Ao tratar o idoso como criança, contribuímos para seu declínio!

Uma das formas de violência cometida contra o idoso é a comunicação infantilizada, a falar com ele como se fosse uma criança, usando palavras no diminutivo ou que remetem muitas vezes a forma como falamos com bebês ou crianças, sugerindo que este indivíduo não tem mais controle sobre suas ações, quando muitas vezes a tem, ou que não tem mais capacidade cognitiva para lidar com seu dia-a-dia.

Por Gislene Gomes dos Santos Assumpção Koyama *

 

Por alguns meses tive a oportunidade de refletir sobre o envelhecimento. Primeiramente fui buscar novos conhecimentos e entender sobre este momento da vida pelo qual todos nós passamos, ou melhor, que por toda a vida vivemos, pois a cada dia é um dia que envelhecemos.

Este tema vem sendo muito discutido, principalmente devido ao grande crescimento da população idosa em comparação à população jovem, ao aumento da expectativa de vida e sobre o que fazer neste período da existência.

No decorrer dos dias e dos aprendizados adquiridos no Curso Fragilidades da Velhice oferecido pela PUC-SP no primeiro semestre de 2017, percebi que, muito mais do que buscar novos conhecimentos, estava buscando autoconhecimento, uma forma melhor de lidar com o meu próprio envelhecer e com o envelhecer do outro, daqueles que estão ao meu redor.

Em um destes momentos de aprendizado e reflexão surgiu o assunto da infantilização da velhice. Deparei-me com um tema a respeito do qual não tinha parado para pensar, mas que de repente percebi que eu mesma o estava fazendo.

Subitamente percebi que, sem intenção, ao conversar com um velho eu estava me comunicando de forma infantilizada com ele: usando palavras no diminutivo ou adjetivos que no geral usamos quando falamos com um bebê ou uma criança, mas acreditando que estava sendo gentil, afetuosa ou carinhosa. Quando na verdade poderia estar desrespeitando, desconsiderando toda a sua trajetória de vida.

Decidi que ia escrever sobre isto, para que eu pudesse também mudar minha atitude e fortalecer em mim que o idoso não é criança, e que temos que respeitá-lo, dentro de suas limitações e reconhecer que ele é capaz, e que tratá-lo como criança não necessariamente é tratá-lo com carinho.

O velho, com a experiência de vida adquiriu muitos conhecimentos sobre o que é e como viver, que tem como maior competência a possibilidade de transmitir, compartilhar o que viveu, assim como preparar o outro para a vida, para que nós que chegaremos lá, ou já estamos chegando, o possamos fazer com maior maturidade e facilidade.

Mas não aproveitamos esta oportunidade. Muitas vezes não permitimos que o velho experiente, incluindo nossos pais, avós, tios, amigos mais velhos, nos transmitam seu aprendizado com toda a competência que desenvolveu, porque se fizermos uma analogia com o famoso CHA, o Conhecimento (Saber, ter o Conhecimento), Habilidade (Saber Fazer, ter vivenciado as experiências) e Atitude (Querer Fazer, atitudes/ações que motivaram colocar em prática) já descritos por vários autores, o velho já adquiriu o conhecimento de como a vida é, a habilidade de qual melhor forma de agir, e com suas atitudes/ações fez acontecer.

Ao invés disso, muitas vezes, no intuito de proteger ou de ser mais afetivo, carinhoso, até inconscientemente, infantilizamos a velhice, permitimos que aquele velho experiente e conhecedor da vida, regrida e se sinta incapaz de agregar àqueles que estão ao seu redor. Tratando-o como criança, volta-se ao ciclo da vida em que aprendemos e adquirimos conhecimento, que precisamos do outro para falar, andar, comer, ser independente e o velho deixa então de se reconhecer como alguém que é detentor de conhecimento e experiência de vida, de que é capaz de seguir em frente sem precisar do outro, de tocar seu dia-a-dia com mais independência. Em contrapartida, acabamos permitindo que ele não ocupe mais o seu próprio lugar, mas sim aquele que nós o colocamos.

E, ao refletir sobre isso, muitos de nós não reconhecemos que estamos promovendo uma violência ao velho. Uma violência não declarada, mas que não deixa de ser uma violência. Uma violência do não ouvir, de não respeitar a experiência e vivência do outro, de não permitir que o outro se expresse e se sinta valorizado ou como alguém que ainda pode fazer muito pela família, pela sociedade que está inserido, que pode agregar e até mesmo aconselhar com maior propriedade do que a maioria daqueles que estão ao seu redor, pelo fato de que já passaram por muitas alegrias, decepções, frustrações, perdas e ganhos. Já amadureceram, já enrijeceram, já deixaram de acreditar, ou acreditam ainda mais que é possível ainda fazer algo pela sua vida e que o tempo vai passar, que iremos aprender e amadurecer com as feridas e alegrias da vida.

Ao tratarmos o velho como crianças e infantilizá-lo, estamos promovendo a sua dependência, mesmo ainda não sendo necessária e não permitimos que tenha alguma autonomia quando na verdade muitas vezes ainda a têm.

Estamos fazendo com que ele se desaproprie de suas possibilidades, quando elas ainda existem.

Muitas vezes infantilizamos o velho e não percebemos, acreditamos que o estamos protegendo, quando o estamos desestruturando, ajudando em seu declínio.

Não podemos esquecer da sua individualidade e da subjetividade de cada um. Cada um é um ser humano único, que possui seus desejos e vontades.

Sendo assim, é importante perguntar ou estar atento ao outro, tendo a sensibilidade de perceber se esta é a melhor forma de tratá-lo, se é isso mesmo que ele espera e quer.

Muitas vezes sente-se violentado e desrespeitado, e não protegido e cuidado.

Talvez seja mais interessante pensar no que posso fazer para evitar riscos reais devido às limitações. Entender estas limitações e identificar junto com o outro o que pode ser adaptado para a melhoria de sua qualidade de vida, e não simplesmente fazer o que achamos certo e entendemos que é menos arriscado ou que é mais confortável, considerando que estamos protegendo e então passamos a tratá-los como nossos “bebês grandes”.

Isto pode ser violento, e fator determinante para o declínio e encurtamento de sua existência não só física, mas principalmente psicológica, porém de uma forma invisível e subjetiva, muito mais qualitativa do que quantitativa. Não podemos medir quanto de fato isto pode estar ou não impactando a existência de cada um.

Existindo capacidade cognitiva, sem perda de consciência, é importante que a opinião do outro seja respeitada e, considerando que este passou por várias experiências e aprendeu com elas. Sendo assim, devemos respeitar sua existência e o aprendizado da vida.

Perceber que o idoso não é incapaz o ajudará a viver com maior qualidade, fazendo com que se sinta pertencente a um lugar, evitando assim o isolamento como forma de viver.

Desvalorização

Visitando um pouco o passado podemos verificar que o velho tinha uma função diferenciada, exercendo um papel de grande relevância. Mas com a chegada da tecnologia, com a possibilidade de ter a informação no papel impresso, digital e outras fontes que surgiram com a modernização, vai ocorrendo a desvalorização do que antes era a principal fonte de informação: a memória e a experiência adquirida durante toda uma vida.

O papel da sabedoria, daquele que detém o conhecimento pelo acúmulo de experiências vividas, não tem mais a mesma importância, porque agora o papel e a tecnologia podem fornecer estas informações em apenas alguns segundos, mesmo que não tenham sido vividas ou sentidas.

O velho passa a ser alguém que não pode mais agregar. Passa a ser visto como aquele que dá trabalho Certa vez ouvi que velho não ajuda, só dá despesa. Para muitos, essa é a visão que possuem de si mesmos, pois é assim que sentem a forma como são tratados.

Reforçado pelo aumento de expectativa de vida nas últimas décadas, bem como doenças ou problemas da velhice, antes desconhecidos, os hábitos de vida e o aprimoramento da tecnologia também contribuem para que a vida dure mais. Com isso, muitas áreas precisaram também se desenvolver e se aprimorar. No caso das doenças, elas precisam ser tratadas e, se possível, curá-las. Assim vai se formando a imagem de que o velho deixa de ser sábio e passa a ser visto como frágil, consequentemente formam-se outras imagens que velhice é doença, é ruim, chata, deprimente e outras mais.

Muitas vezes o velho, que até outro momento de vida ensinava, agora muitas vezes fica dependente do outro, e não mais contribui para o crescimento daqueles que estão ao seu redor, e estes, por sua vez, não possuem mais tempo para ouvir seus ensinamentos e aprender com eles.

Em famílias, por exemplo, formadas em aldeias e tribos, famílias de origem oriental ou em famílias maiores e mais conservadoras, o papel do velho é de um ser sábio e cujo conhecimento deve ser respeitado por todos.

Nas famílias mais contemporâneas, cada vez menores, cada vez mais deixam seus velhos para trás e saem em busca de sua sobrevivência, não compartilhando mais seu conhecimento.

Percebe-se uma generalização, que podemos dizer que não é totalmente verdade, de que todo velho é doente ou se ficarmos velhos vamos ficar doentes, quando a realidade não é essa, pois existe também a velhice saudável, mas com limitações, que faz parte do processo de envelhecimento do corpo, já que está mais desgastado, mas não necessariamente doente.

Alguns dos impactos negativos são: falta de respeito, impacto em sua dignidade, em sua identidade, baixa autoestima, podendo interferir em sua qualidade de vida. Acrescenta-se a isso, a linguagem infantilizada, que pode transmitir um sentimento de pena, ao invés de uma sensação de afeto e cuidado.

Comunicação infantilizada

Embora esta comunicação infantilizada exista em relacionamentos estabelecidos com o idoso, pouco se discutiu sobre este assunto. Não está claro se este tipo de comunicação pode ser entendida como discriminatória, nem por quem sofre e nem por aquele que a pratica. Não se tem clareza ainda que esse tipo de prática pode ser classificada como um tipo de discriminação ou preconceito por idade, e que podem causar impactos negativos naquele que sofre este tipo de preconceito, ou ainda pode ser entendida como um tipo de agressão psicológica, imperceptível no momento em que ocorre, podendo resultar grande interferência negativa na qualidade de vida daquele que está envelhecendo.

Acredito que as experiências devem ser valorizadas, o curso me permitiu enxergar por outros ângulos, e me possibilitou a mudança de atitude diante de tais situações, pois agora faz muito sentido para mim que estas atitudes podem causar impactos negativos no outro e contribuir para piora de sua qualidade de vida, o que realmente não é o que desejo fazer.

Esta vivência e o conhecimento adquirido até aqui reforçam o quanto é importante valorizarmos a experiência e a sabedoria do outro, o quanto podemos aprender e crescer com isso.

Não devemos deixar empoeirar e “guardar em nossas gavetas” as experiências e sabedoria adquiridas durante a vida por todos nós. Precisamos permitir que o outro tire de suas gavetas o aprendizado adquirido, e que possa compartilhar conosco toda sua sabedoria da vida. Dar significado e importância para a vida e não deixá-la ser coberta pelo pó com o passar dos anos.

Precisamos pensar que também vamos querer ser ouvidos e respeitados, reconhecidos como seres capazes enquanto ainda o somos, e não ocupar papéis que nos sejam impostos, sem o nosso consentimento.

Penso que vou preferir abrir minhas gavetas e compartilhar tudo que fui guardando durante toda a minha existência, o aprendizado e experiência da vida.

Acredito que este tema ainda deve ser bastante discutido, uma vez que temos o envelhecimento da população crescendo mundialmente e que assim como outros aspectos da velhice que não eram conhecidos, este tema também precisará ser discutido e pensado para que possamos refletir e buscar novas formas de estabelecer contato com o idoso, mesmo porque todos nós o seremos um dia ou já o somos e precisamos nos colocar neste lugar e identificar se é adequado este tipo de comunicação e qual impacto isto nos causaria.

Creio que é importante nos permitir fazer esta reflexão hoje e sempre, pois nossas atitudes são reflexos de nossos pontos de vista, de nossa maneira de ver o mundo, mas não podemos esquecer que estamos inseridos neste contexto e que precisamos nos olhar antes de olhar para o outro, e tentar nos colocar no lugar do outro antes de tomarmos qualquer atitude.

Agradeço a todos os professores por permitirem que eu pudesse refletir sobre a vida.

Referências

https://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2013/07/02/filhos-devem-respeitar-habitos-dos-pais-idosos-e-nunca-infantiliza-los.htm – acesso em 03/06/17.

http://www.portaldoenvelhecimento.com.br/falar-com-idosos-como-se-fala-com-bebe-e-desrespeitoso-nao-fofo/ – acesso em 11/06/17.

http://www.portaldoenvelhecimento.com.br/infantilizacao-da-pessoa-idosa/ – acesso em 11/06/17.

https://psicologado.com/psicologia-geral/desenvolvimento-humano/infantilizacao-como-forma-de-violencia-sob-o-idoso – acesso em 21/05/17.

MARQUES, Ana Patrícia de Sousa, A Discriminação na Velhice – A Infantilização da Pessoa Idosa. 2016. 217f. Dissertação de Mestrado – Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa, 2016.

RABAGLIO, M. O. Seleção por Competências: 2.ed.São Paulo: Educator, 2001.

 

* Gislene Gomes dos Santos Assumpção Koyama – Trabalho apresentado no curso curso de extensão: Fragilidades na velhice: gerontologia social e atendimento, primeiro semestre de 2017, PUC-SP. E-mail: gislenegomeskoyama@yahoo.com.br

 

 

 

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