Ageísmo e preconceito – acabou a brincadeira

Lugar de velho é onde ele quiser, e esta vontade tem e precisa ser respeitada; sem piadas, sem demagogia, com respeito às individualidades e sem que criminosos disfarçados de humoristas cotidianos continuem a ser os debochados que deixam de responder pela prática de seus atos.

Por Karim Barros, Lilian Osmo e Natalia Carolina Verdi (*)

 

Que levante a mão aquele que nunca sofreu preconceito, independentemente do motivo.

Quando o assunto é discutido entre a população idosa, percebe-se que ao longo dos anos e exatamente pela passagem deles, a questão do preconceito se torna ainda mais séria.

Inúmeras são as histórias narradas por vários idosos ao fazerem um retrospecto da vida ou ao narrarem fatos cotidianos, algumas com preconceitos bem contraditórios, como por exemplo: ou eram loiros e altos demais para terem ocupado um cargo de direção quando trabalharam em alguma empresa sem que anteriormente tivessem se submetido a trocas de favores das mais variadas ordens junto aos seus superiores, ou são negros e pobres demais para frequentarem lugares tidos como de uma população branca e de alto poder aquisitivo.

Quando a idade avança as questões se tornam ainda mais complexas, haja vista que os comentários ditos como “de brincadeira” inúmeras vezes vêm imbuídos de uma conotação absolutamente pejorativa, ou, numa escala ainda mais ampla, criminosa.

O idoso é hoje grande parcela da população mundial, e comprovadamente, integrará a sociedade em números ainda mais expressivos com o chegar dos próximos anos, o que possibilita afirmar que, caso alguns comportamentos não sejam revistos, passará o velho a ser vítima de atitudes desrespeitosas na mais alta conotação do termo, na medida em que a falta de conhecimento e de cultura daqueles que o cerca também é questão crescente.

Busca-se hoje o chamado envelhecimento ativo, no sentido de que todas as alternativas de melhores condições de vida e de saúde sejam apresentadas àqueles que têm idade avançada, razão pela qual difundir esclarecimentos acerca de direitos que são garantidos a esta mesma população é de irretocável importância, a fim de que o respeito ao idoso seja medida absolutamente eficaz a todos que estiverem nesta condição.

A população em geral, seja jovem ou mais velha, precisa tomar conhecimento de que algumas brincadeiras não possuem esta conotação tão simples, e que independentemente da idade que se tenha é necessário saber que algumas atitudes são criminosas e que praticá-las implica em responder perante a justiça.

No século em que o envelhecimento ativo é medida perseguida por todos, é inconcebível a discriminação etária e o entendimento de que o ageísmo é questão particular a decidir tantas outras, de forma que em seu confronto face aos mais variados tipos de preconceito não se configurem um desvio lamentável ou muitas vezes punível de conduta.

A busca por uma vaga de emprego, por exemplo, respeitadas as devidas peculiaridades de cada cargo, não deve ter na idade elevada simples e unicamente o único fator decisivo para preenchimento do cargo.

As pessoas mais velhas têm o direito de exercer aquilo a que se propõem, desde que observados os requisitos técnicos para fazê-lo, sem estar sujeita a piadas como a de que deveria o velho estar em casa a fazer tricô ou a tomar sopa ao invés de querer praticar aquilo a que se candidata.

Colocações como a de que o horário do remédio passou; a de que fralda precisa ser trocada ou a de que há uma mutilação no corpo daquele que foi vítima de um câncer e que por isso aquela pessoa é limitada a conseguir fazer qualquer coisa são, por exemplo, atitudes que não podem mais ser admitidas, considerando o caráter ofensivo e criminoso que as norteia.

Faz-se necessário um esclarecimento duplo: o idoso precisa saber de seus direitos e a população mais jovem e até mesmo alguns próprios idosos, de seus deveres.

Há uma tênue linha entre a brincadeira e a ofensa que permeia cada comentário, a qual, ultrapassada, leva a uma grave situação deflagrada e a um crime inquestionavelmente tipificado, pelo qual o seu autor deve responder independentemente da idade.

A população precisa ser esclarecida de que os direitos garantidos aos idosos não são opções legislativas, mas imperativos a serem respeitados por todos, harmonicamente dentro da sociedade.

Muitas vezes até o próprio idoso precisa saber, por exemplo, que em algumas situações, aquele que for ainda mais idoso que ele tem preferência, a depender do caso, de acordo com a legislação a ser aplicada dentro de cada especificidade.

Muitas são as questões ainda a serem difundidas junto à sociedade para que o ageísmo e o preconceito deixem de caminhar lado a lado de forma tão harmônica e tão inseparavelmente gritante como ocorre nos dias de hoje.

Na medida em que se busca um envelhecimento ativo na era da informatização, difundi-las é medida primordial e de não tão difícil concretização, mas que precisa ser perseguida.

Inúmeros são os canais digitais para propagação de ideias, incontáveis são os centros de encontros, incalculáveis são as questões a serem tratadas, por que não, junto às escolas de formação básica.

Uma criança é um velho em crescimento, razão pela qual crescer e envelhecer sendo sabedor e questionador dos limites entre a brincadeira e a seriedade de cada questão inerente a cada particularidade daquele que se apresenta mais velho, é um dos caminhos que podem construir um futuro a ela própria muito melhor.

Lugar de velho é onde ele quiser, e esta vontade tem e precisa ser respeitada; sem piadas, sem demagogia, com respeito às individualidades e sem que criminosos disfarçados de humoristas cotidianos continuem a ser os debochados que deixam de responder pela prática de seus atos.

No limite entre o ageísmo e o preconceito necessário se faz afirmar e se concretizar que no século do envelhecimento garantidamente ativo, acabou a brincadeira!

(*)Karim Barros, Lilian Osmo e Natalia Carolina Verdi – Mestrandas em Gerontologia Social, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Ilustração: Ping Zhu

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