha vontade de ser músico, porém com nove irmãos seu pai não tinha como satisfazer sua vontade, mas além de sonhar como tal também foi descobrindo a sua tendência para a arte do artesanato. Para a arte de saber viver.

Aos dez anos já criava seus próprios brinquedos com pedaços de objetos que encontrava na rua, como pedaços de cascas de árvores, pneus (fazia carrinho de rolimã), vidros quebrados, sementes de frutas, entre outros  material. Com eles aprendeu a vestir a vida.

Aos 17 anos disse para seu pai que gostaria de seguir a carreira de artesão, houve um desentendimento entre ele e seu pai e diante desta situação resolveu fugir de casa!

Foi para vários estados do país como (SP, MG, RJ, BA, GO), sempre construindo seus próprios objetos com o material que encontrava no lixo, apresentando-os no chão e vendendo-os. Percebeu que era possível sobreviver e resolveu virar mochileiro desde então, pois da vida nada se leva, só os afetos.

Após suas andanças, depois de oito anos voltou para Cuiabá e começou a expor suas produções na Praça da República. Com muita experiência e sensibilidade percebeu que estava na hora de iniciar / fundar uma associação de artesãos da cidade de Cuiabá, como por exemplo: as ceramistas de São Gonçalo Beira Rio, Redeiras (mulheres que fazem as redes) e Limpo Grande (bairro de Vargem Grande) e também todo o trabalho dos hippies do local.

Queria fortalecer e organizar o grupo de artesãos, ou seja,  um espaço institucionalizado para divulgar e vender. No dia 03/09/1986 foi fundado a AMA (Associação Mato-grossense de Artesãos) por João Hipólito (atualmente mora em Barão de Melgaço),  hoje não pertence mais à AMA, no princípio tinha apenas 15 sócios e num determinado momento se candidatou para presidente da AMA mas não foi escolhido por ser hippie.

Arrumou a mala e voltou para a Bahia (cidade Vitória da Conquista), permanecendo quatro anos e se aperfeiçoando na feira de artesanato em Vitória da Conquista, trabalhou na diretoria, estudou, se preparou e voltou para Cuiabá e de novo se candidatou para presidente e foi eleito!

Ficou seis anos e na sua gestão elevou o número de associados para 120 barracas na feira de artesanato na Praça da República.

Assim que terminou a gestão foi para a Chapada e foi eleito presidente da ACHA (Associação Chapadense de Artesãos – na Chapada de Guimarães), permanecendo durante dez anos. Atualmente é guia cultural do Museu Histórico de Cuiabá (MT), está construindo um espaço para mochileiros do “mundo”, principalmente para arte do artesão. Construiu sua casa com suas próprias mãos, com material reciclado e doações.

Atualmente se sente realizado e acha que está vivendo o seu melhor momento de sua vida, pois através de sua persistência até hoje conseguiu realizar muitos sonhos!
Galeria

Material criado

Côco da Bahia: transformou em uma bolsa com zíper (côco azedo da praia que achou no lixo)

Chifre de Boi: criava pulseiras, brincos, colares, cinzeiros, calçadeiras de sapatos para idosos.

Ponta de Aroeira (madeira nobre): pegou no lixo, esculpiu a madeira e fez uma escultura (que não vende, pois para ele não tem preço!)

Cisne: madeira não identificada, encontrou em uma Empresa de terraplanagem de uma rodovia, reconheceu a raiz e foi esculpindo e dando forma e movimento ao cisne de um lado e serpente de outro.

Carne de Toucinho: uma madeira que representa a banha de um lado e o porco do outro.

Nota
No final da entrevista Carlão me ofereceu chá de manjericão natural do quintal,  bolinho de queijo e bolo de arroz (culinária local). Também me ofereceu um passeio de triciclo e ganhei um cristal leitoso do terreno da casa construída.

Suely Tonarque

Suely Tonarque

Psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP, com o tema “Velhice e Moda: Incursões históricas e realidade atual”. Blogueira do Grupo de Moda da Terceira Idade. E-mail: satonarque@uol.com.br

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