A senilidade e o misticismo podem apresentar o mesmo jeito de caminhar

Ela podia ser, ao mesmo tempo, o ser humano mais crédulo e o mais impressionável por banalidades. As cortinas se mexendo pelo vento eram motivo suficiente para que ela criasse significados místicos e pautasse o próprio cotidiano, inerte fisicamente, mas atribulado psicologicamente. Disse, uma vez, que o tricô e as músicas do Belchior eram seu grande pretexto para não enxergar tanto detalhes que meu pai chamaria de imbecis.

Escrito por  Sergio Trentini (*)

 

Eu estava suado quando o estalo me acordou. Um ruído característico da casa de madeira, agora nostálgico pelas circunstâncias. Em qualquer outro dia das semanas anteriores, tivesse despertado às três da madrugada, ouviria os resmungos da vó no quarto ao lado, que, após os noventa e três anos, passou a conversar não sozinha, mas com alguém que eu não via; e que meu pai taxava como sendo os amigos imaginários consequentes da senilidade. E que, na nossa família, todos os que passavam dos oitenta invariavelmente acabavam nessas de falar sozinho. E trágico garantia, com seus pulmões de cinquenta e dois anos, que ele, nem a pau, chegaria aos oitenta.

Eu tinha o hábito de lixar as unhas da vó, algo que, até ela vir morar conosco, era completamente angustiante para mim. Ouvir a lixa passar por baixo e pelos lados e por todas as extremidades diagonais de unhas femininas era como ouvir um prato de porcelana sendo arranhado por três dentes de um garfo. E quanto mais rápidos fossem os movimentos da lixa, mais eu precisava me afastar, apertar os olhos e travar a mandíbula em uma mordida constante e ostensiva.

Minhas namoradas não entendiam e nem eu sabia explicar. Assim como não saberia dizer se perdi a agonia para manter um capricho que a vó sempre teve desde a vida adulta, ou para tentar amenizar o correr das horas estancadas de uma existência, então, destinada a permanecer deitada, de barriga para cima, em uma cama de proporções razoáveis, algo entre uma cama de casal e uma de solteiro. Racionalizo isso agora, da mesma forma que posso fazer com os ruídos da casa de madeira, ocasionados pela oscilação arrogante da temperatura que atacava Porto Alegre naqueles dias. A verdade é que, na época, ficava, na maior parte do tempo, encantado pelo sistema muito pessoal de interpretação da vida que a velha tinha.

Ela podia ser, ao mesmo tempo, o ser humano mais crédulo e o mais impressionável por banalidades. As cortinas se mexendo pelo vento eram motivo suficiente para que ela criasse significados místicos e pautasse o próprio cotidiano, inerte fisicamente, mas atribulado psicologicamente. Disse, uma vez, que o tricô e as músicas do Belchior eram seu grande pretexto para não enxergar tanto detalhes que meu pai chamaria de imbecis. Eram recorrentes seus putaqueopariu, e o pai disse que ela sempre teve a boca suja, isso não era consequência da senilidade.

Eram os mistérios da vida cotidiana que mais rendiam seus rompantes. A televisão que tinha no quarto dela, a última de tubo da casa, estava velha a ponto de ligar sozinha de vez em quando, e sempre que isso acontecia, em horários alternados, ela exclamava o putaqueopariu. No mais, falava com muita gente, e houve um ponto em que começou a dar forma, rosto e roupas para elas. Disse uma vez que uma menina loira de vestido azul tinha elogiado as unhas dela, e sugeriu que talvez pintasse de vermelho qualquer dia desses.

Que uma mulher alta e com brincos em formato de raio passou por ali para dizer que estava se mudando para São Paulo e viera pedir dicas para a vó sobre a vida em São Paulo. Comprei o esmalte e, mesmo diante do olhar de reprovação do meu pai, dediquei alguns bons minutos para que tudo corresse bem na pintura, ainda que ninguém, fora eu e o pai, fosse ver o esmero vermelho naquelas unhas finas.

Perto do final já não falava muito. Tinha, então, alguns rompantes de lucidez uma vez por semana. Periodicidade que acredito ser de responsabilidade dos remédios redobrados receitados pelo Almeida, médico amigo do pai que veio até nossa casa examiná-la. O olhar dele e do pai se encontraram numa cumplicidade absoluta de que era questão de tempo, e não de muito tempo.

Então, ela passava os dias olhando para o teto enquanto movimentava as mãos como se tricotasse com agulhas invisíveis. Fora dos momentos lúcidos, eu passava por seu quarto para dizer oi, antes de me atirar na cama com o notebook no colo. Dando sorte, ela virava os olhos na minha direção e pedia que lhe trocasse a fralda. E sempre que eu fazia isso, com um pouco do pavor puro e simples por estar diante de um corpo humano tão frágil e tão próximo do simples encerramento de suas funções vitais, ela perguntava com o que eu tinha sonhado.

Ela interpretava os sonhos como se os colocasse em um plano material palpável. Cheguei a pensar que perto do fim a velha havia encontrado uma ruptura na parede de manifestações inconscientes e inconsistentes da existência. O pai dizia que ela sempre foi bruxa. Mexia com tarô, lia mão. O pai argumentava que ela tirou muito dinheiro de muita gente assim. Eu acho que ela ouvia tudo que ele resmungava, mas ignorava e encontrava nos meus olhos um pacto de conduta secreto que era na maior parte do tempo silencioso. Silêncio e tricô imaginário. Silêncio e teclas do meu notebook sendo batidas numa conversa qualquer com um amigo já distante.

Essa afinidade das entrelinhas se confirmou um dia antes de sua morte, quando ela solicitou que sentasse pertinho dela na cama para, então, com uma voz fraca dizer que, na infância, meu pai se aterrorizava só de passar na frente da casa de um tio que morava pela vizinhança, assassinado por três tiros dentro de casa, durante um roubo. Naquele tempo quem tinha rádio acabava sendo assaltado, ela falou. O pai dizia apenas que era “a casa do morto”, e fazia uma volta maior para ir ao colégio, pedalava duas quadras a mais para não passar na frente da casa do morto, falou. Ele e eu já temos o suficiente agora, falou antes de pedir que eu a pegasse no colo e levasse para longe dali; para uma calçada, um cemitério, um abrigo municipal.

Voltei para o quarto e tentei ajustar a ideia de que a senilidade e o misticismo podem apresentar o mesmo jeito de caminhar. No fim, peguei no sono sem coragem de voltar ao quarto da vó, sem dar uma resposta. Ela nunca acordou daquela noite. O pai foi o primeiro a ver e veio direto no meu quarto, abriu a porta sem bater, o que me estressou de imediato. Tua vó morreu, falou.

Os procedimentos todos foram feitos. No dia seguinte ao velório, o clima frio e ventoso que nos acompanhou na cerimônia se transformou em uma noite quente e pesada. O pai me deu boa noite, e logo em seguida apaguei para acordar com o estalo de uma das madeiras da casa, eu estava suado. Afastei os lençóis e tirei a camisa. Em algum momento adormeci outra vez. Ainda sem camisa, já de manhã, entendi que o estalo não era do espírito da minha vó ou da estrutura material da casa se contorcendo pela temperatura e emulei a velha ao soltar um putaqueopariu quando entendi que o estalo — que, agora, sei, estava mais para estampido — veio do quarto do meu pai que, trágico, garantiu, com seus miolos de cinquenta e dois anos, que não chegaria aos oitenta.

 

(*)Sergio Trentini – Cursou psicologia, administração e jornalismo. Não terminou nenhuma das três. A última já passou da metade, e essa, jura que vai acabar. Assim como todas as histórias que começa a escrever. Escreve lá no Medium: . https://medium.com/@sergiotrentini/a-desilusão-de-um-vivo-na-casa-dos-mortos-c2611c55a386#.9q3xlmh87.
Texto reproduzido de http://www.papodehomem.com.br

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