Aprendizagem na velhice: as múltiplas faces da memória

Esquecer o que se aprendeu ou mesmo perder a capacidade de aprender coisas novas está longe de ser natural. Podemos perfeitamente chegar aos 100 anos lúcidos e capazes de consumir, produzir e transmitir conhecimentos. Por muito tempo prevaleceu a ideia que só se aprende enquanto jovem, como se o declínio cognitivo fosse natural a partir dos 30 anos.

 

“Falar do desenvolvimento cognitivo e aprendizagem ao longo da vida implica falar do que é a aprendizagem, do que esta pressupõe quando acontece, de quais são as determinantes da aprendizagem e em certa medida como estas se relacionam com o desenvolvimento cognitivo.

Ao falar-se de desenvolvimento cognitivo, fala-se, antes de mais, dos aspetos internos e externos da pessoa, da ideia de inato e de adquirido, para depois os interrelacionar com a maturação e o seu processo do desenvolvimento vital.

Esta temática está também fortemente implicada com a memória e suas múltiplas facetas. Fala-se de memória implícita e explícita. De atividades automáticas e de atividades deliberadas, todas elas sujeitas a um período de aprendizagem e posterior ‘arrumação’ cerebral. Outras implicam processos procedimentais e são essas que nos permitem conduzir um carro e ouvir uma música agradável e estar simultaneamente a respeitar as regras de trânsito sem perder o objetivo de chegada e reconhecendo sem dificuldade a aproximação da meta.

Progressivamente fomos aprendendo e desenvolvendo o conhecimento que nos permite reconhecer uma aprendizagem por observação, por memorização, a partir de exemplos ou por analogia. Esta última pressupondo já uma certa maturação, um estádio de desenvolvimento considerado, que nos ajuda a que, a partir de informações acessíveis possamos fazer deduções.

Por sua vez estas deduções vão cooperar para o processo decisório que nos permitirá desenvolver e crescer como pessoas.

Pode dizer-se que há uma arquitetura cognitiva que possui determinados alicerces e que os seus processos, tal como no caso dos edifícios, respeitam a hierarquia do seu posicionamento e as resoluções de cada tarefa ou função, não se misturam nem se atropelam dando-nos a ideia de um todo harmonioso que se articula para que nos desenvolvamos enquanto seres pensantes.

Todavia, a existência de plasticidade neuronal tem um papel fundamental na construção de redes que permitem a criação de novas oportunidades de aprendizagem, como aliás tem a própria estrutura da personalidade, a vivência dos afetos, as condições de interação, as idades envolvidas, a saúde global da pessoa, e a riqueza ou precariedade do contexto onde tudo acontece.”

Assim os coordenadores do livro Gerontologia e Transdisciplinaridade I abrem o capítulo 8 – Desenvolvimento Cognitivo e Aprendizagem Ao Longo da Vida –, de Manuela Leite, [Braga, Portugal]. A autora afirma que “por muito tempo prevaleceu a ideia que só se aprende enquanto jovem, como se o declínio cognitivo fosse natural a partir dos 30 anos”.

Esquecer o que se aprendeu ou mesmo perder a capacidade de aprender coisas novas está longe de ser natural. Podemos perfeitamente chegar aos 100 anos lúcidos e capazes de consumir, produzir e transmitir conhecimentos, é o que diz a autora:

“O cérebro é um órgão que à semelhança de todos os outros está sujeito às alterações decorrentes do processo de envelhecimento que se inicia por volta dos 30 anos. São observáveis alterações na substância branca e cinzenta. Não obstante, verificam-se que estas alterações não ocorrem igualmente em todos os indivíduos dentro de uma faixa etária, sendo mais evidentes em idosos com uma baixa performance cognitiva. Numa tentativa de compreender as diferenças intraindividuais e, por conseguinte, o envelhecimento cerebral, têm surgido algumas teorias, sendo o modelo HAROLD de Cabeza (2002) um dos mais populares. Este representa acima de tudo um mecanismo compensatório que tem como principal objetivo diminuir o impacto ao nível dos processos cognitivos produzido pelas alterações cerebrais…”

 

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Redação Portal do Envelhecimento

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