Alzheimer e sonhos que enferrujam

João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (Franca, 1926 – São Paulo, 2009), presidente da Gurgel Motores, foi um dos empresários mais conhecidos no Brasil – uma mistura de industrial, engenheiro, projetista, inventor e, por que não dizer, sonhador, também. Um homem que conseguiu a façanha de transformar seus sonhos em realidade.

 

Há 40 temos um carro Gurgel X-12 que, com carinho especial, cuidamos como um velho amigo. É um “senhor” resistente com muita história da família para contar. É, ainda, o nosso jipe – conversível no verão – que nos conduziu a praias desertas e caminhos lamacentos, aonde carros comuns nunca chegariam. Com ele conhecemos uma boa parte da América do sul. Por ser de fibra reforçada, protegeu nossa vida em acidente: um carro confiável e ainda vivo.  Por questões afetivas, procuramos conhecer um pouco sobre o seu criador, assistindo a documentários e entrevistas (disponíveis na internet), alguns com títulos bem sugestivos, aqui registrados nas referências deste texto.

Para o jornalista Lélis Caldeira (2009), João Augusto Conrado do Amaral Gurgel foi “um visionário, um homem à frente de seu tempo”. Há 35 anos, criou um carro elétrico e, em relação ao Proálcool, entrevistado por Salomão Schvartzman em 1990 na extinta TV Manchete, registra que o espaço de alimento para os carros deveria ser utilizado para alimentar pessoas.

Com 50 mil dólares, a empresa Gurgel Indústria e Comércio de Veículos Ltda., iniciou sua operação em 1969, na Avenida do Cursino (atrás de uma concessionária Volkswagen), em São Paulo, Capital. Gurgel lança os primeiros modelos utilitários em F.R.P. (Fiberglass Reinforced Plastic), com motor traseiro fornecido pela Volkswagen. Inicialmente, a fábrica tinha seis funcionários e produzia quatro unidades por mês, de uma espécie de buggy, o Ipanema.

A aceitação no mercado, pela durabilidade da fibra, e pela desenvoltura com que os jipes percorriam estradas, nem sempre asfaltadas, campos e praias, fez com que a fábrica desenvolvesse, em suas linhas de montagem, utilitários como os jipes X-10 e o X-12, os Tocantins, e os grandes X-15 e o Carajás.  O jipe X-12 venceu concorrências e foi adquirido pela Aeronáutica, Exército e Polícias Militares.

Num dado momento, surgiu a necessidade de ampliação das instalações da empresa. Com o financiamento do BNDS, a GURGEL adquiriu, em 1973, uma área de 360 mil metros quadrados no município paulista de Rio Claro, às margens da Rodovia Washington Luís (fábrica inaugurada em maio de 1975). Dois anos depois, a empresa alterou sua razão social para Gurgel S.A. Indústria e Comércio de Veículos.

Os modelos X-12 e Carajás fazem sucesso na época, a empresa prospera e abre espaços para o mercado. Segundo Paulo Facin (2007), cerca de quarenta países chegaram a importar seus produtos e houve época em que 25% da produção de Rio Claro eram destinadas às exportações. O jipe X-12 era táxi na Bolívia, carro para o deserto no Oriente Médio, veículo para o turismo no Caribe.

Em 1981, Gurgel projeta o carro elétrico Itaipu. Ele dizia que o petróleo tem que ser substituído por alternativas menos poluidoras da atmosfera e que terras nobres eram utilizadas para plantar comida para carro em vez de comida para o homem.

Em 24 de junho de 1987, com a presença do Ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer e da Revista Quatro Rodas (1992), Amaral Gurgel lança o primeiro carro, com motor por ele desenvolvido, denominado CENA (Carro Econômico Nacional) que depois passou a BR-800, pois a família de Ayrton Sena o processou pelo uso da fonética.

Collor, quando presidente – interessado, particularmente, na importação do Lada soviético -, ampliou a isenção de impostos para todas as empresas de automóveis, tanto as nacionais como as estrangeiras.

Em 1992, Amaral Gurgel lançou o Supermini, com uma fábrica de 1250 funcionários e empréstimos de 7 milhões de cruzeiros dos bancos BNDS e Banespa. Nesta época foi assinado um protocolo de intenções entre os governadores Fleury do Estado, de São Paulo e Ciro Gomes, do Ceará, que cita em seus discursos a valoração da indústria nacional e dos carros de fibra apropriados para a região nordestina (informação disponível nos documentários sobre Amaral Gurgel).

Em 1992 é lançado o projeto Delta – uma nova fábrica em Fortaleza. Dez mil lotes de ações foram vendidos (todo maquinário foi comprado do exterior), todavia, o protocolo de cooperação assinado pelos governadores citados era apenas um protocolo de intenções, expresso claramente por Fleury. Nos documentários, ele registra que Amaral Gurgel confundiu as coisas e que o Banespa (sucateado, nas minhas palavras) não podia conceder os empréstimos, sem garantias.

Em 1993 o presidente Itamar Franco incentivou a empresa com a isenção de impostos a carros populares, mas já ficava impossível concorrer com empresas como a Volkswagen, Fiat, Ford e General Motors.

Amaral Gurgel conseguiu reverter a falência nos períodos de 1993 a 1994. Depois, todos os esforços se revelaram inviáveis. A fábrica ainda permanece como um esqueleto velho nas margens da rodovia em Rio Claro. E, com isso, Gurgel, segundo os jornalistas, mergulhou em depressão, que foi substituída, mais tarde, pela Doença de Alzheimer.

Envelhecer é viver, mas como?

Segundo Messy (1992), Alzheimer, como doença, é caracterizado por uma perda de memória, desorientação do espaço temporal, perturbações da linguagem, hipertonia muscular, hipertimia ou distúrbio do humor, com agitação motora. A evolução para a morte ocorre em seis ou sete anos. Até hoje as causas são atribuídas à genética, mas o diagnóstico formal só pode ser feito através da autópsia.

Esta ideia de doença implica em esperança de tratamento por um lado e, por outro, de senilidade, de velhice patológica, de déficits, de perda da memória. O paradoxo, como lembra Messy, é que o velho representa o símbolo da memória de uma nação e que os gerontólogos preocupam-se muito com a qualidade de vida dos idosos e desconhecem, como se fosse outro capítulo do conhecimento, que Freud introduziu o conceito de inconsciente a partir do esquecimento.

O termo “envelhecimento” tem dois significados opostos. De um lado, evoca a ideia de diminuição, desgaste e enfraquecimento. De outro, ganho, maturação e acréscimo. “Velhice” não é um processo como o envelhecimento, é um estado. O envelhecimento como processo normal é a expressão da temporalidade da pessoa, de sua história e do seu processo de individuação. Envelhecer é viver.

O envelhecimento, como perda, remete a todas as etapas da vida: marca a nossa saída do útero materno; a perda dos dentes de leite; o luto da adolescência; a perda da virgindade; a saída da casa paterna; a ida dos filhos para a escola; a saída dos filhos de casa; a perda dos pais e a aposentadoria. Estes são exemplos de perdas que privam a imagem de seu objeto, mas lançam-na na busca de novas possibilidades de aquisição. Quando há ruptura de um vínculo, cria-se um vazio, uma depressão vivida dolorosamente pela pessoa que engendra, muitas vezes, uma ou mais aquisições.

As perdas de movimento, de fala e de orientação – em processo de demência – nem sempre se iniciam por perdas fisiológicas. Observamos em nossa vivência de décadas em ambulatório e enfermaria geriátrica que, muitas vezes, a perda do uso funcional e imagem corporal são consequentes à falta de motivação em viver, em lidar com perdas. A pessoa entra em desânimo e vai deixando de andar, de se mover, de engolir e vai perdendo o que sabe fazer, apagando de sua imagem corporal não apenas as possibilidades de uso funcional, mas de relações, dores e prazeres.

Nos documentários que assistimos, jornalistas apontam que familiares de Amaral Gurgel avaliam que o Alzheimer permitiu a continuidade de seus sonhos, o alívio da depressão de se deparar novamente, e, novamente, com a falência, com a perda de sua fábrica, com o desemprego de seus operários, com os protocolos de cooperação que eram apenas protocolos de outras intenções.

Referências

XAVANTE (texto cedido pelo Sr. Paulo Facin, 2007). Breve resumo da história da saga Gurgel . Disponível em: http://gurgelguerreiro.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=1. Acesso em: 07 jan. 2017.

CALDEIRA, L. A história da Gurgel Motores – Limite – ESPN Brasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dkx4nb92P0c&t=91s. Acesso em: 30 out. 2016.

CALDEIRA, L. Gurgel, Um Brasileiro de Fibra. São Paulo: Alaude, 2008.

CAVECHINI, C; MARTINS, G; SORG, L; ULIAM,E; YONAHA. Documentário Gurgel – Sonhos enferrujam. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=t7-t0zNi-EI. Acesso em: 30 out. 2016.

D’ANGELINO, R.. Gurgel. Uma história de Fibra. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ygElODwFsHU /           https://www.youtube.com/user/MrDangelino. Acesso em: 30 out. 2016.

MESSY, J. A Pessoa Idosa não Existe – uma abordagem psicanalítica da velhice. São Paulo: Aleph, 1903.

RAGA, E. O novo projeto de João Gurgel. Publicações – Quatro Rodas nº 389 de dezembro de 1992, PP 64-68. Publicado em 11/05/2012. Disponível em: http://www.gurgel800.com.br/publicacoes/quatrorodas/389/. Acesso em: 30 out. 2016

SCHVARTZMAN, S. João Amaral Gurgel – Entrevista TV Manchete. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=kG9rb7b8bvE.  Acesso em: 30 out. 2016.

Regina Celia Gorodscy

Regina Celia Gorodscy

Psicóloga, doutora em Psicologia Clínica pela USP. Professora Associada da PUCSP(1981- 2013 . Psicóloga do Serviço de Psiquiatria e do Serviço de Geriatria e Gerontologia do Hospital do Servidor Público Estadual (1971-2005). E-mail: psicoregina@gmail.com

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