80 anos: Arte Degenerada e Velhice Moderna

Velhos e velhas que cruzam meu caminho e que fortalecem aquilo que meu pai, aos 80 anos me ensina: Ali na frente sempre tem algo novo que vale a pena ser visto com novas maneiras de olhar. Ali na frente tem vida e ela está ali nos esperando para ser esgotada até o fim.

  

Seus 80 anos foram vividos repletos de angústias e incertezas. Agora no Centro Dia Público que frequenta, a vida parece, enfim, ganhar novo sentido, mas a verdade é que seu olhar é doente ao ponto de enxergar a chuva em uma manhã de um céu de um azul magnífico.

Sei bem que a vida não foi fácil para ele e se existe o fator sorte e azar, sua vida foi regada por infortúnios, o que reflete no seu semblante carrancudo que nunca aprendeu a sorrir. São 80 anos de um viver amargo! Faz-se hora de adoçar essa existência e fazer deste viver presente, algo que finalmente valha à pena. O Centro Dia tem cumprido seu papel.

Esta é apenas uma das histórias que me é apresentada como amostra de velhices como resultado de uma construção isenta de relacionamentos afetuosos. Que triste perceber o desperdício de um viver que poderia ter tomado outro rumo, caso alguma cumplicidade no olhar e no caminhar nas relações tivessem feito o caminho, evitando assim a degeneração da sua existência.

O ano era 1937. Há exatamente 80 anos era aberta em Munique, na Alemanha, uma exposição de arte que conceituava a Arte Moderna existente como algo de mau gosto, imoral e doente espiritualmente: A Arte Degenerada, oposta a Arte aceita pela sociedade de Hitler, precisava ser controlada a fim de alterar o cenário cultural de uma sociedade. A verdadeira Arte era feita de temas comuns e confortáveis aos olhos e expressa de maneira elegante e contida.

A Arte apresentada por Paul Klee, Amedeo Modigliani, Otto Dix, Marc Chagall, Franz Marc, Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, entre outros, formava um conceito de Arte que precisava ser desprezível, afinal, como pode um artista usar tamanha criatividade para expressar visões de mundo distorcidas e diferentes do mundinho comumente habitável e desejável pelas lideranças políticas da época? A Exposição da Arte Degenerada continha 650 obras entre pinturas, esculturas, desenhos, gravuras e livros, vindos de acervos de 32 museus alemães, consideradas artisticamente indesejáveis e moralmente prejudiciais ao povo.

Exibida ao público como um meio de impor e unificar a opinião e visão de mundo Nazista entre a cultura e organizações profissionais e sociais, essa Arte era gritante e por isso perigosa. Museus eram revirados e tinham suas obras “Degeneradas” saqueadas. O mal precisava ser contido. A vida era então vista, com os olhos de um velho rabugento e carrancudo incapaz de acompanhar a evolução de um viver dinâmico e expresso através de uma Arte inteligente e pulsante em criatividade e cor.

Há exatamente 80 anos a Arte Degenerada mostrava através de uma liderança perigosa, o quanto a imposição de opiniões serve apenas para castrar o pensamento que fica impossibilitado de ganhar asas e se lançar em novas tentativas de existência. Muito pertinente ao povo que precisava saber obedecer.

Penso então nos velhos e velhas que ficam presos a um passado e a um conceito de vida que não cabe mais neste viver atual. Velhos e velhas que não souberam transformar suas angústias em experiências a favor de um existir amoroso e com compaixão de si e que enxergam a chuva anunciada em um céu azul anil. Velhos e velhas que recusam o tempo atual e olham para a tecnologia como se esta fosse a tal Arte Degenerada de 1937, prejudicial à existência. Velhos e velhas que olham para a juventude com desprezo de quem tem na sua época a jovialidade ideal. Negam qualquer possibilidade de inclusão de um novo viver diferente de seus conceitos retrógrados e, muitas vezes, amargurados.

O ano era 1937. Meu pai nascia e com ele nascia uma existência que me foi apresentada como exemplo de vida. Marcada pela facilidade de articular o viver adaptando-se aos diferentes tempos vividos, vejo na velhice do meu pai um espelho que me norteia a um envelhecer capaz de coroar toda existência sentida.

Este ano, ao fazer 80 anos, olho para ele e penso na bravura artística de Kandinsky, George Braque, Picasso e tantos artistas que, naquele passado rotulado por um pensar pequeno, souberam se reinventar e criar um novo momento e uma nova Arte, capaz de expandir em ação aquilo que não poderia ser contido nem amarrado. Refletir a vida e a Arte era maior que os pensamentos tolhidos. A Degeneração não estava na Arte, estava nas mentes pequenas de um viver mesquinho e ínfimo.

Ao olhar para o velho carrancudo de 80 anos do Centro Dia e ao olhar para meu pai, tenho aprendido a me relacionar com a vida evitando a todo custo tornar a minha história em um viver degenerado e doente de afeto nas relações que me constituem. Não podemos permitir que nossos sonhos e nossas crenças sejam saqueados por forças da vida que teimam em incendiar nossos desejos pulsantes.

Anular-se perante as dificuldades do viver, tantas vezes amargo, é o mesmo que ter a certeza da chuva numa manhã de sol escaldante.

Velhos e velhas que cruzam meu caminho e que fortalecem aquilo que meu pai, aos 80 anos me ensina: Ali na frente sempre tem algo novo que vale a pena ser visto com novas maneiras de olhar. Ali na frente tem vida e ela está ali nos esperando para ser esgotada até o fim.

Há 80 anos a Arte Degenerada tentava aniquilar o conceito de Arte Moderna.

Há 80 anos o senhor do Centro Dia veio ao mundo acatar as imposições dadas pelas infelicidades da vida.

Há 80 anos a minha vida começava a ser modificada, antes mesmo de eu ter nascido.

Que os dias de sol possam ser mesmo ensolarados. Deixamos as nuvens pretas anunciarem a chuva apenas no tempo de chover. Não vamos nos precipitar.

Que as relações possam ser afetuosas com todos que constituem nosso viver. Em dias de sol e em dias de chuva sigo o meu caminho com todos que fazem parte deste caminhar. De mãos dadas sigo em frente com os velhos e as velhas, com o senhor carrancudo do Centro Dia e com meu pai, cujo amor e afeto me blindam de qualquer ameaça de tempestade que, mesmo anunciada, possa me pegar desprevenida.

O ano era 1937.

Cristiane T. Pomeranz

Cristiane T. Pomeranz

Arteterapeuta, entusiasta da vida e da arte, e mestre em Gerontologia Social pela PUC-SP. E-mail: crispomeranz@gmail.com

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