Apenas uma lembrança e a eternidade

Em “Depois da Vida” (1998), um cenário do rememorar: numa certa segunda-feira, o sino toca, é o chamado. A bruma invade o espaço, pessoas entram, uma a uma, e anunciam seus nomes, numa espécie de portaria de um determinado local entre lá e cá. A questão será: qual o melhor momento de nossas vidas?

 

 Sempre acreditei que escrevemos para o outro – uma celebração ao amor – e que quando, cuidadosamente, escolhemos cada uma das palavras para um certo alguém ou mesmo para o mundo, o alvo já foi marcado, seja no delicado movimento das mãos que ensaiam a escrita, no respirar ofegante pela busca de sentido, seja no pensar solitário tecido ao longo dos dias.

Diria Santo Agostinho, nas lembranças de Hannah Arendt (1906-1975): “não há maior convite ao amor que precedê-lo amando”. É assim, quando se escreve, se faz para o outro e pelo outro.

E para honrar essa transcendência do sentimento e a benção pela concessão da passagem dos anos, escolhi como meu obscuro objeto de escrita, “Depois da Vida” (After Life, 1998).

Os amantes do cinema japonês sabem: os filmes do diretor Hirokazu Kore-eda (Pais & Filhos, 2013; O que eu mais desejo, 2012; entre outros) são conhecidos por nos fazerem refletir sobre a existência e todos os temas que flertam com esse estranho viver de todos nós e, em “Depois da vida”, não será diferente: o amor e a humanidade continuam protagonistas da história.

Você pode pensar que a história discute todas as controversas questões de vida após a morte. Não, nada disso. O filme fala das lembranças queridas, do que se guardará pela eternidade, trabalha um processo que vasculha minuciosamente os anos vividos. Para quem sabe desfrutar dos dias, eu diria que há muito que pensar com os personagens e com seu próprio eu.

E se, ainda, os cabelos prateados, produto do avançar acelerado do tempo, transformaram sua imagem e seu coração, abro um parêntesis para apresentar “O Eremita”, personagem da “Jornada do Louco”, o andarilho recluso e silencioso que tudo sabe, com um simples olhar.

Para quem ainda não o encontrou, informo que “Ele” é o número 9 do percurso da vida, o sábio arquetípico que passou dos 60 anos. O homem que com seu cajado pisa seguro e com sua lamparina ilumina o caminho, segue determinado e persegue o inusitado. Para quem completa 63 anos (6+3=9), aí pode estar a chave de todos os mistérios, um encontro com Pandora (“a que possui todos os dons”) e a revelação dos enigmas.

No livro, “Jung e o Tarô” de Sallie Nichols, conhecemos mais desse Senhor vindo de um tempo sem ponteiros do relógio, legítimo representante do Tempo Kairós, fiel ao espírito…aquele que detém o significado preexistente escondido no caos da vida: “Homem de poucas palavras, vive no silêncio da solidão – o silêncio antes da criação – somente a partir do qual uma nova palavra pode tomar forma. Não nos traz sermões; oferece-se a nós. Com sua simples presença ilumina pavorosos recessos da alma humana e aquece corações vazios de esperança e significação”.

Esse Eremita, como sábio que é, não vasculha as lembranças do passado por uma simples razão: ele já as incorporou. Mas como somos errantes, faltantes e pecadores e, creio, ainda estamos um pouquinho na idade da pedra (uns mais outros menos – bem, eu sou da turma do mais), a história de “Depois da Vida” nos conforta com a perspectiva de levar, como algo concreto, uma lembrança, apenas uma, por toda eternidade. Como se fosse possível apalpar, tocar, algo tão fugidio.

Depois da Vida, o Filme 

Esse será o cenário das lembranças: numa certa segunda-feira, o sino toca, é o chamado. A bruma invade o espaço, pessoas entram, uma a uma, e anunciam seus nomes, numa espécie de portaria de um determinado local entre lá e cá.

Um grupo os recepciona e informa o que, supostamente, todos já sabem: a antiga vida vivida se foi. Mas, e agora? Os tais “guias”, homens e mulheres que mais tarde saberemos quem são, explicam:

“Vocês vão ficar conosco uma semana, mas enquanto estiverem aqui terão que fazer uma coisa: De todos os seus anos de vida queremos que escolham uma recordação. A lembrança de uma coisa que tenha sido muito significativa. Há um tempo limite: vocês terão três dias para se decidirem. Quando a tiver escolhido, nosso pessoal fará o melhor possível para recriá-la em filme. No sábado exibiremos os filmes para vocês. Tão logo tenham vivido sua recordação, cada um de vocês seguirá adiante, levando apenas essa lembrança por toda eternidade”.

O diretor de “Depois da Vida” conta que entrevistou centenas de pessoas comuns no Japão para saber delas, qual o melhor momento de suas vidas. Alguns desses depoimentos foram incluídos no roteiro do filme e estão aqui.

No trabalho de análise das lembranças, surgem respostas que bem poderiam ser as nossas:

“Não quero pensar em todas as coisas que fiz, só tenho más recordações.”

“Digam o que disserem, mas para um homem é quando a gente está transando. É o melhor. Pode perguntar a quem quiser.”

“Quando se é tratada tão mal, a gente jura que não vai ficar com outro homem de novo. Mas, aí, alguém é gentil com você e sabe como as mulheres são! Mas os homens são todos iguais.”

“Bem, você quer dizer sobre alguma coisa que me divertiu ou me fez feliz? É claro que tive muitas. Minha vida não transcorreu exatamente como eu queria, mas eu era enérgico e vivi do meu jeito”.

“Então, todos acabam aqui? Não pretendo escolher nada.”

Ou, apenas “silêncio”, nada a responder.

Assim, o resgate das lembranças mais queridas é iniciado com a ajuda dos guias, os chamados “facilitadores”, pessoas que só estão nesse ofício porque não conseguiram escolher o momento mais feliz da vida. É no trabalho semanal com os visitantes que eles aprendem a olhar o passado e dele identificar a verdadeira riqueza, o inesquecível, o momento mais feliz que permanecerá registrado na alma.

Os dias passam e o árduo trabalho do rememorar segue seu curso. Para alguns trazendo dores há muito esquecidas, descobertas inesperadas, para outros prazeres desconhecidos.

Com pétalas de rosas vermelhas encerrando uma fase da travessia, talvez a primeira de muitas, a mensagem final é dada aos visitantes:

“Obrigado a todos. A semana terminou. Esta é a última vez que estaremos todos juntos. Agora podem ir para a sala de exibição para assistirem as lembranças que recriamos para vocês. No momento em que as reviverem, irão para um lugar onde podem ter toda a certeza que passarão a eternidade com essa lembrança.”

A luz se apaga, a tela se ilumina e o filme começa.

Escolher uma lembrança, também implica ir embora, seguir o curso de novas vidas.

Na despedida de um dos facilitadores, a constatação: “Procurei desesperadamente dentro de mim por qualquer lembrança de felicidade. Agora, 50 anos depois, fiquei sabendo que eu fazia parte da felicidade de outra pessoa. Que descoberta maravilhosa! Você, também, um dia, descobrirá isto”.

“Depois da Vida” me fez refletir. E se, da noite para o dia, eu tivesse que escolher a lembrança mais feliz, apenas uma? Seriam muitas? Teria que hierarquizá-las?

Bem, depois de alguns dias mastigando esse dilema, cheguei a minha derradeira escolha: um dia, um delicioso encontro com o passado e a emoção do reencontro que se perpetua a cada novo momento, mesmo que breve.

Tomada pela emoção, Hannah Arendt escreveu o poema: “Há uns que nos falam e não ouvimos; há uns que nos tocam e não sentimos; há aqueles que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas…há aqueles que simplesmente vivem e nos marcam por toda vida”.

“E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”, meu amor! (John Donne, fragmento de “Meditações XVII”).

Trailer – https://www.youtube.com/watch?v=RmTy6X4FbOg

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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