Aonde andam os GENTECISTAS: os especialistas em cuidar de gente?

Cabe aqui uma reflexão: nós estamos preparados para vivermos a existência de uma consulta, de um atendimento ou da prestação do cuidado? Qual a disponibilidade de cada um para escutar, acolher, ouvir, compreender e compartilhar com o paciente, com a família ou cuidadores? Como podemos nos preparar para dividirmos as responsabilidades pela tomada de decisão, deixando cair por terra a passividade do paciente e a soberania do conhecimento técnico-científico que ouvimos falar na faculdade? Estamos dispostos a nos arriscar em novas práticas de cuidado?

 

Este post coloca em pauta um assunto polêmico e adorável: o olhar do profissional de saúde às pessoas que o procuram. E, talvez, essa seja a primeira polêmica: apesar dos bancos escolares nos ensinarem a tratar doenças e doentes, a examinar sintomas físicos, a prescrever soluções em forma de medicamentos, tratamentos e outros recursos, nem sempre as pessoas nos procuram para curarem sintomas e problemas físicos. Seria bem mais fácil se fosse assim: o paciente chega, diz o sintoma e o profissional faz o diagnóstico e prescreve o tratamento.

No entanto, há pessoas que têm dificuldade para expressar o que estão sentindo (física, social ou psiquicamente); outras sentem-se envergonhadas ou amedrontadas em falar; e outras são impedidas de falar ao profissional, pois o mesmo já até sabe o que o paciente tem e está sentindo, é só prescrever…. Perde-se então uma incrível oportunidade de exercer verdadeiramente o cuidado ao outro.

Para enriquecer o debate, inserimos neste post trechos de um belíssimo texto enviado pelo Dr. Rubens Azevedo do Amaral, médico GENTECISTA, como ele próprio se intitula – médico especialista em cuidar de gente – há muito mais de 20 anos (com muita honra).

Para o Dr. Rubens, “a prática da medicina atual é maculada pela falta de tempo e pela ansiedade de pacientes e familiares, assim como dos médicos. Esses dois fatores: falta de tempo e ansiedade juntos, funcionam como bombas atômicas a destruir a qualidade da relação médico/paciente e familiares, gerando explosões de solicitações de exames, assim como condutas indevidas com resultados catastróficos para a saúde individual e coletiva”.

Dr. Rubens exemplifica: “consultas de 5 minutos entre médicos e pacientes que mal se olham e que mal conversam, geram solicitações de um número de exames desnecessários, não havendo anamnese e, muito menos, exame físico, portanto, com poucas chances de haver um bom raciocínio clínico e hipóteses diagnósticas que balizariam a indicação de somente alguns exames complementares ou, até mesmo, nenhum. Consultas pouco resolutivas aumentam ainda mais a demanda, pois os pacientes não conseguindo encontrar a solução para seus problemas, permanecem no sistema” de saúde (público ou privado), “gerando novas consultas e ainda mais exames”.

Fica evidente o inestimável valor da escuta, do olhar nos olhos, do interesse verdadeiro pelo que incomoda o outro (aquele que procura o profissional, seja o doente, o paciente, o cliente, o ser humano), da qualidade do tempo utilizado na interação interpessoal entre paciente e profissional (dois seres humanos) promovida em uma consulta ou atendimento. Repare: qualidade do tempo e não quantidade de tempo. Cinco minutos de tempo gastos com qualidade podem sim fazer uma grande diferença na tomada de decisão, na elaboração do diagnóstico e na prescrição da conduta adequada.

E o que seria então, a tal qualidade do tempo? “Tempo para ouvir, para refletir, para construir relações sólidas e duradouras entre médicos, pacientes, famílias e comunidade”, conforme os princípios da Slow Medicine ou Medicina sem Pressa. Quantos segundos são necessários para dizermos frases que jamais serão esquecidas por pacientes que atendemos? Quer exemplos? Comunicar o falecimento de um ente querido ou a notícia de uma doença incurável, ou o sucesso de uma cirurgia, ou um bom prognóstico, ou impedir um suicídio? Quantos segundos? Imagine o que podemos fazer então com 5 minutos?

Qualidade do tempo é dedicar-se inteiramente ao outro durante os cinco minutos que passamos com ele, seja em um consultório, à beira do leito, no corredor ou durante um procedimento. Mas que sejam cinco minutos compartilhados e doados ao outro. Esta prática deve ser aplicada ao cuidado básico: dar banho, vestir, alimentar, ajudar na locomoção, promover alívio da dor e do desconforto, acalentar… Estamos falando de viver a existência do cuidado: o toque, a troca de sentimentos (dor, angústia, medo, frustração, tranquilidade, plenitude etc), a energia, enfim, tudo que podemos doar e receber da interação com outro ser humano.

Dr. Rubens cita um dos defensores e propagadores da Slow Medicine, Dr. José Carlos Campos Velho: “a Slow Medicine vem resgatar esta maneira de atuar, buscando a essência da arte de cuidar, através do estabelecimento de um sólido relacionamento com os pacientes, e de uma vivência em comum envolvendo o doente, o profissional de saúde, a família e sua comunidade, relação esta que se prolonga ao longo do tempo, permitindo a criação de laços estreitos e duradouros entre todas estas pessoas, para que se conheçam e se familiarizem uns com os outros. Esta aliança terapêutica certamente traz resultados concretamente melhores para o paciente – objeto-fim de todo o cuidado médico”.

São dez os fundamentos da Slow Medicine: tempo; individualização; autonomia e autocuidado; conceito positivo de saúde; prevenção; qualidade de vida; medicina integrativa; segurança; paixão e compaixão; e uso parcimonioso da tecnologia. Importantíssimo mencionar a aplicabilidade desta filosofia de cuidado aos outros profissionais da saúde, da assistência social e de outras áreas, bem como daqueles que exercem o cuidado informal.

Os princípios da Slow Medicine estão em conformidade aos objetivos do Programa Saúde da Família de “prestar um atendimento de qualidade, integral e humano em unidades básicas municipais, garantindo o acesso à assistência e à prevenção em todo o sistema de saúde, de forma a satisfazer as necessidades de todos os cidadãos; e de reorganizar a prática assistencial em novas bases e critérios: atenção centrada na família, entendida e percebida a partir de seu ambiente físico e social (Brasil, 1997)”.

Os fundamentos da gestão centrada na pessoa idosa também compartilham dos pressupostos da Slow Medicine: “a Abordagem Centrada na Pessoa, com sua proposta de promover relações interpessoais autônomas e consequentemente humanizadas, sugere o desenvolvimento de atitudes de consideração positiva incondicional, empatia e autenticidade como características principais desse jeito de ser. São atitudes que concebem o crescimento, a preservação e a sobrevivência como a principal motivação humana. Considera-se que uma relação facilitadora de crescimento pressupõe a presença por inteiro de ambas as pessoas (Bacellar, Rocha e Flôr, 2012)”.

Cabe aqui uma reflexão: nós estamos preparados para vivermos a existência de uma consulta, de um atendimento ou da prestação do cuidado? Qual a disponibilidade de cada um para escutar, acolher, ouvir, compreender e compartilhar com o paciente, com a família ou cuidadores? Como podemos nos preparar para dividirmos as responsabilidades pela tomada de decisão, deixando cair por terra a passividade do paciente e a soberania do conhecimento técnico-científico que ouvimos falar na faculdade? Estamos dispostos a nos arriscar em novas práticas de cuidado?

Praticar a Slow Medicine (sendo médico ou qualquer outro profissional) pode melhorar a qualidade do cuidado, a partir da valorização do tempo para ouvir o outro. Faz-se necessário trabalhar para criar uma estrutura em que isso possa ser apoiado, envolvendo governos (e portanto políticas públicas), gestores, profissionais, sociedade, familiares e pacientes. Os custos (econômicos, sociais e psíquicos) podem ser reduzidos ao se fazer escolhas sensatas, antes de se apressar em algo imprudente e incerto, indicando racionalmente o papel do especialista externo, procedimento ou máquina. Por ser ouvido, por poder estabelecer conexões e vínculos e por sentir-se cuidado, o paciente ficará mais satisfeito (Bauer, 2008).

Para finalizarmos este post e iniciarmos a discussão com os leitores, registramos mais um trecho do texto do Dr. Rubens, que sintetiza a prática de um profissional que de fato vive a existência em seus atendimentos, que pratica a Slow Medicine diariamente: “acredito na conversa, na anamnese, no exame físico, na atenção e no cuidado com muito amor. Acredito também na tecnologia e nas evidências científicas, mas as pratico com parcimônia na busca do melhor resultado para meu paciente, até porque não prescindo da minha experiência médica e de vida, experiência essa que foi um pouco desvalorizada pela poderosa Medicina Baseada em Evidências que nos ajuda muito, mas que necessita da nossa bagagem, do nosso traquejo, da nossa sensibilidade, da nossa perícia, da nossa tarimba, enfim, do nosso know how no cuidado de nosso paciente. Há anos propago a ideia de que o médico precisa ter, no mínimo, duas especialidades, uma delas, ser “Gentecista”: gostar de Gente e suas circunstâncias”.

Contribua para mobilizarmos cada vez mais o debate e as reflexões sobre a prática do cuidar!! Participe enviando seu comentário para o e-mail: rosamaria.garcia2016@gmail.com

Referências

Bacellar A, Rocha JSX, Flôr MS. Abordagem centrada na pessoa e políticas públicas de saúde brasileiras do século XXI: uma aproximação possível. Rev. NUFEN [online]. v.4, n.1, janeiro-junho, 127-140, 2012.

Bauer JL. Slow Medicine. The Journal of Alternative and Complementary Medicine. Volume 14, Number 8, 2008, pp. 891–892.

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Coordenação de Saúde da Comunidade. Saúde da Família: uma estratégia para a reorientação do modelo assistencial. Brasília. Ministério da Saúde, 1997.

Rosamaria Rodrigues Garcia

Rosamaria Rodrigues Garcia

Fisioterapeuta, Doutora em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, na área de Serviços de Saúde Pública (2016), Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (2002), Especialista em Gerontologia pela SBGG - Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (2013), possui especialização em Fisioterapia em Geriatria e Gerontologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (2000). Atualmente é Docente da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e diretora técnica do Núcleo de Estudos do Processo de Envelhecimento do Instituto Paulista de Geriatria e Gerontologia José Ermírio de Moraes. Leciona desde 2000 em Cursos de Graduação e Pós Graduação. Tem experiência clínica em Fisioterapia em Geriatria e Gerontologia e Fisioterapia em Saúde Coletiva, além de gestão de equipe interdisciplinar e de Centros de Reabilitação, atuando principalmente nos seguintes temas: fisioterapia, idoso, saúde coletiva, saúde pública, equipe multidisciplinar, gerontologia e instituição de longa permanência para idosos. E-mail: rosamaria.garcia@uol.com.br

rosamaria-garcia escreveu 4 postsVeja todos os posts de rosamaria-garcia