Arte para libertar os velhos

Sempre me vangloriei por não ter problemas com o tal tubo, mas desta vez, ao fazer a ressonância da lombar, senti uma súbita falta de ar e uma quase sensação de morte por asfixia. Graças ao meu lado racional desenvolvido durante o mestrado, soube controlar as emoções e entender que um pouco mais adiante, o tubo era aberto. Não precisava me desesperar.

 

– Dona Cristiane, a senhora se movimentou e interferiu nas imagens.

A voz do moço responsável pelo meu exame de ressonância magnética interrompeu uma das minhas tentativas de me transportar para qualquer outro lugar que não fosse aquele.

Já estava lá há muito tempo, pois aproveitei a manhã para fazer todos os exames pedidos pela ortopedista.

Uma dor no quadril direito irradiava para a coxa e estava tirando meu bom humor. Levando-se em conta que o lado direito do corpo é regido pelo lado esquerdo do cérebro, responsável pela razão, cheguei à conclusão que a culpa de tudo isso que estava sentindo é da metodologia científica que me fez trabalhar, exaustivamente, meu lado racional. Acostumada a tarefas cuja essência é o lado sensível, relacionadas ao outro lado do cérebro, meu corpo não aguentou e prendeu a musculatura do lado direito como reação.

Enfim, estava eu investigando o porquê das dores quando percebo que a Dona Cristiane sou eu mesma. Sempre achei engraçado ser chamada assim, afinal nunca me senti dona de nada. O curioso é pensar que as senhoras que participam do atelier de arteterapia que ministro também são chamadas assim por mim. A Helena é Dona Helena e a Ernestina é Dona Ernestina. Todas são donas. Donas sei lá do que. Do meu coração, com certeza.

O fato é que quando se fica muito tempo fazendo esse tipo de exames a imaginação é posta em prova. Sempre me vangloriei por não ter problemas com o tal tubo, mas desta vez, ao fazer a ressonância da lombar, senti uma súbita falta de ar e uma quase sensação de morte por asfixia. Graças ao meu lado racional desenvolvido durante o mestrado, soube controlar as emoções e entender que um pouco mais adiante, o tubo era aberto. Não precisava me desesperar.

Toc toc toc, o barulho é insuportável no seu ritmo tedioso. Toc, toc, toc. Ó de casa! Toc, toc, toc, e basta estar amarrada para sentir coceira que, só se acalmou quando resgatei na memória um delicioso banho de cachoeira, gelado e revigorante. Fico imaginando como deve ser real, para muitos idosos, a necessidade de evocar boas memórias. Talvez esse seja o combustível necessário para a sobrevida em algumas velhices.

Subitamente o exame silenciou sem ter terminado. Pronto! Encontraram algo que anuncia minha morte. Estou certa disso! O desespero tomou conta e a razão esqueceu-se de se lembrar de que o tal tubo era aberto mais adiante. Vou morrer!

Temos medo da morte. É fato. Toc, toc, toc. Na retomada do barulho ensurdecedor, junto veio um alívio e o pensamento de que nada grave deve ter sido visto.

Penso então que devo urgentemente trabalhar essa condição de finitude em mim se quiser envelhecer bem, afinal, ao ter a idade cronológica avançada, a morte passa a ser companheira de todas as horas. Como lidar com isso?

O exame continua, agora com o foco no quadril. O tubo é insuportável e o corpo estático começa a apresentar dores.

A vida é ágil e não combina com um corpo parado. Essa constatação me fez pensar nos velhos entregues a um nada fazer que deve, com certeza, atrofiar as juntas e os pensamentos. Triste realidade.

O som de toc, toc, toc, muda para algo que parecia dizer: Corraatrás, corraatrás, corratrás… Até você ressonância? Tentando me lembrar de que preciso correr atrás dos sonhos e desejos? Dá um tempo! Afinal é só o que faço e muitas vezes, quanto mais corro mais os sonhos fogem. Corraatrás, corraatrás, corratrás… Mesmo tendo sido promovida a Dona Cristiane, será que quando assim me sentir, ainda terei que correr atrás da vida ou caminhar na direção correta será o suficiente? A cabeça não parava de driblar o tédio de estar naquela situação. Tanta vida lá fora, tanta coisa me esperando e eu aqui ouvindo uma máquina me mandar correr atrás sem que eu possa desatar o que me prende. Comecei a divagar no meu pensamento e um simples exame de ressonância passa a trazer questões existenciais à tona: Libertar-me das amarras? O que me aprisiona? O que me liberta? Aquilo estava ficando insustentável. Era preciso desviar o pensamento e suavizar o momento.

E se esse tubo fosse pintado, será que não seria mais divertido para quem fica aqui dentro? Já sei! Porque Romero Britto não comercializa tubos de ressonância magnética para os laboratórios? O meu pensamento me levou a gargalhadas, afinal minha relação com a obra de Romero Britto é repleta de dualidades. Adoro seu colorido e sua alegria, ao mesmo tempo em que questiono sua estética tão poluída. Não sei bem o que dizer muito menos o que acho.

Pintor nascido em Recife em 1963 e radicado nos Estados Unidos, o artista soube promover seu nome e sua arte. Seus trabalhos estão estampados em lata de sabão em pó, caixa de lenço de papel, guarda-chuva, coleira de cachorro e tudo mais o que se possa imaginar.

Sempre fui a favor de a arte ganhar novos espaços, pois esta é uma maneira de atingir as massas. Mas, às vezes acho que Romero Britto exagerou na dose massificando sua arte além da conta. E já que em tudo vemos sua obra, penso que as máquinas de ressonância ganhariam uma graça maior e favoreceriam os examinados entediados.

O artista sabe como manter-se representado e valorizado em todos os lugares imagináveis e com isso passou a ser o queridinho dos famosos.

Não me sinto capaz de julgar Romero Britto, sua arte nem ninguém. A ressonância continuou por mais um tempo que parecia não querer passar.

E o que era brincadeira da imaginação passou a ser chateação. Ainda era preciso fazer a ressonância da coxa. Direita, é claro. Fui arrumando novas estratégias para continuar “boazinha” e colaborar com o exame. Era preciso e já que não pretendo ser uma velhinha manca e torta, melhor colaborar.

– Dona Cristiane, a senhora está liberada.

Liberta, enfim! A Dona de sei lá o que, finalmente está livre.

Dona Helena, Dona Ernestina e todas as donas do meu coração: Que a Arte traga a vocês a mesma sensação que tive ao me livrar daquelas amarras físicas impostas pela situação e muito mais do que essa possível liberdade real, meu desejo é que vocês possam estar libertas na essência, mesmo que algo as aprisione. Nossos melhores voos acontecem pela força dos nossos desejos, portanto a vocês, que já viveram mais de oito décadas, deixo aqui o soar da máquina de ressonância: corraatrás, corraatrás, corraatrás, corraatrás. Saibam que estarei com vocês, oferecendo, através da Arte, uma real possibilidade de libertação. Juntas, pela Arte, enfrentaremos esse mundo que nos aprisiona. Viver é maior. E deve ser, portanto: Em frente! Deixe ecoar! Corraatrás, corraatrás.

 

 

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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