Ainda assim, Alice

Sobre sua personagem diagnosticada aos 50 anos com a Doença de Alzheimer, a atriz Julianne Moore, diz: “Tudo é construído. Alguém disse: ‘Não precisamos fazer nada, precisamos apenas morrer.’ Esse é o único requisito. Todo o resto é inventado. Inventamos a linguagem e a literatura, inventamos o trabalho e todas essas coisas e o fazemos porque isso nos fascina. Só que, no fim do dia, a única coisa que resta somos nós como seres humanos. Mas não quero deixar todo mundo deprimido ao dizer que tudo o que temos que fazer é morrer.”

 

Semanas antes de “Para sempre Alice” (Still Alice, 2014) entrar em cartaz, tive a oportunidade de ver o trailer do filme e a entrevista da atriz Julianne Moore, protagonista de uma história dolorosa, comovente e profundamente injusta. Pensei: como deve se sentir uma pessoa ao ser diagnosticada com a Doença de Alzheimer com apenas 50 anos? Sem palavras. Alice, a personagem, diz ao marido: “preferia ter câncer”.

Pior ainda é saber que o diretor do longa, Richard Glatzer, morreu no dia 10 de março aos 63 anos, vítima de uma esclerose lateral amiotrófica. Ele lutava contra a doença ao rodar o filme que deu o Oscar de melhor atriz a Julianne Moore.

Julianne, profundamente tocada com a doença, diz que evitou ver o filme com outras pessoas:

“Meu marido e eu assistimos juntos e não consegui ver nada. Ouvia um barulho e aí o vi soluçando. Comecei a falar algo e ele ralhou: ‘Não estrague tudo!’ Então tive que ficar 20 minutos calada até dizer: ‘Bem, eu queria ter feito isso diferente.’ A primeira coisa que você sempre pensa depois de ver seu próprio filme é o que não está lá – o que está errado, o que você gostaria de ter feito.”

Diante da fragilidade da vida e da iminência de um fim sem avisos, Julianne desabafa: “Tudo é construído. Alguém disse: ‘Não precisamos fazer nada, precisamos apenas morrer.’ Esse é o único requisito. Todo o resto é inventado. Inventamos a linguagem e a literatura, inventamos o trabalho e todas essas coisas e o fazemos porque isso nos fascina. Só que, no fim do dia, a única coisa que resta somos nós como seres humanos. Mas não quero deixar todo mundo deprimido ao dizer que tudo o que temos que fazer é morrer.”

Podemos sentir pelas palavras e expressão da atriz, a intensidade de seu sofrimento e incredulidade ao interpretar uma professora universitária, bem sucedida na carreira, casamento feliz e três filhos, por que não dizer, perfeitos, ao receber o diagnóstico do uma doença que, sabidamente, a fará “desaparecer” para sua consciência, lentamente, um pouco a cada dia, com perdas cognitivas e afetivas irremediáveis, traiçoeiras e que acabam, subitamente, no vazio de si mesmo e do mundo.

Em entrevista dada à mídia internacional, a atriz explicou que o filme trouxe à tona uma discussão delicada, um tema que nem sempre as pessoas querem falar, as demências, no caso o Alzheimer:

“(…) é bom ressaltar que ninguém conhece bem essa doença. Esse foi o maior desafio para mim. Sempre falamos disso durante as filmagens. Era um projeto pouco comum, pois foi o primeiro filme em que vi uma abordagem desse tipo de doença de forma completamente subjetiva. Em geral, vemos todas essas histórias do ponto de vista de alguém que cuida dessas pessoas ou algum parente. E este filme mostra a experiência de Alice. Pedi para terminar minha pesquisa antes de rodar as primeiras cenas porque tinha medo de embarcar em algo sem entender completamente o assunto. Hoje sei que nunca vou poder compreendê-lo por completo, mas ao menos pude falar com todas as pessoas com quem conversei.”

Julianne mergulhou no universo da doença, não ficou apenas na literatura: “Falei com os diretores da Associação Nacional do Alzheimer e conversei por Skype com diferentes mulheres que tinham sido diagnosticadas todas com menos de 50 anos. Falei com médicos, pesquisadores. Passei pelos mesmos exames que as pacientes. Tratei de conhecer todos em cada etapa da doença, e todos foram muito generosos em dispor de tempo e informação. Eu sempre perguntava a mesma coisa: ‘Pode me dizer o que você sente?’ E todos tinham uma explicação.”

Perguntada sobre sua experiência pessoal com o Alzheimer, a atriz respondeu: “Não. Tive sorte nesse sentido, mas mantenho contato com uma das mulheres com quem conversei. É a mais jovem de todas, foi diagnosticada com 45 anos e também era ruiva como eu.”

Uma ironia, por que eu?

“Léxico”, essa foi a primeira palavra que Alice Howland perdeu de si durante uma palestra sobre linguística. Uma ironia, por que justamente ela, uma professora universitária e pesquisadora que dedicava sua carreira ao estudo da fala e da comunicação?

Todos a invejavam pela capacidade cognitiva que tinha, diziam que ela detinha “uma mente afiada”. Uma mulher cujo passatempo predileto eram os jogos de palavras cruzadas pelo celular.

E aquele pequeno, sutil lapso de memória, o que poderia significar? Qualquer um de nós diria: estresse ou como ela mesma justifica para a plateia: “quem sabe não seria o champanhe que havia tomado?”.

Mas os esquecimentos não param por aí. Uma avalanche de novos episódios acontece até que chega o inevitável diagnóstico somado ao gravíssimo fato de que ela possui um tipo raro da doença, desencadeado por uma mutação genética dominante e hereditária.

“Para sempre Alice” ou como prefiro chamar “Ainda assim, Alice” é baseado no livro homônimo da neurocientista americana Lisa Genova.

No site da revista Veja, especialistas explicam que “casos como o da personagem são minoritários no universo de pessoas com a doença.

De acordo com a Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz), essa demência afeta 35,6 milhões de pessoas no mundo, das quais 1,2 milhão no Brasil. Com o aumento da longevidade, o número de pacientes deve dobrar até 2030 e triplicar até 2050. Nos Estados Unidos, já é a sexta maior causa de morte na população.

A causa da forma mais comum de demência senil, o Alzheimer, é desconhecida. A doença não tem cura e os medicamentos administrados ajudam a preservar a função cerebral e a tratar sintomas como insônia e depressão. Em estágios avançados, as pessoas podem apresentar dificuldade de locomoção, comunicação e deglutição, além de incontinência urinária e fecal.

O filme “Para Sempre Alice” tenta responder algumas questões: “Qual é a probabilidade de uma pessoa desenvolver Alzheimer aos 50 anos? De que modo a ciência genética pode impedir que um indivíduo transmita o gene da doença ao seu filho? Em que medida atividades intelectuais protegem o cérebro contra a demência? É possível que apenas dois anos após o diagnóstico a pessoa já esteja completamente dominada pelo Alzheimer?”

Quem deseja conhecer mais histórias que tratam do tema, não pode deixar de assistir outros dois grandes filmes:

1) “Longe Dela” (Direção: Sarah Polley; Ano: 2006; Produção: Canadense)

Grant e Fiona formam um casal feliz, que tem sua vida abalada quando ela apresenta alguns graves sintomas, como perda de memória. Logo vem a confirmação: Fiona está com a Doença de Alzheimer. Relutante a princípio, ela passa a aceitar a doença e se interna numa clínica. Uma das regras do local é que os pacientes não recebam visitas durante seus primeiros 30 dias. Quando Grant finalmente consegue vê-la, ela já não o reconhece mais. Fiona está agora afeiçoada por Aubrey, outro paciente da clínica, o que faz com que Grant tenha que se contentar com sua nova condição de amigo ao mesmo tempo em que tenta ajudá-la a se lembrar do passado.

2) O Filho da Noiva (Direção: Juan José Campanella; Ano: 2001; Produção: Argentina)

Rafael é um quarentão que separou-se da esposa há três anos e agora tem uma nova namorada. Também tem uma filha, a quem vai ver sempre que possível com toda liberdade. Ele é dono de um restaurante, propriedade da família há muitos anos, que está passando por uma crise, devido à situação econômica. Seu pai, um sujeito engraçado, de bem com a vida, tem um único arrependimento: não ter se permitido casar-se na igreja, por questão de crença (ou falta dela). E ele decide que já está na hora de fazer isso. O problema é que sua esposa tem a Doença de Alzheimer, e mal pode reconhecer sua família.

Assista 

Trailer “Para Sempre Alice”- https://www.youtube.com/watch?v=U_RUDZx6vYM

Trailer “Longe Dela”- https://www.youtube.com/watch?v=Bb8Q4zBoQ08

Trailer “O Filho da Noiva”- https://www.youtube.com/watch?v=619K1kPariI

Luciana Helena Mussi

Luciana Helena Mussi

Engenheira, psicóloga, mestre em Gerontologia pela PUC-SP e doutora em Psicologia Social PUC-SP. Editora-executiva da revista Kairós Gerontologia. Coordenadora da Coluna Filmografia do Portal do Envelhecimento. Professora do Curso de Especialização em Gerontologia (Cogeae-PUCSP). E-mail: lucianahelena@terra.com.br.

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