Alabama Monroe: a dor em estado natural

Quando “Alabama Monroe” – indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro – entrou em cartaz em salas consideradas “cabeçudas e intelectualóides” de São Paulo, imediatamente corri para ler as críticas. Os especialistas eram mais ou menos unânimes: sim, “uma história triste”. 

Luciana Helena Mussi

 

Entenda leitor: não se trata de um “triste” corriqueiro de todos os dias, mas de um tipo de melancolia em câmera lenta que nos acompanha em cada respiro e suspiro. Falo de uma dor dilacerante que rasga pele e alma sem piedade, rompe as entranhas e assim se faz duramente presente.

Devo dizer que sinto uma enorme curiosidade, uma espécie de atração mórbida por histórias cujos temas desembocam em aspectos reflexivos e inquietantes: a morte iminente, essa ameaça constante, uma companhia permanente para quem vive. Atenção: apenas para esses.

Em tempos em que tanto se fala de sustentabilidade, “Alabama Monroe” aparece para nos lembrar do contrário, da inevitável “insustentabilidade da felicidade”.

alabama-monroe-a-dor-em-estado-natural-foto2Que saudade de Milan Kundera (1929, Tchecoslováquia) em seu “A Insustentável Leveza do Ser”! Um escritor brilhante que soube identificar a extrema fragilidade da existência de todos nós, que, aliás, interpreto assim: coisas boas, às vezes, de tão boas, se tornam insustentáveis, sejam elas destruídas por nossas mãos ou pela ajudazinha da finitude, da consciência da mortalidade. Esse é o processo de vida: nada de respostas prontas, mas muito para estudar e pensar.

Diria Kundera: “São precisamente as perguntas para as quais não existem respostas que marcam os limites das possibilidades humanas e traçam as fronteiras da nossa existência”.

Ou: “A história é tão leve quanto a vida do indivíduo, insustentavelmente leve, leve como uma pluma, como uma poeira que voa como uma coisa que vai desaparecer amanhã”.

Como se tudo evaporasse num estalar de dedos ou num piscar de olhos. É a efemeridade das coisas.

Coragem

Voltando a “Alabama Monroe”, confesso que levei dias para decidir se devia ou não me entregar a uma trama que, certamente, me faria diferente. Respirei fundo e corajosamente, sozinha, assisti a um dos filmes mais sensíveis e tocantes da minha, digamos, experiência cinematográfica.

Agora, fiquem com um pouco da história de uma mulher, Elise (Veerle Baetens), um homem, Didier (Johan Heldenbergh), uma menina, Maybelle (Nell Cattrysse) e muita música.

Sinopse

Imaginem quando uma avassaladora atração acontece entre um homem que canta a vida e uma mulher que tatua as experiências em seu corpo. Um sexo sentido em todas as suas dimensões e consequências, numa troca que fere o transcendental de tão intensa, sanguínea e energética.

Da carne e do espírito vem o amor, que juntos se transformam e nascem representados na bela menina Maybelle. O tempo passa, a menina cresce e a doença se manifesta. A felicidade não mais se sustenta.

Daí a história segue – numa gangorra emocional, num vai e vem do tempo – ao mostrar questões delicadas, reações distintas e imprevisíveis de um pai e uma mãe diante do diagnóstico de câncer terminal da filha. Enquanto Didier, o pai, ateu, considera que a morte é o fim, “a morte é o fim, depois vem o nada”, afirma, a mãe se apoia na fé em Deus, no milagre de Cristo que salva seus filhos.

Para o diretor belga, Felix Van Groeningen, que adaptou para as telas uma peça teatral de Johan Heldenbergh, que também é o protagonista do longa, é essa dicotomia que “faz a história ser tão bela”. “O filme não questiona a religião, ou questiona um pouquinho, mas também explica porque as pessoas precisam dela”, afirmou, em entrevista por telefone ao UOL.

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Sobre os personagens, na visão do diretor…

“Na peça, as diferenças entre eles (Didier e Elise), me pareceram completamente críveis. A necessidade de buscar algo em comum a partir das crenças distintas é o que os leva a se apaixonar. Se existe ou não um Deus, é o menos importante. Mas a paixão deles surge da necessidade de buscar uma resposta, mesmo que ela seja negativa, explica Van Groeningen.

Nos dilemas da religião e vivendo um luto irremediável, o casal se golpeia com duras palavras movidas pela dor da perda e invadidas pela luta ao direito de pensar.

Para a liberta e, a princípio, “arrojada e destemida” Elise, segurar firmemente o santinho nas mãos impede que a intrusa Morte apareça e roube sua menina para o Reino de Hades (o das Trevas, do Mundo Subterrâneo, das Sombras). Cristo imuniza, protege os inocentes e os guarda no calor daqueles que amam. Assim pensava Elise…

Van Groeningen conta que teve vontade de adaptar a peça de Heldenbergh, com quem já havia trabalhado em seu filme anterior, “Os Infelizes” (2009), assim que a viu. “Comecei a chorar 20 minutos após a peça começar e fiquei totalmente arrasado, de um jeito que nunca havia ficado antes”, diz o diretor.

Confesso que “Alabama Monroe” me provocou a mesma emoção. Toda vez que conto a história, um turbilhão de sentimentos vem a tona na forma de lágrimas doídas, guardadas desde que meu mundo se tornou mundo, desde que me percebi gente, seja pelo acolhimento “quentinho” de meus pais, seja pelo carinho e cuidado de “quase mãe” de minha irmã mais velha.

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Sobre a dor da perda…

Van Groeningen pensa que os acontecimentos passados após a morte da menina no filme demonstram que a “dor pela perda de alguém não pode ser compartilhada”. “É algo que vivi recentemente, mas que também é um fato: 70% dos casais que perdem um filho se separam”, afirma.

“A dor pela perda é uma coisa muito pessoal. Você pode confortar a pessoa uma vez, duas vezes, mas chega um momento em que não há mais como ajudar”, diz. “O homem também, em algum momento, ficará preocupado em, além de perder o filho, perder a mulher. Então o que acontece e que colocamos no filme, é que o homem parece superar antes, mas na verdade ele apenas está consolando a mulher ao máximo com medo de perdê-la”, completa.

Veremos no filme que, muitas vezes ou na maioria delas, o tempo não cura determinadas perdas, sejam elas reais ou subjetivas. Se me perguntassem, “então, o que o tempo faz nessas situações?”. Eu diria: assista “Alabama Monroe” e descubra que Alabama “e” Monroe são a última e derradeira tatuagem, a remissão das dores da carne e do espírito, o produto do efeito “tempo”.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=6Ami6ITgLrI

Referências

MESTIERI, G. (2014). “‘Alabama Monroe’ explica necessidade da religião na vida”, diz diretor. http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/01/17/alabama-monroe-explica-necessidade-da-religiao-na-vida-diz-diretor.htm. Acesso em 01/05/2014.

MIRANDA, A. (2014). ‘Alabama Monroe’, um candidato ao Oscar embalado pelo bluegrass. Disponível em http://oglobo.globo.com/cultura/alabama-monroe-um-candidato-ao-oscar-embalado-pelo-bluegrass-11329370. Acesso em 01/05/2014.

KUNDERA, M. (1985). A Insustentável Leveza do Ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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